Peça retoma e mergulha em montagem de Boal

via Folha de São Paulo – Nelson de Sá

Com grande engenhosidade na dramaturgia, ‘Os que Ficam’ tenta encenar texto dos anos 1960 do dramaturgo

Ansiava-se há tempos pelo encontro da Cia. do Latão de Sérgio de Carvalho com o Teatro de Arena de Augusto Boal (1931-2009). São os grupos do teatro político mais representativos em seus períodos – a atualidade e os anos 1950/60, respectivamente.

A ponte histórica acabou sendo lançada, um pouco fortuitamente, por uma mostra sobre Boal no Rio e agora pela mostra dos 18 anos da Cia. do Latão em São Paulo.

A “peça-ensaio” resultante, “Os que Ficam”, retrata uma tentativa de encenação em 1973, auge da repressão e da desesperança política, da peça “Revolução na América do Sul”, texto de Boal montado originalmente em 1960, em plena febre revolucionária na região.

O espetáculo tem alguns trechos daquela peça, mas sobretudo pensa sobre ela, conversa com ela e seu tempo. São personagens da época, a começar pela figura do diretor, Fernando, que remete ao ator, encenador e crítico Fernando Peixoto (1937-2012).

O próprio Boal comparece, em primeira pessoa, na forma de cartas enviadas do exílio, algumas de emocionante desencanto. Na curtíssima temporada no Sesc Bom Retiro, os textos são lidos por Lauro César Muniz, dramaturgo que foi lançado então pelo diretor.

BUSCA OBSESSIVA

O efeito imediato que o autor e diretor do Arena tem sobre o trabalho de Carvalho e do Latão – embora o espetáculo tenha nascido fora do grupo, com o elenco carioca – é o de transportá-los de volta aos primeiros espetáculos, como “Ensaio para Danton” (1996) e “Ensaio sobre o Latão” (1997).

Mais que “peças-ensaios”, o que mais as caracteriza e assemelha é serem as três apaixonadas pelos originais que buscam obsessivamente compreender: “Revolução”, “A Morte de Danton” e, na peça que deu nome à companhia, “Hamlet” e “A Compra do Latão”, texto teórico de Brecht.

Em “Os que Ficam”, conta-se uma história de censura e perseguição do teatro, num período que mudou o país e ao qual o título se refere, em parte: são aqueles que ficaram para trás, que não partiram como Boal, que seguem vivendo, e adaptam-se até à televisão.

Mas são também “os que ficam” no Brasil de hoje, sobreviventes e herdeiros, como os três atores do Latão que no início lembram, em depoimentos na primeira pessoa, as suas experiências de crianças da ditadura, ao lado de pais que a combateram ou não.

Podia ser mais uma peça sobre o assunto, entre tantas que há, porém seu mergulho é também formal, não só temático. Como na experimentação incessante de Boal, há grande engenhosidade na dramaturgia, da seleção dos trechos de “Revolução” aos depoimentos e cartas.

E há emoção de sobra, até compaixão, como havia em Boal, por todos os caminhos tomados pelo teatro, representados em “Os que Ficam” pela diáspora dos atores que não conseguem realizar a “Revolução”. Mas que tentam seguir em frente, de algum jeito.

OS QUE FICAM
QUANDO qui. e sex., 20h; sáb., 19h; dom., 18h; até 26/7
ONDE Sesc Bom Retiro – al. Nothmann, 185 – tel. (11) 3332-3600
QUANTO R$ 9 a R$ 30
AVALIAÇÃO ótimo

Tonteei

 

Canção do espetáculo OS QUE FICAM (2015), sobre a trajetória de exilados políticos nos anos 1970, apresentado no quadro da exposição Augusto Boal, no CCBB do Rio de Janeiro.
Música de Martin Eikmeier, letra de Sérgio de Carvalho.

Curso: Dramaturgia Dialética

Ementa: Introdução ao trabalho de escrita para teatro épico-dialético, a partir de estudo de modelos de peças clássicas e modernas. Haverá exercícios práticos de escrita individual e coletiva. Destinada a artistas, pesquisadores e estudantes com experiência em teatro, a oficina, conduzida pelo dramaturgo e diretor Sérgio de Carvalho, pretende acompanhar o desenvolvimento de projetos interessados em temática social

Coordenador e Professor: Sergio Carvalho – diretor da Cia do Latão
Professores: Julian Boal e Priscila Matsunaga

Período
De 14 de agosto a 13 de dezembro
Sábados: 11h – 15h
Local
Biblioteca Parque Estadual Continuar lendo

Release – I Feira Antropofágica de Opinião

“A Antropofágica realiza nos dias 15 e 16 de fevereiro (sábado e domingo), das 14h às 22h, no Espaço Cultural Tendal da Lapa (Zona Oeste), a II Feira Paulista de Opinião ou I Feira Antropofágica de Opinião, em referência a I Feira Paulista de Opinião, dirigida por Augusto Boal em 1968. O evento reunirá 20 premiados grupos teatrais de São Paulo, além de diretores, escritores e músicos que participaram da I Feira, como Cecília Thumim Boal, Mário Masetti e Sérgio Ricardo.”

(…)

“O que pensa você do Brasil de hoje? A Antropofágica reúne artistas de diversas gerações para responder a esta pergunta na II Feira Paulista de Opinião ou I Feira Antropofágica de Opinião.”

Release: RELEASE I FEIRA ANTROPOFÁGICA DE OPINIÃO – ANTROPOFÁGICA

Anatol Rosenfeld fez toda uma geração aprender a pensar

Anatol Rosenfeld e Augusto Boal nutriam uma admiração mútua, estabeleceram uma relação de cumplicidade. Era comum que Augusto endereçasse questionamentos e fosse ouvido por Anatol, este vínculo foi fundamental para as diretrizes do trabalho de Boal e do Arena.

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Texto publicado no blog de Sérgio de Carvalho: http://www.sergiodecarvalho.com.br/?p=1770

O alemão Anatol Rosenfeld (1912-1973) ajudou muita gente a pensar por conta própria. Ainda hoje, é o crítico teatral mais importante na formação dos artistas de minha geração em São Paulo. Depoimentos dos que o conheceram dizem que a mesma independência dos seus notáveis escritos marcava a prática do professor: preferia dar aulas em casas de amigos a manter vínculos institucionais que pusessem em risco sua autonomia intelectual.

A distância que mantinha das normatizações filosóficas era semelhante à aversão que tinha em face de qualquer instrumentalização do homem.

Nas páginas de “A Arte do Teatro: Aulas de Anatol Rosenfeld”, feitas de notas taquigrafadas por Neusa Martins, encontram-se os lados complementares de sua atitude intelectual. São lições de introdução de teatro. Foram ministradas em 1968, no Instituto de Arte e Decoração de São Paulo.

O caráter panorâmico não impede o alto nível da exigência analítica e interpretativa. Ao comentar o trabalho de Brecht em “Mãe Coragem”, ele como que define o próprio ideal de dialogar com o espectador mais simples: “Há grande complexidade mas também grande simplicidade, como em todas as grandes peças e obras de arte, nas quais a simplicidade exterior revela, se examinada em profundidade, uma multiplicidade de planos”.

Para Rosenfeld, um olhar crítico sobre a arte deve partir de um interesse amoroso pela dimensão objetiva da obra, que, no caso do teatro, se realiza na representação, na relação simbólica que surge da interação entre o ator vivo e o público.

Mas para observar, como disse Brecht, é preciso comparar. Daí o recurso deliberado a uma ciência perdida, a dos gêneros. De que serviria, em tempos pós-estruturalistas, recorrer à divisão entre épica, lírica e dramática, ou às definições de tragédia e comédia?

Rosenfeld usa categorias clássicas como elementos pedagógicos de transição. Ao fim das contas, é a leitura histórica das formas que prevalece: “É preciso encontrar novas formas de tratar uma problemática nova”. O passado é evocado na perspectiva do avanço. A dialética da forma se alia à formação do olhar crítico.

Encontra-se nas suas lições uma afirmação da estética que tem algo de negação. Na comédia clássica, patético é o intelectual que se fixa em conceitos ideais e não consegue se adaptar ao mundo trivial.

Em Pirandello, Rosenfeld vê sentido parecido: triste daquele que se fixa de modo angustioso no comportamento social e se identifica com a máscara. Sendo o teatro uma arte da “conversão no outro”, ele deve servir ao exercício moral, nos termos de Kant, para quem “não se deve usar outro ser humano como meio, mas como fim”. Em 1968, o crítico tinha clareza sobre seus critérios progressistas. Daí a sátira ao conservadorismo de Aristófanes ou o desprezo pela incultura reacionária de Nelson Rodrigues.

Eram tempos em que a questão fundamental a ser enfrentada pelo teatro era a objetualização da vida, o esmagamento do homem, sua conversão em produto, o fato de que “nada escapa de ser mercadoria, nem a própria realidade, que pode ser multiplicada”. Há muito mais o que fazer antes da proclamação das impossibilidades: “É mistificação a transferência do infortúnio histórico para o infortúnio metafísico”.

Contra as mistificações, seu exemplo segue vivo.

(Resenha ao livro A arte do teatro: aulas de Anatol Rosenfeld, São Paulo, Publifolha, 2009. Texto publicado em Folha de S. Paulo, 10.08.2009.)

Cia. do Latão mescla Brecht e Sérgio Buarque de Holanda

Espetáculo ‘O Patrão Cordial’ disseca o jogo cordial nas relações de trabalho

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Divulgação – Cena do Espetáculo

Matéria de Maria Eugênia de Menezes – O Estado de S. Paulo

Em seu novo espetáculo, a Cia. do Latão parece ter encontrado o mais brasileiro dos textos de Bertolt Brecht. O Patrão Cordial, que o grupo estreia hoje no Sesc Belenzinho, toma como base a peça do dramaturgo alemão: O Senhor Puntila e Seu Criado Matti. E a mescla a um dos livros essenciais da historiografia nacional, Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda.

“Esse ponto de encontro entre os dois autores não é uma percepção nova”, comenta o diretor Sérgio de Carvalho, relembrando os escritos de Anatol Rosenfeld. O antigo crítico teatral e literário do Estado, que atuou nos anos 1950 e 60, talvez tenha sido o primeiro a perceber o diálogo entre as duas obras e já apontava a existência daquilo que denominou como ‘cordialidade puntiliana’.

Saudado como essencial para a interpretação do processo de formação do País, Raízes do Brasil disseca as particularidades da colonização ibérica na América, ressaltando o predomínio do privativo sobre a vida pública. Em sua análise, Buarque de Holanda descreve como peculiaridade brasileira a “acentuação singularmente enérgica do afetivo, do irracional, do passional”. Diagnóstico lançado em 1936, mas ainda precioso para entender as contradições de nossa modernização.

No Patrão Cordial, o foco recai especialmente sobre as relações de trabalho. Na adaptação, o empregado Matti se tornou o motorista Vitor. Já o senhor Puntila surge como Cornélio, um fazendeiro que mantém com seus empregados um relacionamento que varia em função de sua dependência alcoólica: é afetuoso e dócil quando embriagado. Mas, se sóbrio, porta-se de maneira impiedosa e cruel. Seu comportamento, portanto, pouco ou nada considera aquele que é seu interlocutor. Ao tentar criar uma falsa intimidade com quem o serve, esse patrão lança mão de um mecanismo que se espraia pelas dinâmicas> sociais que conhecemos: substituem-se os limites claros da lei pelo compadrio, em que as regras são nebulosas e imprecisas.

“O jogo cordial vem para manter a regra oscilando. Uma oscilação, é claro, que favorece o empregador”, considera Carvalho, que assina a dramaturgia e a encenação do novo trabalho. O afeto imposto pelo protagonista surge, nesse contexto, como uma antítese da distância. Aquele que detém o poder vem anular a possibilidade do outro constituir-se como indivíduo. “E, ao obscurecer a individualidade do empregado, ele obscurecer também a diferença de classes.”

Toda a estrutura narrativa da peça de Brecht foi mantida na montagem: o enredo, os conflitos e o seu pendor cômico. O que a fricção da obra alemã com Raízes do Brasil trouxe à atual versão foram alterações no espaço e no tempo: a trama é transposta da Finlândia para o Vale do Paraíba e passa-se durante os anos 1970 – certo deslocamento que deve manter o espectador em estado de alerta para compreender as reverberações e pontos de contato com o presente.

Outra diferença repousa sobre os personagens coadjuvantes, que ganharam novas características e tiveram seus diálogos reescritos. Além dos empregados assalariados, surge a figura tipicamente nacional do “agregado”. A filha do protagonista, aqui batizada de Vidinha, também tem alguns de seus contornos acentuados. Apaixonada pelo motorista, vê sua ingenuidade ruir de forma violenta e exasperada.

Com esse novo espetáculo, o Latão retorna a um universo que já explorou em criações anteriores. Em A Comédia do Trabalho (2000), as relações profissionais eram o mote. A dita “cordialidade” brasileira também já havia sido dissecada pelo grupo em Auto dos Bons Tratos (2002), que se debruçava sobre episódios do Brasil Colônia.

Teatro épico. O que acontece agora é um encontro desses elementos temáticos com a dramática de Bertolt Brecht – figura que está no horizonte do coletivo desde sua criação, em 1996. Quando encenou Ensaio sobre o Latão, em 1997, trazia uma mescla de textos do dramaturgo. Depois, montou dois dos seus títulos mais conhecidos: Santa Joana dos Matadouros (1998) e O Círculo de Giz Caucasiano (2006).

Aspectos do teatro épico – um dos pilares do pensamento brechtiano – foram radicalizados nessa versão. “Toda a mediação com o público se dá por meio da palavra”, considera o diretor. “Os intérpretes estão em uma espécie de fio da navalha, tentando equilibrar-se entre o realismo ditado pelo texto e o absurdo das situações apresentadas.”

Para propor uma reflexão crítica, Brecht buscava um distanciamento entre o espectador e aquilo que levava à cena. Saíam os efeitos de ilusão – que tentam reproduzir a realidade no palco. Entravam elementos que escancarassem à plateia os mecanismos de funcionamento do teatro.

Em O Patrão Cordial, a encenação se dá em um espaço em formato de arena e desprovido de cenografia. Os atores estão completamente expostos. Fazem saltos e elipses no tempo. Trazem a música como comentários das ações. Revezam-se nas tarefas de narrar e encenar a história.

http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,cia-do-latao-mescla-brecht-e-sergio-buarque-de-holanda,1094296,0.htm