Teatro do Oprimido no Fórum Social, 2003

Há cinco anos Augusto Boal participou do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, e produziu a reflexão “O Teatro do Oprimido no Fórum Social, 2003”. Estamos em semana de Fórum Social novamente, dessa vez em Salvador, e além de compartilhar o texto de Boal, gostaríamos de fazer um convite a participar da programação de amanhã que contará com Diol Mamadou (Senegal), Movimento Sem Teto da Bahia (Bahia), Movimento Popular La Dignidad (Argentina) e Julian Boal em “O Teatro do Oprimido entre África e Latino-América”.

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“Teatro do Oprimido no Fórum Social, 2003

Todas as sociedades humanas se apresentam de forma mais ou menos organizada. Nelas, nós distinguimos certas camadas, possuidoras de certas funções mais ou menos determinadas. Cada camada, cada setor, cada agrupamento social, tem seus limites e suas metas mais ou menos precisos.

Todas as categorias sociais são definidas sempre como sendo “mais ou menos”, porque elas se referem a seres humanos, vivos e reais, e não a elementos químicos, como o oxigênio ou o plutônio, que podem ser purificados em laboratório, afim de que nos tragam, o primeiro, a vida, e o segundo, a morte. Estas são as fundamentais preocupações dos seres humanos: a vida e a morte! Ambas são puras!

Nós não corremos o risco de sermos puros – jamais nos encontraremos em estado de pureza absoluta, por maiores que sejam as nossas penitências, por mais bem intencionados que sejam os nossos corações e as nossas promessas. Seres humanos são, por sua natureza, ganga impura e não ouro nativo, como dizia, em referência à nossa língua, o poeta Olavo Bilac. Pelo menos nisso, eu sou freudiano clássico: somos todos porcos espinhos gregários, que sentimos a necessidade imperiosa de nos abraçarmos, e a fatalidade de nos espetarmos. Continuar lendo

Jô Soares sobre a I Feira Paulista de Opinião

“O ano de 1968 foi muito agitado para o pessoal do teatro. Numa conversa entre o Lauro César Muniz, o Augusto Boal, o Plínio Marcos e o Jorge Andrade, surgiu a ideia de fazer um espetáculo coletivo onde se procuraria responder à questão “O que pensa você do Brasil de hoje?”. Imediatamente o Boal propôs que o Teatro de Arena produzisse o evento, e eles convidaram o Gianfrancesco Guarniere e o Bráulio Pedroso para participar também. Os autores escreveram seis peças curtas: O líder (Lauro), É tua a história contada? (Bráulio), Animália (Guarniere), A receita (Jorge), Verde que te quero verde (Plínio) e A lua muito pequena e a caminhada perigosa (Boal). As peças eram entremeadas de canções: “Tema de abertura” (Edu Lobo), “Enquanto seu lobo não vem” (Caetano Veloso), “M.E.E.U.U. Brasil brasileiro” (Ary Toledo), “Espiral” (Sérgio Ricardo) e “Miserere nobis (Gilberto Gil). O Arena havia criado uma fórmula de unir o teatro com a música nos seus espetáculos de grande sucesso – Arena conta Zumbi e Arena conta Tiradentes – que funcionava muito bem, e a fórmula seria adaptada para a I Feira Paulista de Opinião.

Entre os corajosos atores que participaram da Feira estavam a Aracy Balabanian, o Renato Consorte, a Miriam Muniz, o Rolando Bondrin, a Cecília Thumim Boal, o Antonio Fagundes, o Luís Carlos Arutin, o Luiz Serra, o Zanoni Ferrite. No saguão do teatro, havia obras de artistas como Nelson Leirner (um longo túnel verde e amarelo), de Marcello Nitsche, do Mário Gruber, do Cláudio Tozzi. A cenografia e os figurinos foram do Marcos Weinstock, e a direção musical do maestro Carlos Castilho. Eu fiz o cartaz da Feira, baseado num antigo anúncio do Xarope São João, onde aparece a ilustração do homem sendo amordaçado, com a legenda “Larga-me… deixa-me gritar!”. No meu cartaz, lia-se: “Largue-me, deixe-me falar”. Na época, a divulgação mais efetiva do teatro era pregar cartazes em todos os muros da cidade, então São Paulo foi toda empapelada com o cartaz da Feira, o que me deixou superemocionado. A primeira vez que entrevistei Augusto Boal no meu talk show, ele me levou de presente o original do cartaz. Participei da Feira também com uma pintura que acabou dando muita repercussão, e me expôs ainda mais aos órgãos censores e repressores da ditadura. Ela retratava um general sentado na privada e tinha o título O repouso do guerreiro. O curioso é que, coincidentemente, no texto do Plínio Marcos para a I Feira Paulsita de Opinião tinha um militar do departamento de censura que ia ao banheiro, usava um capacete como penico e se limpava com o texto da uma peça. Dá pra ver que havia uma sintonia no grupo que se uniu em torno do evento. O Boal sempre abria o espetáculo dizendo que o evento era o primeiro ato de desobediência civil feito nos palcos e mostrava o meu quadro, que sempre provocava gargalhadas. Continuar lendo

Cora Farenstein fala de evento sobre Augusto Boal e Brecht em Buenos Aires

Dia 31 de outubro aconteceu no Paco Urondo Centro Cultural em Buenos Aires o encontro sobre as poéticas de Bertolt Brecht e Augusto Boal no ciclo de debates “Hacer teatro, hacer política”. Cora Farenstein, coordenadora da área de Teatro do Oprimido, contou para nós como foi a experiência:

El ciclo “Hacer teatro, hacer política” es organizado por el Centro Cultural Paco Urondo y por el Área de investigaciones en Teatro del Oprimido y Poéticas Políticas del Instituto de Artes del Espectáculo “Dr Raúl H Castagnino”, institución dedicada a la investigación teatral, dependiente de la Universidad de Buenos Aires.

Desde nuestra área tenemos como objetivo realizar investigaciones, recoger experiencias y fomentar actividades alrededor del teatro y la política. Si bien nuestro eje es el Teatro del Oprimido, trabajamos con otras poéticas que explicitan un punto de vista político, tanto en las temáticas que abordan como en las condiciones en las que estos acontecimientos teatrales se producen.

Desde que comenzamos a pensar este ciclo, nos propusimos generar un espacio vivo, que habilite múltiples formas de hacer y de pensar, que nos permita pensar con el cuerpo y hacer con la cabeza, y que genere, en estos tiempos tan necesarios, la posibilidad de producir nuevos sentidos que nos empujen a implicarnos y participar. El arte es nuestra vía principal.

El primer encuentro del ciclo, realizado el día 31 de octubre, tuvo como eje central comparar las poéticas de Augusto Boal y Betolt Brecht, basándonos en el lugar que ambos le dan al rol del espectador, y preguntándonos sobre los aportes hacia adentro y hacia afuera del campo teatral. Compartimos reflexiones y experiencias con Julieta Grinspan y Andrés Lóez Garraza, ambos artistas e investigadres de Brecht y Boal. Nuestro propósito con este ciclo no es organizar charlas o encuentros en donde algunos hablan y otros escuchan, sino que, basándonos en los principios de Boal, queremos generar encuentros en donde circulen los saberes y todas las personas que participan aporten sus ideas.

Al intercambio de reflexiones y algunos conceptos siguieron una serie de ejercicios en donde dinamizamos y profundizamos con el cuerpo las discusiones que se generaron al principio del encuentro.
Participamos alrededor de 25 personas que a lo largo de dos horas produjimos un encuentro enriquecedor con acuerdos, diferencias y preguntas que seguiremos trabajando en las próximas ediciones.”

Enrique Buenaventura e o teatro colombiano

Em setembro o Instituto Augusto Boal dedicará suas publicações a difusão do Teatro latino-americano, apresentando diversos grupos e suas conexões com o trabalho de Augusto Boal. Esta semana falaremos do teatro na Colombia.

Enrique Buenaventura foi um importante diretor, dramaturgo, ator e poeta colombiano. Nasceu em Cali em 1925 e fundou em 1955 o TEC – Teatro Experimental de Cali. Foi militante de esquerda e suas obras propõem a realização de um teatro popular com a procura de um reconhecimento da cultura colombiana e disseminação do teatro latino-americano.

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Em seu site – http://www.enriquebuenaventura.org/ – há mais material do dramaturgo, incluindo o desenho aqui publicado.

A pesquisadora Marilia Carbonari publicou em abril de 2008 uma entrevista com Buenaventura na Revista Conjunto, que você pode acessar aqui

Mauricio Kartun e o teatro argentino

Em setembro o Instituto Augusto Boal dedicará suas publicações a difusão do Teatro Latino-americano, apresentando diversos grupos e suas conexões com o trabalho de Augusto Boal. Falaremos hoje de Mauricio Kartun, o autor da peça Ala de criados, que será apresentada no SESC Bom Retiro a partir do dia 15 de setembro, sexta-feira, com direção de Marco Antonio Rodrigues e parceria do Instituto Augusto Boal.

Mauricio Kartun é dramaturgo, diretor e professor de dramaturgia. Seu trabalho é de extrema importância para a dramaturgia argentina contemporânea. Suas obras da década de 1980 Chau Misterix, La Castia de los viejos e Cumbia morena cumbia são reconhecidas pela crítica teatral por trabalhar com o realismo reflexivo e utilizar ricos procedimentos teatrais.

Kartun fez parte do grupo teatral argentino El Machete, que encenou em 1973 na extinta Sala Planeta em Buenos Aires a peça “Ay, Ay! No hay Cristo que aguante, no hay!” adaptação de “Revolução na América do Sul”, com a direção de Augusto Boal.

Acervo Instituto Algusto Boal

Mauricio Kartun (à esquerda) e outros em cena da peça “Ay, Ay! No hay Cristo que aguante, no hay!” (1974)

A foto pode ser encontrada em nosso acervo online: http://www.acervoaugustoboal.com.br/

Em 1986 Mauricio Kartun participa a convite de Augusto Boal de um workshop sobre Teatro do Oprimido em Orvelte, norte de Holanda.

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Cecilia Boal, Mauricio Kartun e Augusto Boal em workshop em Orvelte, Holanda.

Kartun continua atuante no teatro argentino e é ganhador de diversos prêmios de dramaturgia. Em 2014 estreou sua peça Terrenal, escrita e dirigida por ele, que continua em cartaz no Teatro del Pueblo em Buenos Aires.