A Tempestade de Boal – O Globo

Que bom!

A tempestade de Boal - O Globo

Artigo no Globo em 08 de março de 2017

Vou domingo a Porto Alegre ver a estreia! O Clima tempo diz que vai chover mas quem é que se importa? A final nada mais coerente em se tratando de uma tempestade alem do mais estamos acostumados a chuvas e trovoadas e com os Atuadores da Tribu teremos certamente boas tempestades dignas do peixe que o Boal foi.

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Peixes desenho de Augusto Boal

Vivam os peixes, as tempestades e os Atuadores!

Homenagem à burocracia – Do baú do Boal

Cena Teatro-Fórum de Augusto Boal, em louvor à Burocracia, sem data atribuída.

HOMENAGEM À BUROCRACIA

Um casal passeia no jardim de sonho.

ELE – Que jardim tão lindo, cheio de flores.

ELA – Olha aquele menino andando de bicicleta – ele parece tão feliz e contente, vestido de azul.

ELE – E a menina brincando de boneca. Que gracinha, toda vestida de cor de rosa.

ELA – Olha aqueles namorados… Como eles se amam…

ELE _ E aquela velhinha fazendo tricô… Que gracinha…

ELA – E aquele vovôzinho, lendo jornal com lupa e binóculo. ELE – Que bonito…

ELA – Ele lê todos os dias todos os jornais.

ELE – E vê todos os noticiários de televisão.

ELA – E sabe de cor o número de mortos na guerra do Iraque, na Faixa de Gaza.

ELE – E no Morro do Alemão.

ELA – Isso sim, é saber viver até o fim.

ELE – Tudo tão perfeito. Todo mundo tão feliz.

ELA – E a grama tão verde, tão fresquinha… O orvalho vem caindo e ela fica mais verde ainda.

ELE – É proibido pisar na grama, você sabia?

ELA – Claro que sei. Proibidíssimo.

ELE – Mas aquele bebê está pisando, amassando a grama… É proibido, mas ele não sabe.

ELA – Ele não está pisando: está engatinhando.

ELE – É a mesma coisa. A lei proíbe pisar pra proteger a grama, entendeu? O bebê está fora da lei.

ELA – Claro que não. O bebê não conhece a lei…

ELE – Eu sou estudante de Direito e sei muito bem que nenhum cidadão pode alegar ignorância da lei. O bebê existe, logo é um cidadão. Como tal, tem que se comportar como qualquer cidadão. O que o bebê está fazendo é uma transgressão á lei. Desobediência civil.

ELA – Não vamos brigar. Tudo estava indo tão bem.

ELE – Vamos continuar olhando as coisas bonitas que acontecem aqui neste parque.

ELA – Por exemplo…

ELE – Por exemplo, o quê?

ELA – Aquele cachorro. Qual é a marca daquele cachorro?

ELE – Não é marca, é raça.

ELA – Mesmo assim, qual é?

ELE – Pitbull.

ELA – Olha que boca grande ele tem, não é mesmo?

ELE – Olha os dentes.

ELA – Olha a cara de mau!

ELE – É feroz.

ELA – Mata?

ELE – Estraçalha.

ELA – Olha: ele também está pisando na grama. Isso também é desobediência civil!

ELE – Viu? O bebê deu o mau exemplo, agora todo mundo pensa que tem o direito de pisar na grama.

ELA – Ele está se aproximando do bebê.

ELE – Cada vez mais perto.

ELA – Engraçado: ele está sem focinheira.

ELE – E de boca aberta.

ELA – Vai lá salvar o menino, vai!!!

ELE – Se eu for, o Pitbull vai me comer. Ele está sem focinheira.

ELA – Como é que esse cachorro tem coragem de ameaçar o menino?

ELE – Porque ele está seguro da impunidade! Aqui é assim mesmo!

ELA – Toma esse pau. (Dá-lhe um pedaço de pau que estava no chão). Dá na cabeça do cachorro.

ELE – Mas é proibido pisar na grama. É proibido matar cachorro, mesmo sem focinheira.

ELA – É uma emergência! Vai, vai!!!

ELE – Olha que eu vou.

ELA – Vai.

ELE – Eu vou!

ELA – Vai!

ELE – Estou indo.

ELA – Depressa! (Começa a andar devagar na direção de onde se supõe que esteja o bebê e o pitbull. Ouve-se um apito. Aparece um guarda).

OMEÇA A ANDAR DEVAGAR NA DIREÇÃO DE ONDE SE SUPÕE QUE ESTEJA O BEBÊ E O PITBILL. OUVE-SE UM APITO. APARECE UM GUARDA).

GUARDA – Onde é que você pensa que vai?

ELE – Vou salvar uma vida humana.

GUARDA – É proibido.

ELA – Salvar bebê é proibido?!?!?

GUARDA – Não: pisar na grama.

ELA – Mas é uma emergência.

GUARDA – Se é uma emergência ou não, quem decide é a Instância Superior!

Ele – Qual?

GUARDA – A Secretaria de Gramas e Flores Exóticas.

ELE – Então, pede licença à Secretaria de Gramas e Flores Exóticas. Onde ela fica?

GUARDA – É na rua tal número qual. Só eles podem autorizar.

ELA – Mas o cachorro já mordeu o pé do bebê.

GUARDA – Esse é um outro problema: eu aqui estou cumprindo a minha missão, o meu dever. Tenho que fiscalizar, fiscalizo e pronto. Tenho que cumprir com a minha missão.

ELE – Eu quero salvar o bebê.

GUARDA – Mas eu tenho primeiro que salvar a minha pele. Se eu autorizo uma ilegalidade, quem paga depois sou eu!

ELA – O cachorro já comeu o pé do menino e está mordendo a perna: vai correndo buscar a autorização.

ELE – Eu vou. (Entra a funcionária) – É aqui a Secretaria de Grama e Flores Exóticas?

FUNCIONÁRIA – Aqui mesmo. Mas agora é hora do almoço e eu estou ainda no aperitivo.

ELE – Pelo amor de Deus: eu preciso de uma Autorização Especial para Pisar na Grama.

FUNCIONÁRIA – Tem receita médica?

ELE – É um bebê que está sendo comido por um cachorro no parque, e o cachorro não tem focinheira.

FUNCIONÁRIA – Identidade do cachorro, tem?

ELE – Eu sei lá!

FUN – Então o senhor tem que ir primeiro à Secretaria de Animais Sem Focinheira. Não é aqui, não.

ELE – Mas por quê???

FUNC – Procure me entender: quem está fora da lei, em primeiro lugar, é o cachorro, não é o senhor. Por isso, temos que abrir um processo contra o cachorro, porque assim manda a burocracia, e, se ficar provado que o cachorro tem dono, o dono também vai ser arrolado como testemunha.

ELE – Mas, pelo amor de Deus, me dê algum documento pra eu mostrar pro guarda.

FUN – Olha aqui: como eu tenho muito boa vontade, mas não posso me comprometer, – eu estou cumprindo com a minha obrigação, entende?, porque se não quem paga depois sou eu – eu vou lhe dar uma Petição, provisória, autorizando o senhor a pisar na grama, desde que o senhor se ofereça como garantia de que o cachorro, se não ficar provada a sua inocência, será obrigado a devolver todos os pedaços da perna do bebê já mastigados.

ELE – Prometo e me comprometo, juro e re-juro, mas me dê aqui essa Autorização provisória.

Fun – Que pressa é essa?

Ele – (Quase chorando) – É o menino vestido de azul… ele não gosta de cachorro…

FUN – Calma: falta o carimbo. Falta assinatura. Falta reconhecer a firma.

ELE – Do cachorro?

FUN – Não, a minha.

ELE – A senhora não reconhece a sua firma?

FUNC – Leve assim mesmo, pode ser que o Guarda tenha piedade do senhor. Tome. Leve. (Ele sai correndo)

ELE – Cheguei! Eu vou matar esse cachorro! Cadê o cachorro?

GUARDA – Que cachorro?

ELE – Cadê o bebê?

ELA – Deu uns gritos horríveis, você nem imagina, grito de gente grande.

GUARDA – Ah, agora eu me lembro: o senhor está falando daquele menino que vocês estavam querendo salvar do cachorro?

ELE – Esse mesmo.

ELA – Onde ele está?

GUARDA – O Pitbull comeu.

ELA – Mas agora nós já temos todos os papéis em ordem pra pisar na grama.

GUARDA – Pode jogar no lixo porque não serve mais pra nada. O Pitbull comeu o menino inteiro.

ELA – Comeu? Inteiro?

GUARDA – Pra dizer a verdade, inteiro não: deixou só alguns ossos. Comigo ficou esse osso aqui, mas eu não sei o que fazer com esse osso. (MOSTRA UM FÊMUR). Se quiserem, podem levar como recordação.

ELE – Ele não tinha duas pernas? Cadê o outro fêmur?

GUARDA – A mãe do menino levou como recordação. Leve este.

ELA – Obrigada.

GUARDA – E rasga essa petição. Não serve pra nada.

ELA – Não rasgo, não: eu vou guardar pra qualquer ocasião. Quem sabe, no domingo que vem, um lobo vem aqui pra comer o senhor em cima da grama, e eu vou salvá-lo.

GUARDA – Obrigado.

ELE – O senhor é um ótimo guardião da lei. Guarde a lei, guarde pro senhor! Boa noite!

 

II

Em seguida entra um funcionário, em outro ambiente mais burocrático.

FUNCIONÁRIO – Pois é: isso que o senhor está contando é muito interessante, muito ilustrativo, muito teatro, mas aqui na prestação de contas está escrito que vocês compraram passagens mais caras pela manhã quando, no mesmo dia, havia passagens mais baratas de tarde. Por que é que vocês não compraram das mais baratas?

CTO – Porque o nosso trabalho começava de manhã.

FUNCIONÁRIO – Podiam começar a tarde e vocês varavam à noite.

CTO – Nós trabalhamos com funcionários do Estado, eles têm horários que nós temos que respeitar.

FUNCIONÁRIO – Mas nós temos que respeitar a letra da lei.

CTO – A letra da lei tem espírito: vamos respeitar o espírito.

FUNCIONÁRIO – E tenho que ler o que está escrito, porque o TCU vai ler o que está aqui, não vai ler o espírito.

CTO – O senhor sabe que o nosso trabalho é importante…

FUN – Importantíssimo!

CTO – Em todas as prisões onde nós trabalhamos as relações entre os funcionários e o presos melhorou, diminuiu a violência, todo mundo está contente, quer que o nosso trabalho continue…

FUN – Mas vocês compraram as passagens de manhã que eram mais caras…

CTO – Nós compramos as passagens mais baratas que estavam à venda de tarde…

FUN – E tem outro problema: três pessoas que trabalharam nesse projeto assinaram a Ata de Fundação do Centro.

CTO – Porque acreditam no Teatro do Oprimido e queriam criar um Centro que fizesse o trabalho que estamos fazendo.

FUN – Mas assinaram.

CTO – Se elas não acreditassem, não assinariam.

FUN – Assinando, elas se tornaram inelegíveis para trabalhar no Centro.

CTO – São as únicas pessoas no mundo inteiro que podem realizar esse trabalho.

FUN – Vocês deviam fazer uma licitação.

 

 

 

“Filha Moça” – peça censurada de Augusto Boal, 1956

A peça aqui publicada foi escrita por Augusto Boal em 1956 e inteiramente proibida pela censura.

É a peça de um principiante, uma história aparentemente ingênua. Porém, coloca questões interessantes e, detalhe não negligenciável, deveria ser montada pelo Teatro Experimental do Negro.

Destacamos um trecho do texto do censor, o senhor José Américo Cesar Cabral (vale ler o texto integralmente, o sr. Cabral parece muito se ufanar de sua condição emérita). Diz o sr Cabral:

“É lamentável que o Teatro Experimental do Negro escolha peças que ofendem a moral e os bons costumes para apresentar aos seus sócios, pessoa humildes e sem a devida compreensão (…)”

Sem a devida compreensão? O que é que os sócios do Teatro Experimental do Negro deveriam compreender?

Acho que não precisa de muita tradução, porém traduzindo, de acordo com a censura, o teatro deverá ser um modelo de comportamento e o modelo deverá ser a família branca, de classe média, ocidental e cristã.

O resto será proibido e censurado.

Filha Moça

Peça retoma e mergulha em montagem de Boal

via Folha de São Paulo – Nelson de Sá

Com grande engenhosidade na dramaturgia, ‘Os que Ficam’ tenta encenar texto dos anos 1960 do dramaturgo

Ansiava-se há tempos pelo encontro da Cia. do Latão de Sérgio de Carvalho com o Teatro de Arena de Augusto Boal (1931-2009). São os grupos do teatro político mais representativos em seus períodos – a atualidade e os anos 1950/60, respectivamente.

A ponte histórica acabou sendo lançada, um pouco fortuitamente, por uma mostra sobre Boal no Rio e agora pela mostra dos 18 anos da Cia. do Latão em São Paulo.

A “peça-ensaio” resultante, “Os que Ficam”, retrata uma tentativa de encenação em 1973, auge da repressão e da desesperança política, da peça “Revolução na América do Sul”, texto de Boal montado originalmente em 1960, em plena febre revolucionária na região.

O espetáculo tem alguns trechos daquela peça, mas sobretudo pensa sobre ela, conversa com ela e seu tempo. São personagens da época, a começar pela figura do diretor, Fernando, que remete ao ator, encenador e crítico Fernando Peixoto (1937-2012).

O próprio Boal comparece, em primeira pessoa, na forma de cartas enviadas do exílio, algumas de emocionante desencanto. Na curtíssima temporada no Sesc Bom Retiro, os textos são lidos por Lauro César Muniz, dramaturgo que foi lançado então pelo diretor.

BUSCA OBSESSIVA

O efeito imediato que o autor e diretor do Arena tem sobre o trabalho de Carvalho e do Latão – embora o espetáculo tenha nascido fora do grupo, com o elenco carioca – é o de transportá-los de volta aos primeiros espetáculos, como “Ensaio para Danton” (1996) e “Ensaio sobre o Latão” (1997).

Mais que “peças-ensaios”, o que mais as caracteriza e assemelha é serem as três apaixonadas pelos originais que buscam obsessivamente compreender: “Revolução”, “A Morte de Danton” e, na peça que deu nome à companhia, “Hamlet” e “A Compra do Latão”, texto teórico de Brecht.

Em “Os que Ficam”, conta-se uma história de censura e perseguição do teatro, num período que mudou o país e ao qual o título se refere, em parte: são aqueles que ficaram para trás, que não partiram como Boal, que seguem vivendo, e adaptam-se até à televisão.

Mas são também “os que ficam” no Brasil de hoje, sobreviventes e herdeiros, como os três atores do Latão que no início lembram, em depoimentos na primeira pessoa, as suas experiências de crianças da ditadura, ao lado de pais que a combateram ou não.

Podia ser mais uma peça sobre o assunto, entre tantas que há, porém seu mergulho é também formal, não só temático. Como na experimentação incessante de Boal, há grande engenhosidade na dramaturgia, da seleção dos trechos de “Revolução” aos depoimentos e cartas.

E há emoção de sobra, até compaixão, como havia em Boal, por todos os caminhos tomados pelo teatro, representados em “Os que Ficam” pela diáspora dos atores que não conseguem realizar a “Revolução”. Mas que tentam seguir em frente, de algum jeito.

OS QUE FICAM
QUANDO qui. e sex., 20h; sáb., 19h; dom., 18h; até 26/7
ONDE Sesc Bom Retiro – al. Nothmann, 185 – tel. (11) 3332-3600
QUANTO R$ 9 a R$ 30
AVALIAÇÃO ótimo

Tonteei

 

Canção do espetáculo OS QUE FICAM (2015), sobre a trajetória de exilados políticos nos anos 1970, apresentado no quadro da exposição Augusto Boal, no CCBB do Rio de Janeiro.
Música de Martin Eikmeier, letra de Sérgio de Carvalho.