Aqui ninguém é burro!

No início da década de 1990, Augusto Boal foi vereador do Rio de Janeiro pelo Partido dos Trabalhadores (PT). No final de seu mandato em 1996, Boal publica o livro “Aqui ninguém é burro!”, compilação de seus pronunciamentos na Câmara.

Aqui ninguém é burro (capa)

O mês de Agosto será destinado a divulgação do trabalho de Boal como vereador e o Teatro Legislativo. #Boalvereador

Prefácio do livro “Aqui ninguém é burro” escrito em maio de 1966 e publicado pela Editora Revan:

Fiquei indignado! Tinha certeza de que alguma coisa grave estava acontecendo. Contra toda razão, a maioria dos vereadores tinha acabado de votar uma lei isentando companhias privadas do pagamento de impostos devidos. Não era justo. Não era honesto!

Em geral, sou educado e trato a todos com cortesia. Essa tarde, foi exceção; estava enfurecido. Pedi a palavra e, na tribuna, rugi: “Vossas excelências que votaram essa indignidade são todos ladrões ou são burros!!”

Voltei para minha bancada, envergonhado. Perguntei aos meus companheiros mais experientes o que devia fazer para remediar. Pedir desculpas? Aguentar firme? Deixar para lá?

Logo depois, alguns vereadores foram ao microfone protestar. Um deles, muito tranquilo, disse: “Sua Excelência, o nobre vereador Augusto Boal, exagerou. Ele disse que aqueles que votaram a favor da isenção são todos ladrões ou são burros. Sua Excelência sabe muito bem que, aqui, ninguém é burro.”

Foi um lapso. O vereador em questão é tido por todos como honesto, correto. Teria sido, então, fina ironia? Fosse o que fosse, foi boa sugestão para o título deste livro.

Livro feito de desabafos, assim chamados “pronunciamentos”. Escolhi aqueles que transcendiam o fato ou feito que os provocou. São todos sobre o Rio de Janeiro, sua gente, seus dirigentes. Procurei limpá-los de todas as formalidades camerísticas, todos “minhas senhoras e meus senhores, nobre isso ou aquilo”.

Falando da Câmara, espero estar falando do Rio de Janeiro. Do Rio, do Brasil. Do Brasil, desta engraçada condição humana.

Augusto Boal e Lula

Diante dos últimos acontecimentos o Instituto Augusto Boal publica novamente este texto escrito por Augusto Boal na ocasião da posso do Presidente eleito Luis Inácio Lula da Silva.

Na foto: Lula, Augusto Boal e Eric Napomuceno.
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A POSSE, COMO CULTURA
Augusto Boal

No mesmo dia em que foi proclamado Presidente Eleito, Lula anunciou seu programa econômico prioritário: acabar com a fome de cinqüenta milhões; sua primeira iniciativa internacional: estender a mão aos argentinos.
Anunciou, não pequenas opções micro-econômicas ou diplomáticas, mas a transformação radical da forma de governar – a inversão de prioridades e uma nova Ética, sem zonas cinzas: preto no branco. Anunciou que um Brasil novo começava a ser inventado: é preciso imaginá-lo para melhor construí-lo.
Lula não prometeu reforminhas, curativos de esparadrapo, mas uma Revolução copernicana: re-situar nosso país, dentro e fora de suas fronteiras.
O que vale para a Política Internacional e para a Economia, por coerência, vale para a Cultura.
Temos que abandonar de vez a idéia da existência de uma Cultura celestial, esvoaçante, e resolutamente adotar a idéia de que Cultura é o ser humano vivo, em todas suas atividades. Todo mundo a possui. Não devemos falar em Acesso à Cultura, como se fosse ela produzida por deuses, em Olimpos inalcançáveis. Como se cada brasileiro fosse página branca sobre a qual se carimbasse a Cultura, caída do céu.
Temos que afirmar que, quando respiram, quando trabalham, quando amam, todos os seres humanos produzem Cultura, mesmo quando esmagada por outras – donas dos meios de comunicação -, mesmo quando não se transformam em objetos de comércio.
A eleição de Lula foi única: jamais se viu festa popular tão sincera, esperança tão arrebatada, feita, não de expectativa paralisante, mas de paixão criadora: começo da realização do desejo, esperança impaciente.
A posse do Presidente Lula não poderá se reduzir aos rituais rotineiros, e apenas bater recordes numéricos: um, dois, três, ou cinqüenta e três milhões de gentes a mais na praça dos Três Poderes! Não apenas quantidade: qualidade.
Lula não será um presidente seqüencial: será o começo do Redescobrimento.
Sua posse não poderá se reduzir a uma obediente cerimônia protocolar em Brasília, mas deverá medir, milímetro por milímetro, oito milhões e meio de quilômetros quadrados de largura e comprimento, por cento e setenta e cinco milhões… de altivez.
No dia da posse, devemos decretar a prorrogação da Primavera por quatro anos ininterruptos. Em todas cidades e em cada povoado, cada um de nós deverá dar vida à sua Imagem do Sonho. O Projeto Cultural do Governo Lula deve resplandecer desde o primeiro dia, desde a posse!
Lula falou contra a fome e a favor da solidariedade dos oprimidos: devemos transformar, em arte, suas palavras. Temos que estetizá-las.
Estetizar significa transmitir pelos sentidos e não apenas pela razão. Lula falou palavras: temos que mostrá-las como sólidas, palpáveis e beliscáveis.
Temos que teatralizá-las, pintá-las, esculpi-las, cantá-las, torná-las concretas, fotografáveis, filmáveis.
Como fazer? É muito simples!
Primeiro: em todas as praças de todos os povoados do país inteiro, vamos realizar Feiras Culturais com as quais, desde manhã bem cedo, antes que fuja a noite – desde a primeira luz! – vamos acordar o sol com orquestras, bandas e blocos; pintores e escultores; artistas de circo e teatro, bordadeiras, poetas e repentistas, corais e solistas – ao ar livre, em vielas e descampados, todos em sincronia, nas cidades e nos campos, todos nós, em toda parte, vamos mostrar nossa arte. Vamos saudar o dia!
Segundo: em praças e ruas, o povo deve instalar mesas improvisadas, com toalhas limpas e lindas – mesmo que sejam de papel de embrulho, bordadas com tesoura e lápis de cor – para as quais deve trazer pão e comida, e dividi-los com amor.
Terceiro: isto é importantíssimo – todos devem estar comendo na hora da posse do Presidente Lula! No ato do juramento, quando ele disser – “Eu Juro!” – todos, no país inteiro, todos ao mesmo tempo, devemos levar à boca alimento, e mastigar com bravura, pois acabar com a fome ele jura: juremos juntos, comendo, juremos o mesmo juramento! O brinde ao seu governo deve ser mastigado com ganas e com verdade. Devemos ser companheiros – comer o mesmo pão, coletivo. Em nossa mão aberta, oferecer, ao próximo, comida.
Quarto: a população deve dar o que tiver de descartável em suas casas e possa, a outros, ser útil: sapatos, roupas, móveis, espelhos, panelas, livros, quadros, violões e reco-recos, quaisquer objetos que tenham serventia, que saiam do armário e venham todos à luz do dia. Dar e trocar!
Quinto: para essas Feiras, devem ser convidadas comunidades estrangeiras que vivam no Brasil, para que tragam sua dança, música, comida – vamos dialogar.
Sexto: após a posse, em ruas e praças, todos os esportes serão praticados; pingue-pongue, jogo de malha e peteca, bola de gude, pulo de corda e carniça, voleibol, basquete, luta romana e grega, corridas, ginástica, trapézios… Tudo é Cultura.
Sétimo: em uma tribuna visível, cidadãos terão direito a três minutos de fala para fazerem propostas de governo, que deverão ser levadas a sério, às Câmaras, analisadas, votadas. A sério, que com a lei não se brinca!
Enquanto em Brasília dura a festa, no Brasil vive a alegria. Depois, vamos dormir mais cedo: o Dia da Posse será prenúncio e mostra do Mandato Popular – será proclamado o Dia da Cultura.
Estamos sonhando, é verdade, e o nosso sonho é sonho. Mas, se hoje sonhamos, é porque temos agora o direito de sonhar o sonho verdadeiro: hoje, sonhar não é proibido: sonhar é possível. Sonhar… não é sonho.
Sonhemos!

Programa da Primeira Feira Paulista de Opinião

Programa - Primeira Feira Paulista de Opinião (dragged)
A Primeira Feira Paulista de Opinião foi produzida pelo Teatro de Arena em 1968, com direção de Augusto Boal e reuniu dramaturgos como Lauro César Muniz, Bráulio Pedroso, Gianfrancesco Guarnieri, Plínio Marcos e Augusto Boal e compositores como Edu Lobo, Caetano Veloso, Ary Toledo, Sérgio Ricardo e Gilberto Gil. Os artistas deveriam criar obras levantando a questão: “O que pensa você do Brasil de hoje?”
A peça foi submetida à Censura, porém chegou a ser apresentada na íntegra. Em dezembro é instaurado o AI-5 (Ato Institucional 5) e a repressão e censura se agravam, não sendo mais possível apresentar a Feira.
Você pode acessar o programa da Primeira Feira Paulista de Opinião com o famoso texto de Augusto Boal “Que pensa você da arte de esquerda?” aqui.

Técnicas de Teatro Jornal

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O Teatro de Arena de São Paulo publicou em 1971 o livro de Augusto Boal “Categorias do Teatro Popular” em que Boal definiu quatro categorias:

  • Teatro do povo para o povo
  • Teatro do povo para outro destinatário
  • Teatro da burguesia para o povo
  • Teatro Jornal

No capítulo sobre Teatro Jornal, Boal desenvolve 9 técnicas para utilizá-lo. Publicamos aqui o último capítulo do livro, com as nove técnicas.

 

Aula do Seminário de Dramaturgia de 1966

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Aula de 11/3/1966

O elemento essencial do teatro é o espetáculo de uma vontade livre, consciente dos meios que emprega para atingir um determinado objetivo, sendo que essa vontade conflitua com vontades antagônicas.

O que é liberdade? Essa definição se baseia nos estudos Hegel (Poética), onde ele já coloca o mesmo problema. Acrescenta que não se refere ao tipo de liberdade que não é a liberdade do cerceamento físico do personagem, quer dizer, o personagem pode ser livre mesmo em condições de sua liberdade física. É uma liberdade espiritual.

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