Homenagem à burocracia – Do baú do Boal

Cena Teatro-Fórum de Augusto Boal, em louvor à Burocracia, sem data atribuída.

HOMENAGEM À BUROCRACIA

Um casal passeia no jardim de sonho.

ELE – Que jardim tão lindo, cheio de flores.

ELA – Olha aquele menino andando de bicicleta – ele parece tão feliz e contente, vestido de azul.

ELE – E a menina brincando de boneca. Que gracinha, toda vestida de cor de rosa.

ELA – Olha aqueles namorados… Como eles se amam…

ELE _ E aquela velhinha fazendo tricô… Que gracinha…

ELA – E aquele vovôzinho, lendo jornal com lupa e binóculo. ELE – Que bonito…

ELA – Ele lê todos os dias todos os jornais.

ELE – E vê todos os noticiários de televisão.

ELA – E sabe de cor o número de mortos na guerra do Iraque, na Faixa de Gaza.

ELE – E no Morro do Alemão.

ELA – Isso sim, é saber viver até o fim.

ELE – Tudo tão perfeito. Todo mundo tão feliz.

ELA – E a grama tão verde, tão fresquinha… O orvalho vem caindo e ela fica mais verde ainda.

ELE – É proibido pisar na grama, você sabia?

ELA – Claro que sei. Proibidíssimo.

ELE – Mas aquele bebê está pisando, amassando a grama… É proibido, mas ele não sabe.

ELA – Ele não está pisando: está engatinhando.

ELE – É a mesma coisa. A lei proíbe pisar pra proteger a grama, entendeu? O bebê está fora da lei.

ELA – Claro que não. O bebê não conhece a lei…

ELE – Eu sou estudante de Direito e sei muito bem que nenhum cidadão pode alegar ignorância da lei. O bebê existe, logo é um cidadão. Como tal, tem que se comportar como qualquer cidadão. O que o bebê está fazendo é uma transgressão á lei. Desobediência civil.

ELA – Não vamos brigar. Tudo estava indo tão bem.

ELE – Vamos continuar olhando as coisas bonitas que acontecem aqui neste parque.

ELA – Por exemplo…

ELE – Por exemplo, o quê?

ELA – Aquele cachorro. Qual é a marca daquele cachorro?

ELE – Não é marca, é raça.

ELA – Mesmo assim, qual é?

ELE – Pitbull.

ELA – Olha que boca grande ele tem, não é mesmo?

ELE – Olha os dentes.

ELA – Olha a cara de mau!

ELE – É feroz.

ELA – Mata?

ELE – Estraçalha.

ELA – Olha: ele também está pisando na grama. Isso também é desobediência civil!

ELE – Viu? O bebê deu o mau exemplo, agora todo mundo pensa que tem o direito de pisar na grama.

ELA – Ele está se aproximando do bebê.

ELE – Cada vez mais perto.

ELA – Engraçado: ele está sem focinheira.

ELE – E de boca aberta.

ELA – Vai lá salvar o menino, vai!!!

ELE – Se eu for, o Pitbull vai me comer. Ele está sem focinheira.

ELA – Como é que esse cachorro tem coragem de ameaçar o menino?

ELE – Porque ele está seguro da impunidade! Aqui é assim mesmo!

ELA – Toma esse pau. (Dá-lhe um pedaço de pau que estava no chão). Dá na cabeça do cachorro.

ELE – Mas é proibido pisar na grama. É proibido matar cachorro, mesmo sem focinheira.

ELA – É uma emergência! Vai, vai!!!

ELE – Olha que eu vou.

ELA – Vai.

ELE – Eu vou!

ELA – Vai!

ELE – Estou indo.

ELA – Depressa! (Começa a andar devagar na direção de onde se supõe que esteja o bebê e o pitbull. Ouve-se um apito. Aparece um guarda).

OMEÇA A ANDAR DEVAGAR NA DIREÇÃO DE ONDE SE SUPÕE QUE ESTEJA O BEBÊ E O PITBILL. OUVE-SE UM APITO. APARECE UM GUARDA).

GUARDA – Onde é que você pensa que vai?

ELE – Vou salvar uma vida humana.

GUARDA – É proibido.

ELA – Salvar bebê é proibido?!?!?

GUARDA – Não: pisar na grama.

ELA – Mas é uma emergência.

GUARDA – Se é uma emergência ou não, quem decide é a Instância Superior!

Ele – Qual?

GUARDA – A Secretaria de Gramas e Flores Exóticas.

ELE – Então, pede licença à Secretaria de Gramas e Flores Exóticas. Onde ela fica?

GUARDA – É na rua tal número qual. Só eles podem autorizar.

ELA – Mas o cachorro já mordeu o pé do bebê.

GUARDA – Esse é um outro problema: eu aqui estou cumprindo a minha missão, o meu dever. Tenho que fiscalizar, fiscalizo e pronto. Tenho que cumprir com a minha missão.

ELE – Eu quero salvar o bebê.

GUARDA – Mas eu tenho primeiro que salvar a minha pele. Se eu autorizo uma ilegalidade, quem paga depois sou eu!

ELA – O cachorro já comeu o pé do menino e está mordendo a perna: vai correndo buscar a autorização.

ELE – Eu vou. (Entra a funcionária) – É aqui a Secretaria de Grama e Flores Exóticas?

FUNCIONÁRIA – Aqui mesmo. Mas agora é hora do almoço e eu estou ainda no aperitivo.

ELE – Pelo amor de Deus: eu preciso de uma Autorização Especial para Pisar na Grama.

FUNCIONÁRIA – Tem receita médica?

ELE – É um bebê que está sendo comido por um cachorro no parque, e o cachorro não tem focinheira.

FUNCIONÁRIA – Identidade do cachorro, tem?

ELE – Eu sei lá!

FUN – Então o senhor tem que ir primeiro à Secretaria de Animais Sem Focinheira. Não é aqui, não.

ELE – Mas por quê???

FUNC – Procure me entender: quem está fora da lei, em primeiro lugar, é o cachorro, não é o senhor. Por isso, temos que abrir um processo contra o cachorro, porque assim manda a burocracia, e, se ficar provado que o cachorro tem dono, o dono também vai ser arrolado como testemunha.

ELE – Mas, pelo amor de Deus, me dê algum documento pra eu mostrar pro guarda.

FUN – Olha aqui: como eu tenho muito boa vontade, mas não posso me comprometer, – eu estou cumprindo com a minha obrigação, entende?, porque se não quem paga depois sou eu – eu vou lhe dar uma Petição, provisória, autorizando o senhor a pisar na grama, desde que o senhor se ofereça como garantia de que o cachorro, se não ficar provada a sua inocência, será obrigado a devolver todos os pedaços da perna do bebê já mastigados.

ELE – Prometo e me comprometo, juro e re-juro, mas me dê aqui essa Autorização provisória.

Fun – Que pressa é essa?

Ele – (Quase chorando) – É o menino vestido de azul… ele não gosta de cachorro…

FUN – Calma: falta o carimbo. Falta assinatura. Falta reconhecer a firma.

ELE – Do cachorro?

FUN – Não, a minha.

ELE – A senhora não reconhece a sua firma?

FUNC – Leve assim mesmo, pode ser que o Guarda tenha piedade do senhor. Tome. Leve. (Ele sai correndo)

ELE – Cheguei! Eu vou matar esse cachorro! Cadê o cachorro?

GUARDA – Que cachorro?

ELE – Cadê o bebê?

ELA – Deu uns gritos horríveis, você nem imagina, grito de gente grande.

GUARDA – Ah, agora eu me lembro: o senhor está falando daquele menino que vocês estavam querendo salvar do cachorro?

ELE – Esse mesmo.

ELA – Onde ele está?

GUARDA – O Pitbull comeu.

ELA – Mas agora nós já temos todos os papéis em ordem pra pisar na grama.

GUARDA – Pode jogar no lixo porque não serve mais pra nada. O Pitbull comeu o menino inteiro.

ELA – Comeu? Inteiro?

GUARDA – Pra dizer a verdade, inteiro não: deixou só alguns ossos. Comigo ficou esse osso aqui, mas eu não sei o que fazer com esse osso. (MOSTRA UM FÊMUR). Se quiserem, podem levar como recordação.

ELE – Ele não tinha duas pernas? Cadê o outro fêmur?

GUARDA – A mãe do menino levou como recordação. Leve este.

ELA – Obrigada.

GUARDA – E rasga essa petição. Não serve pra nada.

ELA – Não rasgo, não: eu vou guardar pra qualquer ocasião. Quem sabe, no domingo que vem, um lobo vem aqui pra comer o senhor em cima da grama, e eu vou salvá-lo.

GUARDA – Obrigado.

ELE – O senhor é um ótimo guardião da lei. Guarde a lei, guarde pro senhor! Boa noite!

 

II

Em seguida entra um funcionário, em outro ambiente mais burocrático.

FUNCIONÁRIO – Pois é: isso que o senhor está contando é muito interessante, muito ilustrativo, muito teatro, mas aqui na prestação de contas está escrito que vocês compraram passagens mais caras pela manhã quando, no mesmo dia, havia passagens mais baratas de tarde. Por que é que vocês não compraram das mais baratas?

CTO – Porque o nosso trabalho começava de manhã.

FUNCIONÁRIO – Podiam começar a tarde e vocês varavam à noite.

CTO – Nós trabalhamos com funcionários do Estado, eles têm horários que nós temos que respeitar.

FUNCIONÁRIO – Mas nós temos que respeitar a letra da lei.

CTO – A letra da lei tem espírito: vamos respeitar o espírito.

FUNCIONÁRIO – E tenho que ler o que está escrito, porque o TCU vai ler o que está aqui, não vai ler o espírito.

CTO – O senhor sabe que o nosso trabalho é importante…

FUN – Importantíssimo!

CTO – Em todas as prisões onde nós trabalhamos as relações entre os funcionários e o presos melhorou, diminuiu a violência, todo mundo está contente, quer que o nosso trabalho continue…

FUN – Mas vocês compraram as passagens de manhã que eram mais caras…

CTO – Nós compramos as passagens mais baratas que estavam à venda de tarde…

FUN – E tem outro problema: três pessoas que trabalharam nesse projeto assinaram a Ata de Fundação do Centro.

CTO – Porque acreditam no Teatro do Oprimido e queriam criar um Centro que fizesse o trabalho que estamos fazendo.

FUN – Mas assinaram.

CTO – Se elas não acreditassem, não assinariam.

FUN – Assinando, elas se tornaram inelegíveis para trabalhar no Centro.

CTO – São as únicas pessoas no mundo inteiro que podem realizar esse trabalho.

FUN – Vocês deviam fazer uma licitação.

 

 

 

O grande acordo internacional de Tio Patinhas em cartaz em Buenos Aires

O grande acordo internacional de Tio Patinhas, de Augusto Boal, está atualmente em cartaz em Buenos Aires. Abaixo, seguem as três primeiras cenas da peça, escrita na Argentina nos anos 70.

O grande acordo internacional de Tio Patinhas

Esta peça pode ser feita com cada ator representando um personagem diferente, como pode também utilizar o sistema coringa, em que nenhum personagem é representado pelo mesmo ator em duas cenas sucessivas. Neste caso, são necessários apenas 10 ou 12 atores. Pode-se ainda optar por uma solução intermediária: os personagens mais característicos podem ser representados Continuar lendo

Peça : A Lua muito pequena e a caminhada perigosa

Essa peça faz parte do espetáculo Feira Paulista de Opinião que estreou em São Paulo em 1968. A peça foi encenada através de um ato de desobediência civil, pois tinha sido inteiramente censurada. Foi necessário uma liminar de um juiz da 7a vara da Justiça Federal para viabilizar a apresentação do espetáculo.

 A lua muito pequena, que o próprio Boal qualificava de colagem, foi construída à partir de textos selecionados no Diário do Che na Bolívia.

A lua muito pequena e a caminhada perigosa
A. Boal

Os atores estarão em cena durante todo o transcurso da peça –
São narradores de uma história conhecida – isto é, de uma história mal conhecida. Os atores se comovem ao conta-la e ao conhece – la melhor.
O ator que desempenha o Comandante deve ser sempre o mesmo; os demais atores revezam – se em todos os papéis, quando necessário.

Prólogo

Coringa –
Eu devo começar dizendo que chegamos a conclusão de que a morte do comandante é dolorosamente certa.
Já muitas vezes foi anunciada  sua morte, nunca chegamos a nos preocupar.
Desta vez, também , no começo, não nos preocupamos, mesmo quando começaram a chegar as primeiras fotos . Depois, noticias , desencontradas: uma cicatriz na mão esquerda e nenhum de nos se lembrava de ter visto qual quer cicatriz na mão do comandante. Depois, o tecido pulmonar, as impressões digitais, tudo, tudo podia ter sido forjado, tudo podia ser mentira. Menos a última prova: o seu diário e , nele, o seu pensamento. Uma fotografia pode ser retocada; até mesmo o rosto de um homem pode ser desfigurado; porém o seu estilo não pode nunca ser imitado.

A notícia da sua morte é dolorosamente certa.

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