50 anos da Feira Paulista de Opinião: CENSURA!

“Um povo que não conhece sua história está condenado a repeti-la”, já dizia Che Guevara. (Frase original de Edmund Burke)

Che Guevara era personagem da peça de Boal: “A lua muito pequena e a caminhada perigosa”, uma das peças que compunham a Feira Paulista de Opinião. Nós do Instituto Augusto Boal, que temos em posse documentos importantes relacionados a censura dessa peça nos sentimos então no dever de divulgá-los, para que a história não continue se repetindo. (Lembrando que 50 anos após o assassinato político do estudante secundarista Edson Luís no centro do Rio de Janeiro, vivemos mais um brutal e covarde assassinato político de Marielle Franco, em 2018).

Estes documentos que nos referimos são imagens dos cortes feitos pela censura (84 cortes ao todo!) nos textos da Feira Paulista de Opinião em 1968.

E para abrir esse dossiê, que compartilharemos pouco a pouco, compartilhamos algumas imagens da peça “A lua muito pequena e a caminhada perigosa”, de Augusto Boal, após passar pela Censura Federal.

Vamos conhecer nossa história. Acompanhe nossa página e blog para mais informações sobre a Feira e outras lutas entravadas por Boal na sua trajetória em vida. Ainda temos muito a conhecer e aprender.

Retrospectiva de aniversário

Entramos na semana do aniversário de Boal, e continuamos nossa retrospectiva proposta para esse mês no blog.

Em 1957, depois do sucesso como diretor em sua primeira peça Ratos e Homens, no Teatro de Arena, Boal escreveu sua primeira peça no Brasil – “Marido magro, mulher chata”, na qual ele também dirigiu o elenco: Riva Nimtz, Vianinha, Vera Gertel, Geraldo Ferraz e Flavio Migliaccio. Nesta peça ele já esboçava o interesse em escrever uma dramaturgia originalmente brasileira ao retratar comicamente a vida de jovens moradores de Copacabana.

No mesmo ano, de 1957, Boal dirigiu também no Arena a peça Juno e o Pavão, uma peça de Sean O’Casey que retratava a guerra civil irlandesa. Em termos de direção, Boal ficara muito satisfeito: “Foi o espetáculo mais exato que tinha feito até então: emoção e rigor”. Treinava seus atores com o método de Stanislavski adaptando-o as condições do teatro brasileiro. E apesar de toda beleza e exatidão do espetáculo, Boal começou a perceber através da recepção do público, que o texto importado e traduzido não pertencia aquela realidade vivida na época: “Para quem se faz teatro? Para si ou para o público – e que público?”.

Essas percepções, relatadas por ele em sua autobiografia “Hamlet e o filho do padeiro”, foram importantes para os próximos passos dados por Boal no Arena, e na vida.

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Programa da peça “Marido magro, mulher chata”. Disponível no nosso acervo: http://www.acervoaugustoboal.com.br

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Fotografias de “Juno e o Pavão”, de 1957. Disponível em nosso acervo: http://www.acervoaugustoboal.com.br

Mês de aniversário do Augusto Boal!

É o mês de aniversário do Augusto Boal! E o Instituto Augusto Boal continua com a retrospectiva de sua carreira.

Ao retornar de sua primeira viagem aos Estados Unidos a estudos (plásticos e petróleos e teatro com John Gassner), e depois de ter se descoberto diretor e dramaturgo, Boal é convidado por José Renato e Sábato Magaldi a compor a direção do Teatro de Arena de São Paulo. No ano de 1956 dirigiu sua primeira peça no Arena e no Brasil: “Ratos e homens” de John Steinbeck.

E da mesma forma que tinha escutado de Gassner nos EUA: “Você é um dramaturgo”, ouvia agora, em 1956, de José Renato dizer: “Você é um diretor”. Augusto Boal foi muito elogiado em sua primeira direção e convidado para as próximas (dirigiu o Arena por mais 14 anos).

Sobre essa fase de sua vida, de descobertas vocacionais, Boal escreveu em sua autobiografia:
“Nunca tive certeza. Será que sou dramaturgo, diretor, professor, escritor, teórico? Tanta gente tem tanta certeza, sabe se definir – eu nunca soube. Sou talvez um, talvez outro.”

E até hoje, Boal não se encaixa em nenhuma definição limitadora: ele era um homem de teatro!

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Programa da peça “Ratos e homens”, 1956. Disponível em nosso acervo: http://www.acervoaugustoboal.com.br

 

Jô Soares sobre a I Feira Paulista de Opinião

“O ano de 1968 foi muito agitado para o pessoal do teatro. Numa conversa entre o Lauro César Muniz, o Augusto Boal, o Plínio Marcos e o Jorge Andrade, surgiu a ideia de fazer um espetáculo coletivo onde se procuraria responder à questão “O que pensa você do Brasil de hoje?”. Imediatamente o Boal propôs que o Teatro de Arena produzisse o evento, e eles convidaram o Gianfrancesco Guarniere e o Bráulio Pedroso para participar também. Os autores escreveram seis peças curtas: O líder (Lauro), É tua a história contada? (Bráulio), Animália (Guarniere), A receita (Jorge), Verde que te quero verde (Plínio) e A lua muito pequena e a caminhada perigosa (Boal). As peças eram entremeadas de canções: “Tema de abertura” (Edu Lobo), “Enquanto seu lobo não vem” (Caetano Veloso), “M.E.E.U.U. Brasil brasileiro” (Ary Toledo), “Espiral” (Sérgio Ricardo) e “Miserere nobis (Gilberto Gil). O Arena havia criado uma fórmula de unir o teatro com a música nos seus espetáculos de grande sucesso – Arena conta Zumbi e Arena conta Tiradentes – que funcionava muito bem, e a fórmula seria adaptada para a I Feira Paulista de Opinião.

Entre os corajosos atores que participaram da Feira estavam a Aracy Balabanian, o Renato Consorte, a Miriam Muniz, o Rolando Bondrin, a Cecília Thumim Boal, o Antonio Fagundes, o Luís Carlos Arutin, o Luiz Serra, o Zanoni Ferrite. No saguão do teatro, havia obras de artistas como Nelson Leirner (um longo túnel verde e amarelo), de Marcello Nitsche, do Mário Gruber, do Cláudio Tozzi. A cenografia e os figurinos foram do Marcos Weinstock, e a direção musical do maestro Carlos Castilho. Eu fiz o cartaz da Feira, baseado num antigo anúncio do Xarope São João, onde aparece a ilustração do homem sendo amordaçado, com a legenda “Larga-me… deixa-me gritar!”. No meu cartaz, lia-se: “Largue-me, deixe-me falar”. Na época, a divulgação mais efetiva do teatro era pregar cartazes em todos os muros da cidade, então São Paulo foi toda empapelada com o cartaz da Feira, o que me deixou superemocionado. A primeira vez que entrevistei Augusto Boal no meu talk show, ele me levou de presente o original do cartaz. Participei da Feira também com uma pintura que acabou dando muita repercussão, e me expôs ainda mais aos órgãos censores e repressores da ditadura. Ela retratava um general sentado na privada e tinha o título O repouso do guerreiro. O curioso é que, coincidentemente, no texto do Plínio Marcos para a I Feira Paulsita de Opinião tinha um militar do departamento de censura que ia ao banheiro, usava um capacete como penico e se limpava com o texto da uma peça. Dá pra ver que havia uma sintonia no grupo que se uniu em torno do evento. O Boal sempre abria o espetáculo dizendo que o evento era o primeiro ato de desobediência civil feito nos palcos e mostrava o meu quadro, que sempre provocava gargalhadas. Continuar lendo

Flávio Império, cenógrafo do Teatro de Arena

Hoje Flávio Império estaria completando 82 anos.

Boal comenta em “Hamlet, O Filho do Padeiro” que Flávio começou a escrever cenários com ele, no Teatro Arena.

“Maria Teresa Vargas, nossa amiga, conhecia um jovem arquiteto, Flávio Império, que nunca tinha feito cenário mas tinha vasto talento pra pintar e construir com as mãos. Ao contrário de se espantar com a exiguidade, achou desafio. Foi me fazendo perguntas e, quando me dei conta, eu estava falando, ele desenhando.”

No Arena ele criou diversas cenografias de peças dirigidas por Boal como: O Melhor Juíz, O Rei; Um Bonde Chamado Desejo; Arena Conta Zumbi; Arena Conta Tiradentes.

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Juca de Oliveira, Flávio Império, Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri reunidos com o troféu do Prêmio Saci. Foto disponível em:http://www.acervoaugustoboal.com.br/

Milton Gonçalves

Milton Gonçalves ingressou no Teatro de Arena de São Paulo em 1956 com a peça “Ratos e homens”, dirigida por Augusto Boal. O ator foi fundamental no início do grupo e na formação do Seminário de Dramaturgia.

Com o Teatro de Arena, atuou também nas peças”Eles não usam Black-Tie” (1957), “Chapetuba Futebol Clube” (1959), “Gente como a gente” (1959), “Revolução na América do Sul” (1960), “Pintado de Alegre” (1961), “O Testamento do Cangaceiro” (1961), “A Mandrágora” (1962) e “Arena Conta Zumbi” (1963).

Com 60 anos de carreira, comemoramos hoje os 84 anos de Milton Gonçalves e sua imensa contribuição para o teatro brasileiro.

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Milton Gonçalves e Flávio Migliaccio em cena de “Revolução na América do Sul” (1960)