Enrique Buenaventura e o teatro colombiano

Em setembro o Instituto Augusto Boal dedicará suas publicações a difusão do Teatro latino-americano, apresentando diversos grupos e suas conexões com o trabalho de Augusto Boal. Esta semana falaremos do teatro na Colombia.

Enrique Buenaventura foi um importante diretor, dramaturgo, ator e poeta colombiano. Nasceu em Cali em 1925 e fundou em 1955 o TEC – Teatro Experimental de Cali. Foi militante de esquerda e suas obras propõem a realização de um teatro popular com a procura de um reconhecimento da cultura colombiana e disseminação do teatro latino-americano.

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Em seu site – http://www.enriquebuenaventura.org/ – há mais material do dramaturgo, incluindo o desenho aqui publicado.

A pesquisadora Marilia Carbonari publicou em abril de 2008 uma entrevista com Buenaventura na Revista Conjunto, que você pode acessar aqui

Mauricio Kartun e o teatro argentino

Em setembro o Instituto Augusto Boal dedicará suas publicações a difusão do Teatro Latino-americano, apresentando diversos grupos e suas conexões com o trabalho de Augusto Boal. Falaremos hoje de Mauricio Kartun, o autor da peça Ala de criados, que será apresentada no SESC Bom Retiro a partir do dia 15 de setembro, sexta-feira, com direção de Marco Antonio Rodrigues e parceria do Instituto Augusto Boal.

Mauricio Kartun é dramaturgo, diretor e professor de dramaturgia. Seu trabalho é de extrema importância para a dramaturgia argentina contemporânea. Suas obras da década de 1980 Chau Misterix, La Castia de los viejos e Cumbia morena cumbia são reconhecidas pela crítica teatral por trabalhar com o realismo reflexivo e utilizar ricos procedimentos teatrais.

Kartun fez parte do grupo teatral argentino El Machete, que encenou em 1973 na extinta Sala Planeta em Buenos Aires a peça “Ay, Ay! No hay Cristo que aguante, no hay!” adaptação de “Revolução na América do Sul”, com a direção de Augusto Boal.

Acervo Instituto Algusto Boal

Mauricio Kartun (à esquerda) e outros em cena da peça “Ay, Ay! No hay Cristo que aguante, no hay!” (1974)

A foto pode ser encontrada em nosso acervo online: http://www.acervoaugustoboal.com.br/

Em 1986 Mauricio Kartun participa a convite de Augusto Boal de um workshop sobre Teatro do Oprimido em Orvelte, norte de Holanda.

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Cecilia Boal, Mauricio Kartun e Augusto Boal em workshop em Orvelte, Holanda.

Kartun continua atuante no teatro argentino e é ganhador de diversos prêmios de dramaturgia. Em 2014 estreou sua peça Terrenal, escrita e dirigida por ele, que continua em cartaz no Teatro del Pueblo em Buenos Aires.

Às vistas com Victor Zavala Cataño e seu Teatro Campesino – Texto de Patricia Freitas

Em Setembro o Instituto Augusto Boal dedicará suas publicações a difusão do Teatro latino-americano, apresentando diversos grupos e suas conexões com o trabalho de Augusto Boal.  Víctor Zavala Cataño revolucionou a cultura peruana dos anos de 1960 e 1970. Seu texto “El gallo” será lido dia 15 de Setembro, sexta-feira que vem, em evento idealizado pelo Insituto Augusto Boal no Sesc Bom Retiro às 14h.

Patricia Freitas é pesquisadora de Teatro Latino-americano e conta um pouco da relevância do trabalho de Cataño para o teatro:

ÀS VISTAS COM VICTOR ZAVALA CATAÑO E SEU TEATRO CAMPESINO

Victor Zavala é um dos poucos homens de teatro no Peru que efetivamente soube conjugar teatro e política; formação artística e militância; arte e preocupação social, levando suas propostas ao extremo do posicionamento ideológico e político. Talvez seja por essa mesma razão que o dramaturgo e diretor, ao mesmo tempo que se mostra como uma figura altamente respeitada no meio teatral latino-americano, também é constantemente amordaçado pelas forças dirigentes do país que ainda custam a afirmar a importância de sua obra capital publicada em 1969, Teatro Campesino.

Não é à toa que Zavala já esteve encarcerado em regime de segurança máxima por duas
vezes: a primeira aconteceu em 1987 e manteve nosso autor enclausurado ilegalmente por cerca de dez meses sem que houvesse ordem judicial alguma para a sua prisão; já a segunda, em 1991, ocorreu principalmente em decorrência da alegação de que Zavala estaria supostamente impulsionando práticas terroristas no Peru junto ao grupo guerrilheiro de orientação maoísta Socorro Popular, grupo este filiado ao Partido Comunista Sendero Luminoso (PCP). É por conta dessa condenação que Zavala permanece até hoje, aos 81 anos de idade, na penitenciária de Miguel Castro Castro (Lima), sob rígido controle estatal e precárias condições de sobrevivência.

É, no entanto, a restrita circulação de seu único livro – uma compilação de sete peças de sua autoria cujo enfoque é dado às questões camponesas de seu país – um significativo entrave ao debate a respeito da produção cultural da América Latina. Atualmente, mínimos são os esforços em um tempo apático e catastrófico de memorar e reinterpretar Teatro Campesino como uma obra que, ao buscar dialogar com sua matéria histórica, muito ilumina os desvios e inflexões dos projetos políticos e das utopias da década de 60.
Em meio às peças apresentadas no livro, há uma estrutura de sentimento que permeava o Cone Sul e demandava um certo intercâmbio entre os países de ideologias e expectativas em relação a um futuro que se pensava promissor. No Brasil, Teatro Campesino recebeu a devida atenção de ninguém mais, ninguém menos que Augusto Boal: em 1971, Boal seleciona a peça El Gallo para integrar a Feira Latino-Americana de Opinião, evento também comumente apartado na história de nosso teatro.

A peça, apresentada durante a Feira na Igreja Saint Clement (Nova York) junto a obras
como La Autopsia (Enrique Buenaventura), Torquemada (Augusto Boal), Animália (Gianfrancesco Guarnieri), El Avión Negro (Ricardo Halac, Roberto Cossa, Herman Rosenmacker e Carlos Somigliana) e La Tortura y Otras Formas de Dialogo (Jorge Diaz), foi a única a tratar o acirramento das lutas de classe através da temática rural e do ponto de vista dos camponeses, fator que engendrou e catalisou um maior interesse em diversos artistas de teatro que levaram adiante uma proposta de fazer teatral “ético”, pensado, sobretudo, a partir de suas próprias condições produtivas em um continente em que mais da metade da população sobrevivia no cenário agrário.

El Gallo, que buscamos aqui apresentar em língua portuguesa, ainda é um material inédito no Brasil e de muito pouca circulação em língua espanhola. Nela, Zavala perfila um universo que lhe é familiar, ou seja, o mundo dos camponeses indígenas e de suas relações de trabalho regidas pela lógica da servidão com um outro (“cristão”) não muito bem definido. Através do didatismo e da potência das imagens presentes nos diálogos, El Gallo extrai sua força artística e assume seu caráter processual justamente por apostar na incompletude da trama dramatúrgica em relação ao impacto da cena no trâmite entre palco e plateia..

É assim que a peça abusa das pantomimas e dos recursos de tom farsesco de modo a
acentuar o que falta, o que não é produto e o que não se coaduna com o teatro dito “bem-feito”. A ausência de condições materiais para a elaboração cênica, isto é, um cenário convencional, figurinos ou maquiagens que atraíssem a plateia para um jogo ilusório, foi em parte responsável pela emancipação de uma forma teatral que buscou, em primeira instância, que o espectador duvidasse do que estivesse vendo, inclusive se a ficção não poderia conter em si mais realidade do que a vivência no mundo, onde todos são um tanto forçados, ainda que inconscientemente, a descolar-se do real. Daí, o tom didático exprime o que há de melhor: a simplificação assume como força propulsora o trabalho de mola para o salto qualitativo da reflexão, que – aos mais otimistas – poderá guiar o processo de conscientização coletiva.

Por isso a peça, apoiada em um argumento chinês (método tão caro a Bertolt Brecht),
representa a luta de classes através de personagens tipificados chamados Camponeses 1, 2 e 3, os quais têm de enfrentar a consciência de suas parcas condições de trabalho pelo companheiro Jovem.

Essa epicização da forma dramática, que vai na contramão de todo e qualquer aspecto individual e moralizante, corroborá no seguinte questionamento pelos personagens camponeses: quem será o inimigo coletivo? Será o galo que, com o seu canto, açoita os trabalhadores ao longo da noite? Ou, em vez de uma força da natureza, não seria uma espécie de segunda natureza a quem convencionamos chamar de lógica do trabalho?
No final dos anos 60, momento em que a escravidão parecia sinalizar algo longe de vista e desumano, não custava lembrar como Maria Sílvia de Carvalho Franco bem o fez, que a economia periférica era, em linhas gerais, regida por uma herança que não deixava de apontar o nosso futuro.

Zavala fez com que a questão tomasse os palcos na época e sua peça ainda nos ameaça com o fato de que talvez o capataz esteja escondido e camuflado em meio aos cacarejos de um galo e que, por isso mesmo, atue com mais persistência e mais perversidade em nossa América Latina.

Murro em ponta de faca em temporada no Paraná!

A partir de 18 de agosto a peça Murro em Ponta de Faca, escrita por Augusto Boal em 1974 e dirigida por Paulo José, estará em turnê por 11 cidades do Paraná.

Acompanhe a agenda pelo site: http://murroempontadefaca.redelivre.org.br/

Cecilia Boal fala sobre o espetáculo:

Resolvi aceitar o convite de Nena Inoue, convite urgente, porque ele vai me permitir contar uma historia. Muito se pode dizer sobre o exílio, sobre o sofrimento que causa ter que abandonar seu Pais, sua língua, seus amigos, tudo aquilo que nos dá identidade, para se tornar um estrangeiro. Poderia falar da dor de ser um estrangeiro, um estrangeiro de verdade, no quotidiano, sem nenhuma consideração filosófica

Coisas bem tristes! Por isso achei mais bonito, mais alegre e divertido contar como foi que o meu exílio começou. Conheci Augusto Boal em Buenos Aires em 1966. Eu era uma jovem atriz representando uma peça de teatro num teatro portenho enorme e sombrio. Um dia uma noticia sacudiu o teatro e as suas vetustas estruturas. Tinha chegado um diretor do Brasil. Naquela época o Brasil para mim ficava tão longe como a Austrália. Mas o diretor era charmoso, muito charmoso! E vinha antecedido de uma fama retumbante, era um revolucionário, um militante politico e teatral, um homem perseguido. E eis que este diretor aparece um pouco mais tarde no meu camarim para me convidar a participar do seu próximo espetáculo. Uma semana depois estávamos vivendo juntos. Vim com Boal para São Paulo e o acompanhei pelo mundo. Nunca mais nos separamos, ele foi o meu país. Muitos anos mais tarde, muitos mesmo, já morando de volta no Brasil, um dia me dei conta de uma coisa muito curiosa: a peça que eu representava no momento em que Boal apareceu no meu camarim era uma adaptação de um conto de Scholem Aleijem. É a historia de uma moça que se apaixona por um homem de circo e vai embora com ele. O conto se chama Destinos Errantes. E, de certa forma, o Boal foi sempre assim, um homem de teatro traçando um destino glorioso e mambembe, colado numa mala que guardava sempre pronta embaixo da cama. Porém, tantos desenraizamentos, tantos desterros, não abalaram nunca a sua força, a sua alegria, a sua imensa confiança nos seres humanos, na sua capacidade de transformação e na sua solidariedade O olhar do Boal sobre as coisas do mundo sempre foi um olhar confiante e generoso, alegre e divertido poderia falar horas sobre ele, escrever horas. Mas vou ficar por aqui.

Assistam à peça, ela fala mais e melhor do que eu. Bom espetáculo!

Paulo José fala sobre Murro em ponta de faca

Quando Nena me convidou para dirigir uma montagem de Murro em Ponta de Faca eu estava sem tempo nenhum. Mas Ficou aquela coceira mexendo no meu bestunto. Afinal, era uma forma de homenagear Augusto Pinto Boal, em artes Augusto Boal, e para nós, que havíamos trabalhado e aprendido tanto com ele, simplesmente Boal.

Boal trouxe para o Teatro de Arena o Método, forma abreviada de chamar o método que Constantin Stanislavski foi desenvolvendo em sua vida na arte.

Boal trouxe método ao nosso trabalho teatral, muitas vezes criativo, mas sem uma reflexão sobre o sentido da arte. Boal trouxe uma relação dialética entre paixão e ideologia, entre sentimento e razão, entre liberdade e responsabilidade. Num grupo teatral tão criativo como o Arena (tinha Guarnieri, tinha Juca de Oliveira, tinha Vianinha, tinha Chico de Assis, tinha Fauzi Arap, Flavio Migliaccio, Nelson Xavier, Milton Gonçalves, Ary Toledo, tinha tanta gente criativa!), alguém tinha de amarrar o guiso no gato, sistematizar as experiências, os laboratórios, o processo que leva um texto escrito a se transformar em teatro. Esse alguém era o Boal. Nós todos éramos adúlteros, tínhamos paixões pelo cinema, a tv nos seduzia, o Arena era um

entra-e-sai de recursos artísticos. Somente um sempre ficou segurando as pontas e as barras mais pesadas: ele, Boal. Em 1978 eu havia dirigido a primeira montagem de Murro em Ponta de Faca, sua peça mais pessoal, escrita durante seus anos de exílio. Uma peça emocionante, especialmente para nós, seus filhos/irmãos, que pudemos ter em mãos um documento precioso, mais do que uma peça teatral, um testemunho vivo de um exilado, mudando mais de país do que de sapatos, depois de prisão e

torturas no DOPS, OBAN, em São Paulo. A montagem de 78, que tinha produção de Othon Bastos, pretendia chamar a atenção sobre Boal, reforçando o movimento pró anistia. Infelizmente, quando Boal voltou ao Brasil a peça já havia saído de cartaz.

Passados mais de trinta anos, volto a vivenciar, como diz Boal, “as andanças de muita gente maravilhosa (cada qual no seu feitio) que eu andei encontrando, e  desencontrando, em tantos aeroportos, estações, gares, no sol ou na neve”.  Este espetáculo é um tributo a Boal, que nos deixou no ano passado.

Mas a equipe, elenco, recursos artísticos e técnicos, montada pela Nena, deixaria Boal orgulhoso, como deixaram este que vos escreve com a certeza que teatro vale a pena, o teatro nos engrandece, nos faz melhores. Não cito nomes para não cometer injustiças, mas considerem-se todos beijados e abraçados.

Vai começar a arrumação e desarrumação das malas no palco. E Boal, mais vivo do que nunca, em nós e em suas obras, diz que isso que estarão vendo, meus caros amigos, é a vida que nós estamos vivendo. É bom teatro mas não é teatro: é verdade líquida e certa. Me lembra Walt Withman, na epígrafe de seu Leaves of Grass:

CUIDADO,

QUEM TOCA NESTE LIVRO

TOCA NUM HOMEM

Paulo José

2010
Acesse o site da peça e acompanhe as apresentações que serão feitas em 11 cidades do Paraná em Agosto! No canal do Youtube Paulo José fala do processo de direção: https://goo.gl/2Ko9rz