Milton Gonçalves

Milton Gonçalves ingressou no Teatro de Arena de São Paulo em 1956 com a peça “Ratos e homens”, dirigida por Augusto Boal. O ator foi fundamental no início do grupo e na formação do Seminário de Dramaturgia.

Com o Teatro de Arena, atuou também nas peças”Eles não usam Black-Tie” (1957), “Chapetuba Futebol Clube” (1959), “Gente como a gente” (1959), “Revolução na América do Sul” (1960), “Pintado de Alegre” (1961), “O Testamento do Cangaceiro” (1961), “A Mandrágora” (1962) e “Arena Conta Zumbi” (1963).

Com 60 anos de carreira, comemoramos hoje os 84 anos de Milton Gonçalves e sua imensa contribuição para o teatro brasileiro.

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Milton Gonçalves e Flávio Migliaccio em cena de “Revolução na América do Sul” (1960)

 

 

Show Opinião, show-verdade

O Show Opinião surgiu após o Golpe de Estado de 1964. Com o aumento da repressão da ditadura militar no Brasil, o grupo do Teatro de Arena de São Paulo se separou e seus integrantes foram morar em outros estados.

Augusto Boal passou um tempo na cidade de Poços de Caldas (MG) e, em seguida, foi para o Rio de Janeiro. Nessa época, se uniu a membros do CPC da UNE (Centro Popular de Cultura da União Nacional de Estudantes) para criar um espetáculo como resposta à ditadura.

A resistência contra o governo militar se organizava na cidade e um dos espaços de efervescência político-cultural era o restaurante Zicartola, mantido por Cartola e sua mulher, Dona Zica. O local era o ponto de encontro de sambistas de destaque, dentre eles Nara Leão, Zé Ketti e João do Vale. Daí surgiu o Show Opinião, no qual cantores, cantando, contariam suas histórias:

Nosso show-verdade era diálogo: João lia a carta que escreveu ao pai, ao fugir de casa, menino; lia para Nara, lágrimas rolando, lágrimas que vestiam suas palavras. Nara respondia com ternura, olho no olho, carinhosa: “Carcará. Pega, mata e come”.  (Augusto Boal em sua autobiografia, “Hamlet e o filho do padeiro”)

Acervo Instituto Algusto Boal

Teatro Experimental do Negro

O Teatro Experimental do Negro (TEN) surgiu em 1944 e se propunha a trabalhar pela valorização social do negro no Brasil através da educação, da cultura e da arte. Abdias Nascimento, fundador do grupo, publicou este artigo relatando a importância do TEN no movimento negro e na história do teatro brasileiro.

Em 1957 o grupo estreou a peça “O mulato” do dramaturgo norte-americano Langson Hudges. Geraldo Campos de Oliveira foi um dos fundadores do TEN e falou um pouco sobre a peça e o movimento em reportagem:

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Matéria disponível em nosso Acervo Online

 

“O cavalo e o santo” e o Teatro Experimental do Negro

Em 1953 o jovem e recém-formado em Engenharia Química Augusto Boal se muda para Nova York para especializar-se em plásticos e petróleo na Columbia University of New York.
 
Augusto Boal já escrevia pequenos textos teatrais relatando a realidade em seu bairro, a Penha Circular, no Rio de Janeiro. Algumas de suas peças foram encenadas pelo Teatro Experimental do Negro (TEN) devido sua aproximação com o fundador do grupo, Abdias Nascimento.
 
Foi através de Abdias que Boal entrou em contato com Langston Hughes, dramaturgo e poeta negro, considerado o “Sheakspeare do Harlem”, figura importante na luta por igualdade racial nos Estados Unidos e essencial para maior aproximação e interesse de Boal pelos estudos em dramaturgia.
 
Em 1954, ainda nos Estados Unidos, Augusto Boal escreveu a peça “O cavalo e o santo”, que foi encenada em novembro do mesmo ano pelo TEN, dirigido pelo jornalista Geraldo Campos de Oliveira.
 
O mesmo texto foi dirigido pelo próprio Boal em 1955 em Nova York com o Writers Group, um grupo de dramaturgia experimental do Brooklin.
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Crítica de “O cavalo e o santo”, peça de Augusto Boal apresentada pelo Teatro Experimental do Negro no Teatro Colombo, escrita por Oscar Nimtzovitch em 19 de novembro de 1954 na Coluna ‘Comédia’ no jornal Correio Paulistano. Documento disponível em nosso Acervo online

“Arena conta Zumbi” e o Sistema Coringa.

“Arena conta Zumbi” foi um musical escrito em 1965 por Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal e um marco na história do Teatro de Arena, inaugurando a série de espetáculos musicais (que conta também com “Arena conta Tiradentes” e “Arena canta Bahia”) e o modelo dramatúrgico “Sistema Coringa”, criado por Augusto Boal. O método permitia que os oito atores em cena se revezassem os papeis e um ator-coringa fazia a conexão entre as cenas, expondo pontos de vista a partir dos acontecimentos. Era uma proposta que pretendia alterar a estrutura tradicional dramática, com uma história a ser narrada pelos atores, atuando coletivamente.

Em janeiro de 1970 o Teatro de Arena publica o folheto “O Sistema Coringa: rituais e máscaras no comportamento do ator”, relatando experiências com o método. Você pode acessar o folheto aqui.

O musical “Arena conta Zumbi” coloca em cena a luta dos quilombolas de Palmares e sua resistência. Em 1969, o Teatro de Arena é convidado pelo editor da revista The Drama Review Richard Schechner e por Joanne Pottlitzer do Theatre of Latin America, para uma temporada com o espetáculo “Arena conta Zumbi” em Nova York.

Reprodução acervo Instituto Algusto Boal

Cartaz da temporada em Nova York. Disponível em nosso acervo.

Inês Peixoto lê “Aqui ninguém é burro” de Augusto Boal

No início da década de 1990, Augusto Boal foi eleito vereador do Rio de Janeiro pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Realizou seu mandato na Câmara de Vereadores entre 1993 e 1996. Ao final, publicou um livro chamado “Aqui ninguém burro”, com alguns de seus pronunciamentos-desabafos.

O Instituto Augusto Boal convidou algumas pessoas para lerem trechos do livro. Inês Peixoto, integrante do Grupo Galpão, lê trecho do capítulo “Diretos Humanos são humanos”.

Abdias Nascimento e Augusto Boal

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Abdias Nascimento e Augusto Boal no lançamento do livro “Hamlet e o filho do padeiro” na Cinemateca do MAM (2000). Foto de Cristina Lacerda.

Foi através de Abdias Nascimento que Augusto Boal iniciou sua trajetória como dramaturgo, escrevendo peças para o Teatro Experimental do Negro (TEN). Em seu autobiografia “Hamlet e o filho do padeiro”, Augusto Boal fala de sua relação com o amigo:

Foi no Vermelinho que conheci Abdias. Antes, minha relação com os negros era de piedade: sentia pena dos negros da Penha. Depois, passou a ser de admiração: como era possível, cercados por tanto preconceito, que os negros sobressaíssem, fosse no que fosse? No teatro, por exemplo, personagem negro era escravo ou criado. Para o papel de Otelo, nem pensar! Pele: estigma!

Meus personagens passaram a ser menos piegas e mais revoltados. Passei a gostar de subversivos combatentes: abaixo a melancolia!