Albertino Boal, irmão de Augusto, filhos do padeiro

Quando colocamos online a página do Instituto Augusto Boal, a nossa intenção era divulgar o trabalho de Boal e também o do Instituto. Desde então temos tido algumas boas surpresas.

Muita gente já sabe que Boal nasceu na Penha (RJ), e que o seu pai, José Augusto, era dono de uma padaria famosa pelos seus pães e pela sua solidariedade.

Lá os vizinhos podiam usar o forno de lenha para os seus assados dominicais e, coisa preciosa, o telefone.

Graças a isso a padaria se tornou famosa, quase tão famosa quanto o próprio Augusto Boal.

Acontece que de vez em quando algum antigo vizinho da Penha nos lê no Facebook e entra em contato conosco.

É o caso de Carlos, casado com a filha da dona Solange , que entrou em contato para nos dizer que a sua sogra tinha trabalhado na padaria do seu Boal que, naquela altura, já estava nas mãos de Albertino, o irmão médico, quem assumiu a padaria logo depois do falecimento do pai.

Pedimos a Layane que entrasse em contato com Solange e eis a historia.

O mais comovedor é o fato dela ter guardado preciosamente o cartão de Albertino Boal, médico, durante tantos e tantos anos.

Solange Maria de Lima:WhatsApp Image 2018-04-25 at 14.43.12

“No ano de 1989, eu estava na época com 19 anos, perdi meu emprego num supermercado e logo depois descobri que estava grávida e fiquei meio sem rumo porque não tinha como arrumar emprego, como eu ia arrumar emprego grávida, né? Aí o doutor Boal colocou no jornal  um anúncio pedindo  uma operadora de caixa para a padaria dele, ali na Lobo Junior. E eu fui assim mesmo, grávida, não falei nada e comecei a trabalhar. Fui trabalhando e o doutor Boal sempre me pedindo minha carteira para assinar, só que eu pensava assim: se ele assinar minha carteira, ele vai ter que pagar todos os meus direitos trabalhistas como se eu tivesse engravidado após o meu começo no trabalho, sendo que isso é uma inverdade porque eu já entrei grávida. Aí eu fiquei meio que enrolando para não perder o emprego e eu falava que ia levar a carteira e nunca levava. Quando foi um dia eu falei “quer saber? Eu vou falar a verdade”, aí eu falei com ele que estava grávida e ele me diria se me mandava embora ou não porque se eu desse a carteira e ele assinasse, depois ele ia ter que me pagar todos os direitos, me indenizar.  Eu acho que por isso, por eu ter dito a verdade, acabou que ele falou “não, pode ficar trabalhando até o final da gravidez”. Aí eu trabalhei, ele sempre me tratou muito bem, pegou uma confiança muito grande em mim. Ele falava do Augusto Boal, o irmão dele, que o irmão dele estava fazendo teatro e ele conversava muito comigo. Eu tive o bebê, fiquei um tempo sem trabalhar, acabei retornando. Dado um tempo, eu precisava de um emprego que pagasse mais, que eu pudesse ter uma ascensão. Eu precisava de uma carta de recomendação, ele (o doutor Boal) me deu uma  e eu só fiz entregar lá (na nova proposta de emprego) e já estava empregada ,  porque ele colocou que eu era secretária dele, que eu trabalhava há muitos anos com ele, ele falou que só me daria aquele papel porque confiava em mim. Passados dois anos, o gerente do doutor Boal vai lá em casa perguntar se eu to trabalhando porque o doutor Boal tava precisando de alguém para trabalhar com ele, se eu podia ir. Aí eu falei que poderia ir sim, só que tinha um problema, eu tava grávida de novo. O Antônio falou com ele, ele aceitou, trabalhei a gravidez toda. Ele quis conhecer a criança quando nasceu e eu sempre ia lá levar minhas filhas para ele ver. Eu agradeço muito ele porque foi em um dos momentos que eu mais precisava, que ninguém iria me empregar, ninguém iria ficar com uma pessoa grávida né?  Quando eu fui para ter minha filha, ele como tinha sido médico obstetra, me deu um cartão dizendo que eu era secretária dele, pedindo ao colega dele lá de Bonsucesso para me receber bem. Eu nunca fiz uso desse cartão, porque eu nunca gostei muito daquela coisa de “ah me trata bem porque eu conheço o fulano, beltrano”. Eu  acabei guardando o cartão por consideração, porque eu sempre fui muito grata a ele, por ele ter me aceito. Um dia, por acaso passei na padaria e perguntei ao Antônio por ele, aí ele me falou que tava tudo bem, nisso o telefone toca, era a notícia do falecimento do doutor Boal, eu achei curioso o fato de eu estar lá justamente naquela hora. Ele se dizia ateu, e tem tantas pessoas que às vezes se dizem religiosas e não deixam nada de bom para as pessoas lembrarem delas, ele foi uma das pessoas mais importantes na minha vida porque ele esteve presente nos dois momentos  em que eu mais precisei.

Na época os clientes da padaria eram aquelas pessoas conhecidas, que iam ali todos os dias. A padaria abria muito cedo naquela época, segunda a gente chegava e já tinha uma fila na porta. Na época eram aqueles fogões de lenha, hoje é tudo elétrico, mas na época era lenha então o doutor Boal tinha aquele galpão por trás da padaria que era cheio de lenha que era pra fazer os pães.  Eu me lembro bem das pessoas que eram clientes dessa época, engraçado, eu me lembro da fisionomia delas, me lembro que a maioria eram pessoas idosas. As pessoas às vezes comprava pão, mas na verdade eu tinha impressão que eles iam pra conversar também um pouquinho, pra tirar aquela coisa da solidão, porque muitos moravam sozinhos e iam lá comprar pão e acabavam conversando conosco e passando um pouco do tempo deles.”

Enviamos a entrevista para Sônia, sobrinha do Boal, que ficou emocionada e contribuiu conosco com seu comentário:

“Fiquei muito emocionada com esta história! Ele era exatamente assim. Ajudava todo mundo que ele podia, gostava de fazer amigos e todo mundo gostava dele. E a letra é dele mesmo. Embora ela não tenha feito uso do cartão, acho que ela deveria ter usado, porque não era um favor e sim uma maneira dele se certificar que ela seria atendida por alguém em quem ele provavelmente confiava. Era um grande cara também esse tio Albertino!”

Artes e Letras: Entrevistas

Em 2006 Boal deu uma entrevista para a publicação Artes e Letras: Entrevistas da EDUSP.

Segue trechos do ele disse:

por Walnice Nogueira Galvão Teoria e Debate, abril de 2006

“Uma das maiores expressões do teatro brasileiro nos conta um pouco de sua história, parte já publicada em Hamlet e o Filho do Padeiro: Memórias Imaginadas”.

Como você descobriu o teatro?

Quando eu era criança, não havia telenovela, mas o correio trazia, todo fim de semana, fascículos de romances, O Conde de Monte Cristo, A Ré Misteriosa. Minha mãe comprava, lia e dava para a gente ler. No domingo, toda a família se reunia em casa para almoçar, um almoço “ajantarado”. Vinham 25, trinta pessoas. Irmãos e primos, nos juntávamos e dramatizávamos os fascículos. Minha estreia no teatro foi aos nove anos. Mas minha estreia dirigindo foi em Nova York.

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