A Fábrica de Teatro Popular e sua atualidade em tempos de retrocesso – 30 anos depois

A Fábrica de Teatro Popular e sua atualidade em tempos de retrocesso – 30 anos depois

Aqueles e aquelas que se inspiram na trajetória e no trabalho de Augusto Boal, provavelmente já ouviram falar algo a respeito do seu retorno do exílio ao Brasil. Na época, em 1986, o regresso foi devido a um convite para trabalhar em parceria com Darcy Ribeiro em um projeto piloto denominado Fábrica de Teatro Popular, que integraria parte da metodologia dos recém criados Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs), conhecidos também como Brizolões. Nessa época, Darcy Ribeiro era então secretário de Estado, Ciência, Cultura e Tecnologia de Leonel Brizola (PDT), eleito em 1982 governador do estado do Rio de Janeiro.

O Brasil, nesse momento ainda estava imerso a uma violenta ditadura militar e passava por um árduo processo de redemocratização, iniciado em 1979 com o retorno do pluripartidarismo e a lei da anistia, processo este culminado apenas em 1988 com a promulgação da nova constituição. Assim, quando Boal volta ao país, Brizola era um dos poucos governadores de esquerda em exercício e desde de que fora eleito, caminhava com transformações profundas em setores estruturais do estado. No que se referia a educação, dois anos após o início do mandatado, ficou a cargo de Darcy iniciar o Programa Especial de Educação (PEE), dentro do qual o projeto do CIEPs seria desenvolvido e implementado.

O PEE tinha como principal objetivo “consolidar o ensino público moderno, bem aparelhado e democrático” (RIBEIRO, 1986) e foi idealizado devido a tradição impopular que a escola pública tinha até então com as camadas mais pobres da sociedade. Darcy, através do projeto denunciava o elitismo da educação pública, que nos moldes de então, perpetuava a desigualdade social, já que sua estrutura, metodologia e currículo beneficiavam um pequeno grupo social de estudantes pertencentes as camadas mais ricas da sociedade. O programa propunha em seu lugar, nos trilhos das ideias defendidas por Anísio Teixeira e Paulo Freire, uma educação outra, efetivamente popular, dialógica, que não transformasse as diferenças dos grupos sociais em desigualdades. Pelo contrário, buscava um modelo educacional onde estas diferenças fossem colocadas como ponto de partida de todo e qualquer aprendizado, estando assim mais próximos das diferentes realidades e interesses dos alunos e alunas, caminhando para se construir como efetivamente crítico e emancipatório.

É importante contextualizar este cenário educacional no estado de Rio de Janeiro quando Boal chega em terras brasileiras, para entendermos a dimensão que tinha a Fábrica de Teatro Popular neste momento. O projeto ao qual Boal foi convidado a dirigir, pertencia a um movimento importantíssimo da educação do estado, que foi drasticamente interrompido por questões estritamente políticas, quando Brizola perde as eleições de 1987 e assume Moreira Franco do PMDB (que já nesses tempos se dedicava a devastar a política no estado do RJ), deixando um projeto como o CIEPs de lado sem nenhum critério pedagógico ou avaliativo. Na verdade, como parte de um processo reacionário em relação aos avanços alcançados nos últimos anos.

A Fábrica de Teatro Popular foi pensada para trabalhar diretamente com um grupo de educadores específicos dos CIEPs, os animadores e animadoras culturais. Essa função era um dos pontos mais transgressores que integravam o modelo educacional do projeto. Dentro dos cerca de 500 centros integrados o objetivo era oferecer uma educação integral aos alunos e alunas. Integral não apenas em questão da ampliação de carga horária, mas no sentido mais amplo do termo. Esta proposta educacional buscava então formar os jovens, não focando apenas no desenvolvimento cognitivo, para a entrada no ensino superior e o mercado de trabalho, mas para o desenvolvimento pleno do potencial humano, para o convívio em sociedade e para o questionamento da mesma. Assim, além das aulas que compunham o currículo básico dadas no turno da manhã, os alunos e alunas participavam de uma série de outras atividades no contra turno ligadas a esportes, artes, educação sexual, estudo dirigido, além de tempos de leitura, atendimento médico, dentário e alimentação completa.

É neste ponto que são inseridos os animadores e animadoras culturais. O modelo de educação idealizada, compreendia o inestimável valor dos aprendizados que vinham no tempo livre e que se davam nas relações cotidianas com a comunidade e a cultura local. Dessa forma, acreditavam que o aumento na carga horária dos alunos e alunas, ao mesmo tempo que proporcionaria uma formação mais ampla, integral e libertária, comprometeria o contato com estes valiosos saberes que circundam os espaços formais de educação.

Os animadores e animadoras culturais eram mestres e mestras da cultura popular que já trabalhavam com alguma linguagem artística na comunidade local. Estes educadores e educadoras trabalhavam através das especificidadessocioculturaisde cada território onde cada unidade do CIEP estava inserida. Os animadores e animadoraseram responsáveis então pela interconexão entre estes conhecimentos populares e locais e a educação formal centralizada nos CIEPs, que por sua vez ofereciam a infraestrutura que possuíam para o uso de toda comunidade, principalmente em dias e horários em que não havia aula. Assim, quadras poliesportivas, salões sociais, bibliotecas e refeitórios ficavam abertos para a comunidade local, deixando de estar ociosos nesses tempos livres.

A Fábrica de Teatro Popular tinha então o objetivo de formar estes animadores e animadoras culturais como multiplicadores do Teatro do Oprimido (TO), e é neste ponto que a participação de Boal e da equipe nos CIEPS demonstra características transgressoras do método que valem a pena serem ressaltadas. Cada animador cultural era um trabalhador da cultura que já utilizava alguma linguagem artística, criadora, estética. A partir dessa formação estes animadores poderiam utilizar os jogos, exercícios e técnicas que compõe a metodologia TO no seu trabalho como educadores e educadoras dentro das suas áreas de trabalho. Mas além disso, aprendendo a base conceitual do método,estes profissionaisestariam levando outra proposta de ensino/aprendizagem para dentro dos espaços formais de educação.

Formar educadores e educadoras com uma proposta metodológica como o TO, incute em propor um trabalho educativo com alguns preceitos característico de uma educação emancipatória, crítica, dialógica. Como por exemplo a proposta de que na ação educativa não existe sujeito passivo, todos criam, todos se reapropriam dos meios de produção de cultura, todos criam significados a partir da sua expressão, todos são spect atores enquanto ensinam/aprendem, e os papéis de ensino e aprendizagem devem se revezar, se confundir, se sobrepor.

Outro exemplo é a proposta de criar narrativas coletivas, polifônicas. Essa proposta também característica do TO, principalmente das montagens de teatro-fórum, trazem uma reflexão e inspiração importantíssimas a educação formal. Como é possível pensarmos uma produção de conhecimento que se enriquece na diversidade? Que se potencializa na amplitude de perspectivas que são legitimadas para a construção da aprendizagem?

Além disso, o TO em espaços formais de educação nos permite pensar como podemos caminhar no sentido de pensar o saber e o fazer, a estética e o conhecimento (VITORIO, 2007) como parte do mesmo processo, ambos criadores, ambos produtores de saberes, ambos amplamente educativos. E postos dessa forma, potencialmente transgressores.

Assim, quando Boal junto a equipe da Fábrica de Teatro Popular, formada também por Cecília Thumim e Rosa Luiza Marques, iniciam seus trabalhos nos CIEPs, buscam, claroformar multiplicadores de TO que iriam montar peças de Teatro Fórum, as quais seriam apresentadas na rede de CIEPs, levantando debates estéticos e propostas para a resolução das problemáticas sociais apresentadas, mas também proporcionam um processo de formação com estes animadores e animadoras culturais com outra lógica de pensamento educativo, que tinha em muito para oxigenar e transbordar-se para dentro desta proposta já revolucionária dos CIEPs.

A proposta do projeto piloto era ter uma estrutura de formação clara e completa, que formasse continuamente animadores/educadores onde todos e todas deveriam passar por seminários de dramaturgia, laboratório de interpretação e ateliê de cenografia. A partir destes estudos e do trabalho prático desenvolvido junto aos alunos e alunas dos CIEPs estariam em constante formação para aplicar e multiplicar o método.

É importante colocar aqui, que o projeto dos CIEPs tinha como objetivo materializar a educação integral que desde Anísio Teixeira e os planos da Escola Parque no fim dos anos 1950, eram uma promessa de transformações estruturais no modelo educacional brasileiro. Assim, compreendemos que esta nova proposta educacional propunha uma educação efetivamente integral, muito diferente desta reforma educacional aprovada em 2017 pelo governo Michel Temer (ilegítimo). Não apenas diferente, mas diretamente oposta a esta, inclusive.

A reforma do ensino médio, aprovada a toque de caixa através de uma medida provisória (MP 746) em fevereiro de 2017, de moderna só tem os comerciais, e olhe lá, porque são bem caídos e cafonas. Apresenta um discurso de flexibilização do currículo, de liberdade de escolha dos alunos e alunas sobre suas áreas de interesse, de ampliação da carga horária e de uma formação mais ampla, mas na verdade, nas entrelinhas percebe-se o retrocesso que significará para aeducação brasileira.

Primeiramente, a reforma foi aprovada através de uma medida provisória. Uma pauta como esta, que necessitaria de amplo debate feito pela sociedade civil, principalmente por educadores, educadoras, especialistas da área e pelo alunado. O formato de aprovação da reforma então, já denuncia o nível de desconexão desta com as necessidades reais da educação, já que envolveu pouco diálogo com os principais envolvidos no setor e os mais impactados por ela. Seguidamente, propõe um aumento da carga horária progressivo (de 800 para 1.400 horas anuais, sendo que em cinco anos as escolas devem oferecer pelo menos 1.000 horas anuais), que naturalmente eleva o custo por aluno da educação pública, fato de certa forma contraditório já que poucos meses antes este governo havia aprovado a PEC 241/55 (do teto de gastos), que congela os gastos com saúde e educação por dez anos, com possibilidade de renovação, ou seja, mais dez anos.

Além disso, a reforma proposta cria cinco itinerários formativos, “dando” a opção para o alunado escolher quais áreas pretende se aprofundar. Entretanto, permite que as escolas não sejam obrigadas a ter todas as cinco opções, de forma que os alunos e alunas ou terão que escolher dentre aquelas que a escola possui, ou terão que pedir transferência para outra escola. Pensando na realidade do país, e na escassez de escolas em muitas regiões, principalmente nas áreas rurais, já podemos imaginar como ficará estas “possibilidades de escolha”. Por fim, a nova proposta de ensino médio coloca Sociologia, Filosofia, Educação Física e Artes não mais como disciplinas a serem cursadas, mas caracterizadas como “estudos e práticas”, deixando em aberto para a BNCC (base nacional comum curricular) definir como serão trabalhadas. Artimanha que possibilita que sejam enquadradas como áreas de estudo dentro de outra disciplina ou projeto pedagógico da escola.

Parece, no mínimo curioso, ambas as reformas educacionais das quais falamos, tanto a proposta através dos CIEPs, e a reforma do ensino médio aprovada pelo governo draculástico, terem o conceito de educação integral como base referencial. Denominação muito discutida, pesquisada e defendida por muitos educadores e educadoras sérios e comprometidos, mas utilizada, neste momento, de forma interesseira e perversa                                                                                                                                          por um projeto reacionário de governo.

Por isso, em momentos de ataque a democracia como o que vivemos, além de luta e persistência no trabalho educacional que acreditamos, esse sim libertário, emancipatório e democrático, é necessário relembrar também os projetos educacionais já idealizados, já implementados, já também combatidos por outros pensamentos e sujeitos que tinham no neoliberalismo suas premissas educacionais. Darcy, Freire, Anísio e Boal se reviram agora, certamente putos da vida com tamanho atraso provocado por este assalto a educação e cultura brasileira. Mas acredito que, liderados pelo nosso eterno dramaturgo, já estão ensaiando alguma intervenção, que some a luta dos trabalhadores e trabalhadoras da educação no processo e resistência contra o desmonte da educação pública.

                                                                                                Igor Trombini

Rosa Luiza Márquez e o teatro em Porto Rico

Em Setembro o Instituto Augusto Boal dedicará suas publicações a difusão do Teatro latino-americano, apresentando diversos grupos e suas conexões com o trabalho de Augusto Boal.

Iniciamos com Rosa Luisa Márquez e o teatro em Porto Rico!

Rosa Luisa Márquez é artista de teatro e pedagoga porto riquenha. Começou sua carreira na Universidade de Porto Rico em 1978. Oferece cursos de teatro em escolas, prisões, centros de reabilitação, espaços para mulheres, centros comunitários, entre outros. Publicou os livros “Brincos y Saltos: el juego como disciplina teatral” e “Historias para ser contadas, montaje de Rosa Luisa Márquez”.

Rosa Luisa trabalhou em conjunto com Augusto Boal e o Teatro do Oprimido em diversas ocasiões, principalmente na chamada Fábrica de Teatro Popular em 1986, projeto de Darcy Ribeiro de utilizar o teatro para discutir cidadania, direito, igualdade, entre tantas outras coisas nos CIEPs.

Fotos de Fabian Boal (1986)

 

 

A Fábrica de Teatro Popular

Em 2017 se cumprem os 30 anos do belo projeto que nos trouxe de volta ao Brasil.

Por iniciativa de Darcy Ribeiro, um gênio, apaixonado e visionário, Boal, outro homem genial e apaixonado, veio trabalhar nos CIEPs, a genial invenção de Darcy. Não acho outra forma para descrevê-los.

Era impressionante ver os dois juntos, delirando, inventando, sonhando alto, dois furacões, duas tsunamis em ação. Faz bem à alma no meio de tanta, tanta, tanta mediocridade!!!!!

Fruto dos generosos delírios uma ideia: a Fábrica de Teatro Popular.

Animadores animados, usando teatro para discutir cidadania, direitos, igualdade.

Eucanãa, Silvia, Valéria,  Luiz Vaz, Luiz Boal, Rosa Luisa de Puerto Rico, Maria Libia, Noni, Claudete, Boal e eu.

Nos Cieps das periferias apresentado as nossas peças para o debate, debates que terminavam sempre com um farto lanche oferecido pelas experientes cozinheiras.

Saudades daquele tempo !! Como é possível que Darcy tenha perdido essa eleição?

No lugar de Darcy, Moreira Franco. No lugar dos Cieps:  escola integral, com as suas mães sociais, bibliotecas,  animadores culturais e escolas sucateadas.

Temos que aprender a cuidar melhor o que temos, a cuidar melhor dos brasileiros como Boal e Darcy porque são únicos, são nossos e são excepcionais.

Texto de Cecília Boal sobre a Fábrica de Teatro Popular

 

 

 

 

 

 

 

Augusto Boal: o subversivo maravilhoso

Veja matéria publicada na revista Outras Palavras sobre a trajetória de Boal

Encenação de “Murro em ponta de faca”, do Boal, com direção de Paulo José, em 2013. Em cena, Laura Haddad, Gabriel Gorosito, Erica Migon, Sidy Correa, Abílio Ramos e Nena Inoue (Foto: Roberto Reitenbach)

Encenação de “Murro em ponta de faca”, do Boal, com direção de Paulo José, em 2013. Em cena, Laura Haddad, Gabriel Gorosito, Erica Migon, Sidy Correa, Abílio Ramos e Nena Inoue
(Foto: Roberto Reitenbach)

Boal queria transformar o mundo. Queria um mundo em que as pessoas pudessem se realizar em todo seu potencial. Quando voltou dos Estados Unidos, em 1956, veio com uma das mais poderosas armas para o desenvolvimento humano. Veio com o teatro incorporado a seu ser, acreditando que Stanislavski o ajudaria a levar a cabo a revolução cultural necessária. E reinventou o teatro. Continuar lendo