P.S. A Cecilia, com carinho – Texto de Lyza Brasil

Em 2016, participei da montagem, no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro, da exposição Meus caros amigos – Augusto Boal – Cartas do exílio,[1] que pretendia divulgar a atividade incansável do dramaturgo no período em que fora obrigado a viver fora do Brasil pelo regime imposto por um golpe militar – ameaça que, com profunda consternação, ronda mais uma vez o país. A seleção do material que integraria a exposição, feita na casa de Cecilia, diretora do Instituto Augusto Boal, foi realmente desafiadora, dada a quantidade e qualidade dos documentos que compõem o Acervo do IAB e o espaço restrito da Pequena Galeria do IMS/RJ.

Foram dias de reunião, leituras e conversas, fotos e datas, cartas e cafés, e o mar a invadir a sala, muita luz, vozes na praia e música ao cair da tarde. Em uma dessas tardes, descobrimos um delicioso bilhete do Boal para Cecilia, bilhete sobre o qual nunca escrevi, embora fosse meu preferido. Simples, curto, forte porque simples e curto, tanto em tão poucas linhas. Dizia assim: “Cecilia/ Hoje pensei em você./ P.S. – O dia todo”.

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Ficamos, todos os envolvidos na exposição, fascinados. Cecilia não queria expô-lo. Estava, claro, no seu direito de guardar uma memória. Eu, por outro lado, pensava no gesto. Tão (ou mais) bonito quanto o que estava escrito. Ele, em San Juan, México; ela, no Rio. Entre os dois, uma breve pausa nos compromissos para escrever palavras de saudade, de cuidado, de amor. Um gesto de amor. Ou do amor: “O amor implica a regeneração permanente do amor nascente”, diz o Morin em Amor poesia sabedoria.

Volto às memórias imaginadas do Boal.[2] Volto à primeira vez que o nome de Cecilia aparece. É uma referência ao Arena: “O mesmo aconteceu com Arena conta Tiradentes, mesmos autores, música de Gil, Caetano, Theo de Barros e Sidney Miller, e Arena conta Bolívar, texto meu e música de Theo, com Lima Duarte, Zezé Motta, Isabel Ribeiro, Cecilia Thumin, Renato Consorte, Hélio Ary…” Sigo adiante e, de segunda, encontro o que procurava: “Durante o Inspetor, fui convidado a dirigir em Buenos Aires, Teatro IFT. Escolhi O melhor juiz: engraçado traduzir nosso texto para o estilo de Lope. Segunda peça, A mandrágora. Não aprendi nada de novo e pouco ensinei; de novo e importante, vim de Buenos Aires com Cecilia Thumin, como esposa, e Fabián Silbert, meu filho”.

Nenhum detalhe do encontro, mas destacada sua importância. A discrição dá ainda mais sentido às poucas linhas do bilhete, que, apesar disso, ou por isso, têm, talvez, tudo quanto se poderia dizer. São elas que, revisitadas por acaso, me levam hoje a escrever esse texto como um gesto de carinho por quem, tão incansável quanto o Boal, o faz sempre presente num país pouco afeito à preservação do seu patrimônio cultural. A persistência de Cecilia, seu empenho, como o de Julian, filho do casal, em, de certa forma, dar continuidade ao trabalho de Boal – que requer constante reflexão sobre a potência crítica e interventora do teatro político – é, por si só, um modo de mantê-lo vivo no Brasil e no mundo. O Boal e o seu pensamento.

É outubro, comemoremos setembro, 27. A Cecilia, com carinho.

[1] A exposição encerrou este mês no Museu do Aljube, em Lisboa.

[2] A autobiografia Hamlet e o filho do padeiro: memórias imaginadas.

Rosa Luiza Márquez e o teatro em Porto Rico

Em Setembro o Instituto Augusto Boal dedicará suas publicações a difusão do Teatro latino-americano, apresentando diversos grupos e suas conexões com o trabalho de Augusto Boal.

Iniciamos com Rosa Luisa Márquez e o teatro em Porto Rico!

Rosa Luisa Márquez é artista de teatro e pedagoga porto riquenha. Começou sua carreira na Universidade de Porto Rico em 1978. Oferece cursos de teatro em escolas, prisões, centros de reabilitação, espaços para mulheres, centros comunitários, entre outros. Publicou os livros “Brincos y Saltos: el juego como disciplina teatral” e “Historias para ser contadas, montaje de Rosa Luisa Márquez”.

Rosa Luisa trabalhou em conjunto com Augusto Boal e o Teatro do Oprimido em diversas ocasiões, principalmente na chamada Fábrica de Teatro Popular em 1986, projeto de Darcy Ribeiro de utilizar o teatro para discutir cidadania, direito, igualdade, entre tantas outras coisas nos CIEPs.

Fotos de Fabian Boal (1986)

 

 

A Fábrica de Teatro Popular

Em 2017 se cumprem os 30 anos do belo projeto que nos trouxe de volta ao Brasil.

Por iniciativa de Darcy Ribeiro, um gênio, apaixonado e visionário, Boal, outro homem genial e apaixonado, veio trabalhar nos CIEPs, a genial invenção de Darcy. Não acho outra forma para descrevê-los.

Era impressionante ver os dois juntos, delirando, inventando, sonhando alto, dois furacões, duas tsunamis em ação. Faz bem à alma no meio de tanta, tanta, tanta mediocridade!!!!!

Fruto dos generosos delírios uma ideia: a Fábrica de Teatro Popular.

Animadores animados, usando teatro para discutir cidadania, direitos, igualdade.

Eucanãa, Silvia, Valéria,  Luiz Vaz, Luiz Boal, Rosa Luisa de Puerto Rico, Maria Libia, Noni, Claudete, Boal e eu.

Nos Cieps das periferias apresentado as nossas peças para o debate, debates que terminavam sempre com um farto lanche oferecido pelas experientes cozinheiras.

Saudades daquele tempo !! Como é possível que Darcy tenha perdido essa eleição?

No lugar de Darcy, Moreira Franco. No lugar dos Cieps:  escola integral, com as suas mães sociais, bibliotecas,  animadores culturais e escolas sucateadas.

Temos que aprender a cuidar melhor o que temos, a cuidar melhor dos brasileiros como Boal e Darcy porque são únicos, são nossos e são excepcionais.

Texto de Cecília Boal sobre a Fábrica de Teatro Popular

 

 

 

 

 

 

 

Texto de Rafael Villas Bôas sobre a forma de narrar de Cecilia Boal

Rafael Villas Bôas, professor da Universidade de Brasília e integrante do Coletivo Terra em Cena, compareceu à conversa com Cecilia Boal que aconteceu no dia 20 de julho na galeria da exposição “Meus caros amigos – Augusto Boal – Cartas do exílio”, no Instituto Moreira Salles. O texto a seguir apresenta as impressões sobre Cecilia que inspiraram Rafael durante o evento, realizado entre as correspondências e outros documentos expostos, testemunhas do período de exílio de Boal.

Cartas do exílio e a forma de narrar de Cecilia Thumim Boal

Numa tarde fria e chuvosa de 20 e junho de 2016, dentro da pequena sala do Instituto Moreira Salles, no Rio de Janeiro, onde está a exposição Cartas do Exílio, Cecília se pôs a falar para uma plateia interessada, que lotava a sala repleta de cartas, fotos e cartazes.

Pelas cartas de Augusto Boal podemos perceber o gesto da disciplina intelectual de elaborar, sempre, sobre as contradições da realidade em que vivia e com a qual se defrontava. No diálogo com companheiros, como Chico Buarque e Guarnieri, estava sempre a compartilhar sentimentos, impressões, e a combinar trabalhos conjuntos, publicações, peças, músicas. Proletários artistas profissionais, empenhados na melhor divulgação dos seus trabalhos, buscando meios de sobreviver na adversidade, agindo como propagandistas contra o golpe no exterior.

A ligação com organizações políticas, como o Partido Comunista Brasileiro (PCB) e a Aliança Libertadora Nacional (ALN), era também uma característica comum. Tempos menos fragmentados: o trabalho intelectual não estava à serviço de carreiras individuais, a realidade não era apenas objeto de análise.

Mas, naquela tarde estava Cecília a discorrer sobre as cartas: o homem com quem viveu e trabalhou, a ditadura, o exílio e seus múltiplos traumas, ressaltando todavia as possibilidades que a experiência proporcionou à família. De todas as formas como a história pode ser contada, Cecília evita aquelas cujo encaixe de sua presença no processo ou à destaque, ou a reifique, no lugar tradicional da mulher de um grande homem.

Diante de nós estava uma atriz e uma psicanalista, a mulher por quem Boal se apaixonou e levou uma vida junto. Uma trabalhadora que não se vangloria contando os espetáculos em que atuou. O desavisado não saberá por ela, mas pelo cartaz da montagem de “Arena conta Zumbi”, que lá estava ela no elenco, e também de muitas outras peças em diversos países.

Por intermédio de uma carta de Boal para a mãe ficamos sabendo que, por vezes, era ela que bancava a casa – o exílio marcado pelas dificuldades econômicas, com seu trabalho de atriz nas montagens de sucesso que participou.

A condição de psicanalista – a audiência soube por ela que definiu na França abandonar a carreira de atriz porque já não aguentava a cada mudança de país ter que aprender com fluência a língua para poder atuar – confere à narrativa de Cecília um ponto de vista terno e distanciado, tanto sobre a relação de Boal com a mãe, quanto sobre a projeção de culpa que carregou diante do impacto do exílio sobre os filhos dela e Boal.

Essa condição, agregada ao fato de ser argentina, também lhe permite um comentário distanciado sobre o Brasil e seus pactos: de silêncio sobre o passado, de conciliação cordial no presente. Países que promoveram rupturas radicais em seus processos formativos carregam na cultura, na sociabilidade, legados desse gesto. O impasse da conciliação permanente como gesto político não é um dilema de nossos países vizinhos como é para nós, brasileiros.

Por isso ter Cecília entre nós elaborando sobre os (nossos) traumas é uma oportunidade de grande aprendizado: sem vitimização, sem heroísmo, a narrativa de Cecília vai nos mostrando uma personagem fundamental, não apenas do passado, mas do tempo presente.

Esse tempo do agora extravasou os limites da exposição, do período da resistência à ditadura e da expectativa com a democratização. As pessoas perguntavam sobre o Instituto Augusto Boal, sobre a eficácia do Teatro do Oprimido como meio de formação e resistência. Alguns, como o estudante Andrey, do Levante Popular da Juventude, não apenas perguntava, mas dava depoimento de suas experiências com o método.

Cecília e Julian Boal puderam então abordar as redes, os encontros, em que estão ativamente envolvidos. Aqui termino, como testemunha da forma produtiva que ambos têm se colocado no cenário do teatro político contemporâneo: contra a cômoda posição de herdeiros do legado do mestre, os dois, mãe e filho, trabalhadores do teatro – Julian também como pesquisador, fazendo doutorado sobre o tema – têm se colocado como articuladores, mediadores, potencializadores de encontros  intercontinentais entre grupos e movimentos sociais. Por exemplo, ocorreu o Encontro Internacional de Teatro do Oprimido na Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), de 27 de junho a 01 de julho de 2016, reunindo cem pessoas de oito países e mais de vinte grupos praticantes de Teatro do Oprimido. E o II Seminário Internacional Teatro e Sociedade (SITS), da Rede Teatro e Sociedade, ocorrido na Universidade de Brasília, de 14 a 17 de dezembro de 2015, em que Cecília ministrou uma das cinco oficinas, compartilhando como era o método de interpretação desenvolvido pelo Teatro de Arena, em que ela atuava como atriz e Augusto Boal como diretor.

O empenho de Cecília e de Julian não é o de, tão somente, publicizar uma forma bem sucedida de teatro, mas de questionar a todo momento o limite e a potência das formas e métodos, sempre em contraste com as possibilidades do tempo histórico em que vivemos, e com as condições objetivas de sobrevivência do Teatro Político na atualidade. Sem a reivindicação de um protagonismo espetacular e hierárquico, vão a maneira deles ligando o passado ao presente, promovendo encontros, dando palestras, ministrando oficinas, organizando exposições, construindo elos essenciais.

Rafael Villas Bôas

Professor da Universidade de Brasília

Integrante do Coletivo Terra em Cena

Cecília Boal no programa Arte do Artista

Cecília Boal bate um papo com Aderbal Freire-Filho

Teatro e ação social são temas da conversa sobre o dramaturgo Augusto Boal

Aderbal Freire-Filho recebe Cecilia Boal no Arte do Artista

Aderbal Freire-Filho recebe Cecilia Boal no Arte do ArtistaReconhecido internacionalmente como um dos grandes encenadores do século vinte, o brasileiro Augusto Boal definiu o teatro de várias formas: salvação, invenção do futuro, expressão natural do homem, fórum e até arte marcial.

Para falar sobre o mestre e sua obra, o Arte do Artista desta semana recebe Cecilia Boal, companheira de toda a vida, que luta, há anos, pela preservação do acervo do criador doTeatro do Oprimido, que alia teatro e ação social.

Sempre ao lado do marido, nas suas inúmeras aventuras e desventuras, ela concede uma entrevista histórica, a Aderbal Freire-Filho, rememorando momentos fundamentais tanto do teatro quanto da cultura nacional, a começar pela fundação do Teatro Oficina, na década de 1960.

Horário(s) do Programa
Nacional
Quarta à 01:30
Segunda às 23:00
RJ
Quarta à 01:30

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