O que pensa você da arte de esquerda?

“Os reacionários procuram sempre, a qualquer pretexto, dividir a esquerda. A luta que deve ser conduzida contra eles é, às vezes, por eles conduzida no seio da própria esquerda. Por isso, nós — festivos, sérios ou sisudos — devemos nos precaver. Nós que, em diferentes graus, desejamos modificações radicais na arte e na sociedade, devemos evitar que diferenças táticas de cada grupo artístico se transformem numa estratégia global suicida. O que os reacionários desejam é ver a esquerda transformada em saco de gatos; desejam que a esquerda se derrote a si mesma. Contra isso devemos todos reagir: temos o dever de impedi-lo.

Porém, a pretexto de não dividir, não temos também o direito de calar nossas divergências. Pelo contrário: as diferentes tendências da nossa arte atual serão mais bem entendidas através do cotejo de metas e processos. Isto é necessário, principalmente neste momento em que toda a arte de esquerda enfrenta a necessidade de recolocar os seus processos e as suas metas. O choque entre as diversas tendências não deve significar a predominância final de nenhuma, já que todas devem ser superadas, pois foram também superadas as circunstâncias políticas que as determinaram, cada uma no seu momento.

Dentro da esquerda, portanto, toda discussão será válida sempre que sirva para apressar a derrota da reação. E que isto fique bem claro: a palavra “reação” não deve ser entendida como uma entidade abstrata, irreal, puro conceito, mas, ao contrário, uma entidade concreta, bem organizada e eficaz. “Reação” é o atual governo oligarca, americanófilo, pauperizador do povo e desnacionalizador das riquezas do país; “reação” são as suas forças repressivas, caçadoras de bruxas, e todos os seus departamentos, independentemente de farda ou traje civil; é o snt, o inc, é a censura federal, estadual ou municipal e todas as suas delegacias; são os critérios de subvenções e proibições; e são também todos os artistas de teatro, cine ou TV que se esquecem de que a principal tarefa de todo cidadão, através da arte ou de qualquer outra ferramenta, é a de libertar o Brasil do seu atual estado de país economicamente ocupado e derrotar o invasor, o “inimigo do gênero humano”, segundo a formulação precisa de um pensador latino-americano recentemente assassinado.

Assim, antes que a esquerda artística se agrida a si mesma deve procurar destruir todas as manifestações direitistas. E o primeiro passo para isso é a discussão aberta e ampla dos nossos principais temas. Isto, a direita não poderá jamais fazer, dado que a sua característica principal é a hipocrisia. Continuar lendo

Augusto Boal sobre Sambópera

“Quando comecei a dirigir este espetáculo, ficou patente que o uso dos nossos instrumentos, ritmos e danças, não era apenas um recurso formal episódico: estávamos penetrando em uma área de pesquisa estética mais profunda, que não se contentava com a simples troca de roupagens musicais. O mestre e maestro Marcos Leite, diretor musical e orquestrador, criou uma versão nossa daquela ópera universal, sem medo de uma “Habanera” em tango negro, ou um “Goleador” de cuíca e tamborim.
A ideia de “cultura pura” é abstração, puro “conceito” sem existência concreta. Tentativas de se preserver a “pureza” cultural são vãs, como a pureza étnica. As culturas dialogam, importam e exportam: formam-se, às vezes, “combinações”, onde algo totalmente novo surge e outras vezes “amálgamas”, onde certos elementos conservam parte de sua individualidade.
A este novo gênero, que aqui inauguramos, deveria corresponder um novo nome: é preciso nomear o que existe para que sua existência se torne visível. Por isso, optamos por chamar nosso espetáculo de “Sambópera”. É duas vezes seu nome: é opera e é musical brasileiro. No “Sambópera” misturam-se ritmos, melodias, cores e culturas: mas o coração é um só!”
Trecho selecionado de texto do Augusto Boal contido no programa da peça Carmen, Sambópera.
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Na foto Cláudia Ohana e Marcelo Escorel em cena. Fotografia de Cláudia Ribeiro disponível em nosso acervo: http://www.acervoaugustoboal.com.br

Teuda Bara lê “Aqui ninguém é burro” de Augusto Boal

No início da década de 1990, Augusto Boal é eleito vereador do Rio de Janeiro pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Realizou seu mandato na Câmara de Vereadores entre 1993 e 1996. Ao final, publicou um livro chamado “Aqui ninguém burro”, com alguns de seus pronunciamentos-desabafos. O Instituto Augusto Boal convidou algumas pessoas para lerem trechos do livro. Teuda Bara, integrante do Grupo Galpão, lê trecho do capítulo “As leis do mercado e a lei do leão”.

“Arena conta Zumbi” e o Sistema Coringa.

“Arena conta Zumbi” foi um musical escrito em 1965 por Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal e um marco na história do Teatro de Arena, inaugurando a série de espetáculos musicais (que conta também com “Arena conta Tiradentes” e “Arena canta Bahia”) e o modelo dramatúrgico “Sistema Coringa”, criado por Augusto Boal. O método permitia que os oito atores em cena se revezassem os papeis e um ator-coringa fazia a conexão entre as cenas, expondo pontos de vista a partir dos acontecimentos. Era uma proposta que pretendia alterar a estrutura tradicional dramática, com uma história a ser narrada pelos atores, atuando coletivamente.

Em janeiro de 1970 o Teatro de Arena publica o folheto “O Sistema Coringa: rituais e máscaras no comportamento do ator”, relatando experiências com o método. Você pode acessar o folheto aqui.

O musical “Arena conta Zumbi” coloca em cena a luta dos quilombolas de Palmares e sua resistência. Em 1969, o Teatro de Arena é convidado pelo editor da revista The Drama Review Richard Schechner e por Joanne Pottlitzer do Theatre of Latin America, para uma temporada com o espetáculo “Arena conta Zumbi” em Nova York.

Reprodução acervo Instituto Algusto Boal

Cartaz da temporada em Nova York. Disponível em nosso acervo.

Inês Peixoto lê “Aqui ninguém é burro” de Augusto Boal

No início da década de 1990, Augusto Boal foi eleito vereador do Rio de Janeiro pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Realizou seu mandato na Câmara de Vereadores entre 1993 e 1996. Ao final, publicou um livro chamado “Aqui ninguém burro”, com alguns de seus pronunciamentos-desabafos.

O Instituto Augusto Boal convidou algumas pessoas para lerem trechos do livro. Inês Peixoto, integrante do Grupo Galpão, lê trecho do capítulo “Diretos Humanos são humanos”.

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Capa do programa Arena conta Zumbi. Disponível em nosso acervo.

“Arena conta Zumbi”, peça de Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri estreou no Teatro de Arena em 1965. No programa da peça, os autores assinam o texto “Vivemos um tempo de guerra”:

“Vivemos um tempo de guerra. O mundo inteiro está inquieto. Em todos os campos da atividade humana esta inquietação determina o surgimento de novos processos e formas de enfrentar os novos desafios. Menos no teatro.

O teatro procura sempre apresentar imagens da vida social. Imagens perfeitas, corretas, segundo cada perspectiva de análise. No entanto, imagens estáticas. O teatro tradicional tenta paralisar, fixar no tempo e no espaço, realidades cambiantes. Pouco se tem tentado traduzir em arte o câmbio, a transformação.

Por isso, as novas realidades, os novos processos de análise, continuam utilizando as formas gastas, próprias para outros processos e outras realidades. O teatro é conceituável, definível: esta a sua maior limitação. Quando afirmamos o que é o teatro, negamos suas outras potências.

Nesta etapa do seu desenvolvimento o Arena desconhece o que é o teatro, queremos apenas contar uma história, segundo a nossa perspectiva. Dispomos de uma arena, alguns velhos refletores munidos de lâmpadas (aproximadamente Cr$ 20.000 cada), acomodações para pouco menos de duzentas pessoas, roupas, madeiras, telas, projetores, etc. Somos um grupo de gente boa, diretores, atores, técnicos, autores, eletricistas, porteiros, bilheteiros. Somos quase vinte. Pensamos parecido. Esta gente reunida, usando o material disponível, vai contar uma história que tem moral escondida. Uma história que, esperamos, vai ajudar todo o mundo a entender melhor as coisas ocorridas, e as que estão acontecendo. Que deve ajudar todo o mundo a ver com maior clareza.

É uma história complicada, cheia de gente misturada, coisa verdadeira faltando dados que foram preenchidos pela imaginação. Para fazer uma peça assim, precisaríamos (se fôssemos convencionais) de mais prá lá de 700 atores, mais prá lá de trinta cenários, contando até um bojo de navio, uma floresta detalhada, casas grandes, senzalas, igrejas e pelourinhos. Já que não somos Teatro Nacional, nem temos mecenas dispostos a tudo, temos ao menos nós mesmos. Destes fatos concretos surgiram as novas técnicas que estamos usando em ARENA CONTA ZUMBI: personagem absolutamente desvinculado de ator (todo mundo faz todo mundo, mulher faz papel de homem sem dar bola prá essas coisas, etc.), narração fragmentada sem cronologia, fatos importantes misturados com coisa pouca, cenas dramáticas junto a documentos, fatos perdidos no tempo e notícias dos últimos jornais, anacronismos variados. Só uma unidade se mantém de todas quanto até hoje foram proclamadas: a unidade da ideia. Só uma ideia orientou a criação do texto e do espetáculo. Esta é a ideia contida no texto do bispo de Pernambuco: “o hábito da liberdade faz o homem perigoso”. Esta é a ideia: queremos ser livres.

O nosso espetáculo “Opinião” usava a verdade mais concreta, embora este fato acarretasse, muitas vezes, a impossibilidade de extrapolar: o fato concreto se singularizava. Em “Arena Conta Zumbi” procuramos ir além: usar o fato concreto, mas tendo sempre presente a necessidade de universalização dos dados apresentados. Se isto foi conseguido ou não, logo ficaremos sabendo.”

Celso Frateschi lê “Aqui ninguém é burro”

No início da década de 1990, Augusto Boal é eleito vereador do Rio de Janeiro pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Realizou seu mandato na Câmara de Vereadores entre 1993 e 1996. Ao final, publicou um livro chamado “Aqui ninguém burro”, com alguns de seus pronunciamentos-desabafos.

O Instituto Augusto Boal convidou algumas pessoas para lerem trechos do livro. Celso Frateschi, figura de fundamental importância para o Teatro de Arena e o Teatro Jornal, lê o capítulo “Elizete: a mulher do espelho”.