Abdias Nascimento e Augusto Boal

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Abdias Nascimento e Augusto Boal no lançamento do livro “Hamlet e o filho do padeiro” na Cinemateca do MAM (2000). Foto de Cristina Lacerda.

Foi através de Abdias Nascimento que Augusto Boal iniciou sua trajetória como dramaturgo, escrevendo peças para o Teatro Experimental do Negro (TEN). Em seu autobiografia “Hamlet e o filho do padeiro”, Augusto Boal fala de sua relação com o amigo:

Foi no Vermelinho que conheci Abdias. Antes, minha relação com os negros era de piedade: sentia pena dos negros da Penha. Depois, passou a ser de admiração: como era possível, cercados por tanto preconceito, que os negros sobressaíssem, fosse no que fosse? No teatro, por exemplo, personagem negro era escravo ou criado. Para o papel de Otelo, nem pensar! Pele: estigma!

Meus personagens passaram a ser menos piegas e mais revoltados. Passei a gostar de subversivos combatentes: abaixo a melancolia!

Arena conta Zumbi

“Arena conta Zumbi” foi encenado pela primeira vez em 1965. Escrito por Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal, com música de Edu Lobo, direção de Augusto Boal e direção musical de Carlos Castilho, estreou no Teatro de Arena de São Paulo em 1º de maio de 1965.

Em “Hamlet e o filho do padeiro”, Augusto Boal fala sobre “Arena conta Zumbi”:

“Em Zumbi, outra vez, a metáfora. Usamos a República Negra formada por escravos que se libertavam – os capturados ainda escravos, escravos permaneciam em Palmares, que ocupava superfície maior que a Península Ibérica. Palmares se desenvolveu por um século no nordeste do país até ser destruído por uma coligação de portugueses e holandeses, quando o seu poder comercial ameaçava a hegemonia branca. Palmares resistiu até o último homem. Numância.
Queríamos resistir.
O texto usava jornais. Um discurso do comandante analfabeto, Don Ayres, destruidor de Palmares, foi copiado ipsis litteris do ditador Castelo Branco falando ao Terceiro Exército: nosso exército se converteria em gigantesca política, o verdadeiro inimigo (nós!) estando dentro e não fora das nossas fronteiras.”

Reprodução acervo Instituto Algusto Boal

Na foto: Marília Medalha, Anthero de Oliveira, Chant Dessian, Vanya Sant’Anna, Gianfrancesco Guarnieri, Dina Sfat e Lima Duarte (de costas) em cena de “Arena conta Zumbi” no Teatro de Arena de São Paulo, 1965. Foto de Derly Marques disponível em nosso acervo online: http://www.acervoaugustoboal.com.br/

 

Torquemada em Buenos Aires

Augusto Boal deixou o Brasil em 1971, após ser liberado do Presídio Tiradentes em São Paulo, onde foi preso e torturado durante a Ditadura Militar brasileira.
 
Em Dezembro de 1971 encenou a peça “Torquemada” na New York University, com alunos da Universidade, em que a figura do inquisidor espanhol Torquemada, conhecido por sua crueldade durante o reino de Aragão e Castela de 1478 a 1494, retoma o sistema corrupto e violento que se instaurava no continente latino-americano.
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Ator em cena de “Torquemada”

Em seguida, Boal e sua família seguiram para o exílio em Buenos Aires, onde residiram até 1976. A peça foi montada e dirigida por ele em Buenos Aires em junho de 1972 no T
eatro do Centro e em outubro do mesmo ano na Sala Planeta. Sobre a apresentação de “Torquemada” em Buenos Aires, Augusto Boal escreveu em seu livro “Hamlet e o filho do padeiro”:
 
“Dirigi Torquemada. Não acreditava no que me havia acontecido. Precisava vê-lo acontecer fora de mim, em cena, para que me pudesse ver, separar-me de mim. Eu e a palavra, eu e o ator. Só assim me entenderia. Não me bastava espelho nem memória: precisava me ver em alguém que me roubasse o nome, o Augusto Boal que eu pensava ser, que trazia colado ao rosto, às mãos, ao peito. Já não sabia quem eu era ou tinha sido. Queria ouvir palavras que pronunciei na tortura. Voz empostada de ator bem treinado reproduzindo gritos roucos. Ver-me, longe de mim. Dirigir-me como dirijo atores.”
Torquemada BuA (dragged)

Recorte de publicação de Augusto Boal em “El milagro brasileño – Diario dependiente del State Department”, em Buenos Aires.

Depoimento de Noni Ostrower

Querida Cecília,

Quero te dizer da minha emoção ao ler “Hamlet e o
filho do padeiro”. O livro me acompanhou dias seguidos,
principalmente quando acordava no meio da madrugada me
questionando sobre a vida, se estou no caminho certo, etc,
etc. Era muito bom então pegar o livro e ver como o Boal,
apesar de tantas dúvidas, incertezas e desvios de rota,
conseguiu construir seu caminho com uma inteireza que é
uma inspiração para todos nós.

Além disso, o livro é saboroso, dá vontade de morder
como uma fruta madura! E que delícia o humor constante,
que aparece mesmo nas situações tristes. Ele nos lembra
que a vida é essa coisa bagunçada, em que as coisas
nunca têm só um significado.

Fui lendo bem devagarzinho, mas não teve jeito, acabei
terminando. Não tem importância, ele agora vai prá
estante dos livros que releio muitas e muitas vezes, sempre
descobrindo novos sentidos para o viver.

Tenho imensa gratidão por ter convivido neste planetinha
no mesmo tempo que você e ele.

Um grande beijo,
Noni