Osvaldo Dragún e o teatro latino-americano

Em setembro o Instituto Augusto Boal dedicará suas publicações a difusão do Teatro latino-americano, apresentando diversos grupos e suas conexões com o trabalho de Augusto Boal.

Falaremos hoje de Osvaldo Dragún, dramaturgo argentino e muito importante para o teatro independente de Buenos Aires, movimento que perdura até hoje na cidade e é uma alternativa ao cinema comercial de tradição espanhola. Peças teatrais são encenadas em espaços alternativos como porões, pátios e galpões. Dragún é um dos criadores do Teatro Abierto, um destes espaços.

Dragún tem uma importância fundamental em toda a América Latina. Trabalhou em países como Cuba, México, Venezuela, Peru e Colômbia. Em Havana criou e dirigiu a Escuela de Teatro de Latino América y el Caribe.

Foi publicado em 1980 um texto seu sobre os novos rumos da América Latina na revista Latin American Theatre Review e você pode ter acesso aqui.

 

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Foto de Julia Weisz: http://www.julieweisz.com.ar/

 

Victor Zavala Cataño e o Teatro Campesino

Em Setembro o Instituto Augusto Boal dedicará suas publicações a difusão do Teatro latino-americano, apresentando diversos grupos e suas conexões com o trabalho de Augusto Boal. Hoje falaremos de Víctor Zavala Cataño, que revolucionou a cultura peruana dos anos de 1960 e 1970.

Victor está ligado à história do movimento de Teatro Popular no Peru e é o criador do Teatro Camponês no país, tornando o homem do campo o protagonista de seu teatro.

Em 1969 publicou o livro “Teatro Campesino”, que contém sete obras teatrais: o Galo, a Galinha, A Junta, O Colar, O Turno, O Arpista e O Carregador.  As peças incluem monólogos, pantomimas, dança e música, todas a partir de manifestações populares peruanas. Os cartazes e a atuação também se tornam instrumentos ativos de drama, permitindo que o espectador se distancie.

O Teatro campesino é publicado em 1969 como um reflexo da segunda grande onda do movimento camponês do século XX nos Andes do Peru. 500 mil camponeses se movimentaram em defesa de suas terras na zona de Junin, Carro de Pasco e Ayacucho, principalmente. O grupo de teatro popular de Teatro camponês se iniciou em 1970 em choque com a política do governo militar e sua chamada reforma agraria. Após seu surgimento, muitos outros grupos de teatro surgiram com o tema do teatro camponês. Sua repercussão dentro dos movimentos camponeses foi de grande abrangência.

O principal interesse da obra de Zavala é a participação do público no desenvolvimento cultural, social e político do país e, para isso, aplica as expressões desse mesmo público aos meios artísticos. Em cada etapa do Teatro Campesino, é feito um fato, uma denúncia e uma crítica sobre a condição social do camponês peruano. A permanência, a figura e o perfil estético social de Zavala Cataño foram sempre os mesmos, com base na problemática do campo.

Zavala foi detido como preso politico em junho de 1991 e condenado a 25 anos de prisão, deixou o cárcere em junho de 2016 aos 84 anos.

Você pode ter acesso a mais material sobre o dramaturgo com uma entrevista exclusiva no blog: http://teatrocampesino.blogspot.com.br/2011/04/libertad-para-el-fundador-del-teatro.html

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Gravura retirada do livro Teatro Campesino

Teatro do Oprimido no cárcere

Augusto Boal, Julita Lengruber e Paul Heritage no tempo do governo de Nilo Batista, organizaram um programa de Direitos Humanos no sistema carcerário no Rio de Janeiro que logo se estendeu a outros estados. No programa eram utilizadas basicamente as técnicas do Teatro do Oprimido. Julita era super intendente das prisões do Estado do Rio, eram outros tempos ​.

​E​m matéria publicada em 2006 no jornal O Globo, Boal relata um pouco deste processo: As prisões fora do cárcere
Há poucos dias atrás Silvia Ramos, cientista social e pesquisadora da equipe de Julita Lengruber na Universidade​ Cândido Mendes, conheceu em um seminário sobre esse assunto em Guarulhos Igor Rocha, agente penitenciário ​que participou dessa experiência com Boal. Ele disse para ela o quanto a sua própria vida foi transformada por esse processo.
Transcrevemos aqui o seu relato:

“Meu nome é Igor Rocha, sou agente de segurança penitenciário há 20 anos e comecei a minha vida no teatro entre 2003 e 2004, com as técnicas do Boal de Teatro do Oprimido  realizado dentro do cárcere.  Ivete Barão, psicóloga do sistema prisional, me chamou para trabalhar com teatro depois que passei por rebeliões e por depressão dentro do cárcere. Quando disse que ia trabalhar com teatro me chamaram de “viado”. Eu estava muito deprimido, tomando medicamentos fortes e foi aí que conheci Boal e ele transformou a minha vida, parei de tomar os medicamentos graças​ ao teatro. Ele salvou minha vida, posso dizer para vocês. Depois de muitos anos, em 2010, decidi compartilhar com os presos e com os funcionários esta vivência de transformação através da arte. E Boal foi inspirador com uma simples frase: “Para de se vitimizar!”. Ele falou isso pra mim e isso me aprofundou muito, fez ver os problemas dos outros que eram maiores que os meus. Eu tenho os meus monstros mas Boal fez com que eu cuidasse destes monstros. Ele vai ficar comigo, Boal para sempre, que Deus o tenha.”

​Obrigado Igor Rocha! Monstros temos todos mas não precisam tomar conta da gente.

A POSSE COMO CULTURA

NO MESMO MOMENTO EM QUE LULA ESTÁ SENDO MASSACRADO PELA MIDIA MAIS SÓRDIDA E CONSERVADORA ENCONTRAMOS ESTE TEXTO DE BOAL PRONUNCIADO NO DIA DA POSSE
LULA FOI PERFEITO ? FOI TUDO QUE ESPERÁVAMOS DELE?
CERTAMENTE NÃO, MAS NADA COMPARÁVEL A ESSA CORJA DE FASCÍNORAS, A ESSA MAFIA QUE ESTÁ NO PODER AGORA
E FOI POR ISSO , POR ACREDITAR NUM PAIS MAIS JUSTO E SOLIDARIO , QUE PESSOAS DA MELHOR QUALIDADE , COMO BOAL , PAULO FREIRE, ANTONIO CÂNDIDO E TANTOS OUTROS, HOMENS E MULHERES , APOIARAM LULA
QUEM APOIA TEMER ???
a nossa voz não pode muito mais gritar eu bem gritei

A POSSE, COMO CULTURA
Augusto Boal

No mesmo dia em que foi proclamado Presidente Eleito, Lula anunciou seu programa econômico prioritário: acabar com a fome de cinqüenta milhões; sua primeira iniciativa internacional: estender a mão aos argentinos.
Anunciou, não pequenas opções micro-econômicas ou diplomáticas, mas a transformação radical da forma de governar – a inversão de prioridades e uma nova Ética, sem zonas cinzas: preto no branco. Anunciou que um Brasil novo começava a ser inventado: é preciso imaginá-lo para melhor construí-lo.
Lula não prometeu reforminhas, curativos de esparadrapo, mas uma Revolução copernicana: re-situar nosso país, dentro e fora de suas fronteiras.
O que vale para a Política Internacional e para a Economia, por coerência, vale para a Cultura.
Temos que abandonar de vez a idéia da existência de uma Cultura celestial, esvoaçante, e resolutamente adotar a idéia de que Cultura é o ser humano vivo, em todas suas atividades. Todo mundo a possui. Não devemos falar em Acesso à Cultura, como se fosse ela produzida por deuses, em Olimpos inalcançáveis. Como se cada brasileiro fosse página branca sobre a qual se carimbasse a Cultura, caída do céu.
Temos que afirmar que, quando respiram, quando trabalham, quando amam, todos os seres humanos produzem Cultura, mesmo quando esmagada por outras – donas dos meios de comunicação -, mesmo quando não se transformam em objetos de comércio.
A eleição de Lula foi única: jamais se viu festa popular tão sincera, esperança tão arrebatada, feita, não de expectativa paralisante, mas de paixão criadora: começo da realização do desejo, esperança impaciente.
A posse do Presidente Lula não poderá se reduzir aos rituais rotineiros, e apenas bater recordes numéricos: um, dois, três, ou cinqüenta e três milhões de gentes a mais na praça dos Três Poderes! Não apenas quantidade: qualidade.
Lula não será um presidente seqüencial: será o começo do Redescobrimento.
Sua posse não poderá se reduzir a uma obediente cerimônia protocolar em Brasília, mas deverá medir, milímetro por milímetro, oito milhões e meio de quilômetros quadrados de largura e comprimento, por cento e setenta e cinco milhões… de altivez.
No dia da posse, devemos decretar a prorrogação da Primavera por quatro anos ininterruptos. Em todas cidades e em cada povoado, cada um de nós deverá dar vida à sua Imagem do Sonho. O Projeto Cultural do Governo Lula deve resplandecer desde o primeiro dia, desde a posse!
Lula falou contra a fome e a favor da solidariedade dos oprimidos: devemos transformar, em arte, suas palavras. Temos que estetizá-las.
Estetizar significa transmitir pelos sentidos e não apenas pela razão. Lula falou palavras: temos que mostrá-las como sólidas, palpáveis e beliscáveis.
Temos que teatralizá-las, pintá-las, esculpi-las, cantá-las, torná-las concretas, fotografáveis, filmáveis.
Como fazer? É muito simples!
Primeiro: em todas as praças de todos os povoados do país inteiro, vamos realizar Feiras Culturais com as quais, desde manhã bem cedo, antes que fuja a noite – desde a primeira luz! – vamos acordar o sol com orquestras, bandas e blocos; pintores e escultores; artistas de circo e teatro, bordadeiras, poetas e repentistas, corais e solistas – ao ar livre, em vielas e descampados, todos em sincronia, nas cidades e nos campos, todos nós, em toda parte, vamos mostrar nossa arte. Vamos saudar o dia!
Segundo: em praças e ruas, o povo deve instalar mesas improvisadas, com toalhas limpas e lindas – mesmo que sejam de papel de embrulho, bordadas com tesoura e lápis de cor – para as quais deve trazer pão e comida, e dividi-los com amor.
Terceiro: isto é importantíssimo – todos devem estar comendo na hora da posse do Presidente Lula! No ato do juramento, quando ele disser – “Eu Juro!” – todos, no país inteiro, todos ao mesmo tempo, devemos levar à boca alimento, e mastigar com bravura, pois acabar com a fome ele jura: juremos juntos, comendo, juremos o mesmo juramento! O brinde ao seu governo deve ser mastigado com ganas e com verdade. Devemos ser companheiros – comer o mesmo pão, coletivo. Em nossa mão aberta, oferecer, ao próximo, comida.
Quarto: a população deve dar o que tiver de descartável em suas casas e possa, a outros, ser útil: sapatos, roupas, móveis, espelhos, panelas, livros, quadros, violões e reco-recos, quaisquer objetos que tenham serventia, que saiam do armário e venham todos à luz do dia. Dar e trocar!
Quinto: para essas Feiras, devem ser convidadas comunidades estrangeiras que vivam no Brasil, para que tragam sua dança, música, comida – vamos dialogar.
Sexto: após a posse, em ruas e praças, todos os esportes serão praticados; pingue-pongue, jogo de malha e peteca, bola de gude, pulo de corda e carniça, voleibol, basquete, luta romana e grega, corridas, ginástica, trapézios… Tudo é Cultura.
Sétimo: em uma tribuna visível, cidadãos terão direito a três minutos de fala para fazerem propostas de governo, que deverão ser levadas a sério, às Câmaras, analisadas, votadas. A sério, que com a lei não se brinca!
Enquanto em Brasília dura a festa, no Brasil vive a alegria. Depois, vamos dormir mais cedo: o Dia da Posse será prenúncio e mostra do Mandato Popular – será proclamado o Dia da Cultura.
Estamos sonhando, é verdade, e o nosso sonho é sonho. Mas, se hoje sonhamos, é porque temos agora o direito de sonhar o sonho verdadeiro: hoje, sonhar não é proibido: sonhar é possível. Sonhar… não é sonho.
Sonhemos!

Caliban – A Tempestade de Augusto Boal

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Alô Porto Alegre

Seminário: Caliban – Apontamentos sobre o teatro de Nuestra América

Nos dias 23, 24, 25 e 26 de abril a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz estará realizando o seminário “Caliban – Apontamentos sobre o teatro de Nuestra América”. Além de apresentações do mais novo espetáculo de teatro de rua do Ói Nóis Aqui Traveiz, estaremos recebendo em Porto Alegre para o seminário, a companheira de vida e luta de Augusto Boal (também Diretora do Instituto Augusto Boal) Cecília Thumim Boal, e a pesquisadora e crítica teatral de Cuba, Vivian Tabares. ENTRADA FRANCA!

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Programação:

23/04, 15h: Apresentação do espetáculo de teatro de rua Caliban – A Tempestade de Augusto Boal no Parque da Redenção

24/04, 20h: Palestra Apontamentos sobre o teatro de Augusto Boal com Cecília Thumim Boal (Rio de Janeiro)

25/04, 20h: Palestra Apontamentos sobre o teatro de Nuestra América com Vivian Martínez Tabares (Cuba)

26/04, 15h: Apresentação do espetáculo de teatro de rua Caliban – A Tempestade de Augusto Boal na Praça da Alfândega

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“Lembranças de Boal” de Iná Camargo Costa

Texto de Iná Camargo Costa publicado na edição 7 – Homenagem a Augusto Boal – da Revista Vintém, projeto editorial da Companhia do Latão, publicada em 31 de julho de 2oo9.

LEMBRANÇAS DE BOAL
Iná Camargo Costa

  1. Noticiário político-cultural

Os jovens que tinham 15, 16 anos, como eu em 1968, e se interessavam por teatro, sabiam de Augusto Boal e do teatro de Arena de São Paulo por diferentes meios e de maneira indireta, isto é, nós sabíamos sem saber muita coisa. É o que se chama informação de que somos abastecidos pela indústria cultural. Basta lembrar que uma das músicas brasileiras de maior sucesso em 1965 foi Carcará, gravação de Maria Bethânia. Só vim a saber muito tempo depois que ela integrava o Show Opinião, e que Augusto Boal participou da produção deste espetáculo e assegurou a pessoa jurídica necessária à sua estréia através do Teatro de Arena, pois o Teatro Opinião só foi criado depois do espetáculo.

Para dar mais um exemplo, a música Upa, neguinho, gravada por Elis Regina, e proveniente do espetáculo Arena conta Zumbi, também tocou muito no rádio e no ano de 1965 era regularmente interpretada por ela em seu programa de televisão, O fino da bossa. Por essa via, a série Arena conta… e os nomes de Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri, sobre os quais era possível saber alguma coisa no noticiário dos jornais, passaram a incendiar a nossa imaginação.

Não é preciso multiplicar os exemplos: já está claro que os jovens que moravam nos confins do Estado de São Paulo – como eu, primeiro em Chavantes e depois de 1967 em Botucatu – passaram a acompanhar com o máximo interesse, através de revistas, jornais, programas de rádio e de televisão, toda a produção cultural daquela geração, que se tornou referência para muitos de nós. Em primeiro lugar os cantores e intérpretes e depois os compositores, como Edu Lobo e Guarnieri, autores de Memórias de Marta Saré, defendida no IV Festival da TV Record, em 1968, por Marília Medalha, também atriz do Arena (ver post scriptum, abaixo).

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Autorização de uso de imagem para banco de dados digital

Queremos comunicar com muito orgulho e satisfação que estamos na fase final da digitalização de uma parte considerável do acervo de Augusto Boal.

Estes documentos serão disponibilizados de forma  inteiramente gratuita em uma plataforma digital na internet.
Para isso isso precisamos da colaboração de todos e solicitamos aos atores do Teatro Arena de São Paulo que trabalharam com Boal nos anos 60/70 ou aos seus herdeiros que nos enviem uma autorização de uso de imagem segundo o modelo que segue:

TERMO DE AUTORIZAÇÃO DE USO DE IMAGEM E VOZ

Pelo presente instrumento, eu, ( nome completo), abaixo qualificado e assinado, AUTORIZO o Instituto Augusto Boal, organização sem fins lucrativos com sede na Cidade do Rio de Janeiro, RJ, na Rua Francisco Otaviano, 185/41, Copacabana, CEP 22080-040, inscrita no CNPJ sob nº 13.069.431/0001-56, doravante denominada simplesmente “IAB”, de forma inteiramente gratuita, a título universal, em caráter definitivo, irrevogável e irretratável, a utilizar a minha imagem e voz, registradas em atividades realizadas no Teatro Arena de São Paulo , seja através de fotos, gravações de áudio, ou audiovisuais, com o objetivo de disponibilizar tais documentos em banco de dados digital, a ser disponibilizado gratuitamente no site do IAB na internet, ou em outro website por ele indicado, no Brasil e/ou exterior, com o intuito de disponibilizar o acesso ao acervo Augusto Boal aberto ao público, para que a sua obra se mantenha viva, acessível e em uso, facilitando a pesquisa assim como a aplicação das suas técnicas.

Por esta ser a expressão da minha vontade, declaro que autorizo o uso acima descrito sem que nada haja a ser reclamado a título de direitos conexos à minha imagem ou a qualquer outro, e assino a presente autorização em 02 vias de igual teor e forma.

O instrumento é firmado em caráter irrevogável e irretratável, ficando eleito o foro da Comarca da capital do Rio de Janeiro para dirimir quaisquer dúvidas oriundas deste Termo.

Lugar e data
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Identidade:
CPF:
Endereço:
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Testemunha 1:
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Testemunha 2:
Queremos aproveitar esta ocasião para agradecer mais uma vez à equipe encabeçada pela historiadora Celia Leite Costa que com tanto cuidado e dedicação realizam esta delicada tarefa.
Celia, Charlyne, Anita, Thais, muito obrigada!