Programa da Feira Latinoamericana de Opinião (1971)

Fair of Opinion program

Em 1971, durante uma viagem aos Estados Unidos, Augusto Boal cria a Feira Latinoamericana de Opinião, ampliando e desdobrando a ideia da Feira Paulista de 1968 , um evento, mais que um  espetáculo , que marcou a sua época pela coragem e ousadia de todos os participantes , incluindo o público que acompanhava solidário essa arrojada ação do Teatro Arena .

Nesta nova Feira, a Latinoamericana, Boal incorpora uma nova dimensão, as mesas de debates , para discutir questões tais  como: “Teatro e revolução… que revolução?” , “Teatro nas prisões”, “O papel das Igrejas na transformação da sociedade”, “As relações entre Estados Unidos e Brasil” e “Porque o Chile é diferente?” com relevantes personalidades da época.

Segue na íntegra o programa da Feira, dirigida por Boal e produzida pelo TOLA (Theater of Latin America):

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Aula do Seminário de Dramaturgia de 1966

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Aula de 11/3/1966

O elemento essencial do teatro é o espetáculo de uma vontade livre, consciente dos meios que emprega para atingir um determinado objetivo, sendo que essa vontade conflitua com vontades antagônicas.

O que é liberdade? Essa definição se baseia nos estudos Hegel (Poética), onde ele já coloca o mesmo problema. Acrescenta que não se refere ao tipo de liberdade que não é a liberdade do cerceamento físico do personagem, quer dizer, o personagem pode ser livre mesmo em condições de sua liberdade física. É uma liberdade espiritual.

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A Fábrica de Teatro Popular

Em 2017 se cumprem os 30 anos do belo projeto que nos trouxe de volta ao Brasil.

Por iniciativa de Darcy Ribeiro, um gênio, apaixonado e visionário, Boal, outro homem genial e apaixonado, veio trabalhar nos CIEPs, a genial invenção de Darcy. Não acho outra forma para descrevê-los.

Era impressionante ver os dois juntos, delirando, inventando, sonhando alto, dois furacões, duas tsunamis em ação. Faz bem à alma no meio de tanta, tanta, tanta mediocridade!!!!!

Fruto dos generosos delírios uma ideia: a Fábrica de Teatro Popular.

Animadores animados, usando teatro para discutir cidadania, direitos, igualdade.

Eucanãa, Silvia, Valéria,  Luiz Vaz, Luiz Boal, Rosa Luisa de Puerto Rico, Maria Libia, Noni, Claudete, Boal e eu.

Nos Cieps das periferias apresentado as nossas peças para o debate, debates que terminavam sempre com um farto lanche oferecido pelas experientes cozinheiras.

Saudades daquele tempo !! Como é possível que Darcy tenha perdido essa eleição?

No lugar de Darcy, Moreira Franco. No lugar dos Cieps:  escola integral, com as suas mães sociais, bibliotecas,  animadores culturais e escolas sucateadas.

Temos que aprender a cuidar melhor o que temos, a cuidar melhor dos brasileiros como Boal e Darcy porque são únicos, são nossos e são excepcionais.

Texto de Cecília Boal sobre a Fábrica de Teatro Popular

 

 

 

 

 

 

 

Homenagem à burocracia – Do baú do Boal

Cena Teatro-Fórum de Augusto Boal, em louvor à Burocracia, sem data atribuída.

HOMENAGEM À BUROCRACIA

Um casal passeia no jardim de sonho.

ELE – Que jardim tão lindo, cheio de flores.

ELA – Olha aquele menino andando de bicicleta – ele parece tão feliz e contente, vestido de azul.

ELE – E a menina brincando de boneca. Que gracinha, toda vestida de cor de rosa.

ELA – Olha aqueles namorados… Como eles se amam…

ELE _ E aquela velhinha fazendo tricô… Que gracinha…

ELA – E aquele vovôzinho, lendo jornal com lupa e binóculo. ELE – Que bonito…

ELA – Ele lê todos os dias todos os jornais.

ELE – E vê todos os noticiários de televisão.

ELA – E sabe de cor o número de mortos na guerra do Iraque, na Faixa de Gaza.

ELE – E no Morro do Alemão.

ELA – Isso sim, é saber viver até o fim.

ELE – Tudo tão perfeito. Todo mundo tão feliz.

ELA – E a grama tão verde, tão fresquinha… O orvalho vem caindo e ela fica mais verde ainda.

ELE – É proibido pisar na grama, você sabia?

ELA – Claro que sei. Proibidíssimo.

ELE – Mas aquele bebê está pisando, amassando a grama… É proibido, mas ele não sabe.

ELA – Ele não está pisando: está engatinhando.

ELE – É a mesma coisa. A lei proíbe pisar pra proteger a grama, entendeu? O bebê está fora da lei.

ELA – Claro que não. O bebê não conhece a lei…

ELE – Eu sou estudante de Direito e sei muito bem que nenhum cidadão pode alegar ignorância da lei. O bebê existe, logo é um cidadão. Como tal, tem que se comportar como qualquer cidadão. O que o bebê está fazendo é uma transgressão á lei. Desobediência civil.

ELA – Não vamos brigar. Tudo estava indo tão bem.

ELE – Vamos continuar olhando as coisas bonitas que acontecem aqui neste parque.

ELA – Por exemplo…

ELE – Por exemplo, o quê?

ELA – Aquele cachorro. Qual é a marca daquele cachorro?

ELE – Não é marca, é raça.

ELA – Mesmo assim, qual é?

ELE – Pitbull.

ELA – Olha que boca grande ele tem, não é mesmo?

ELE – Olha os dentes.

ELA – Olha a cara de mau!

ELE – É feroz.

ELA – Mata?

ELE – Estraçalha.

ELA – Olha: ele também está pisando na grama. Isso também é desobediência civil!

ELE – Viu? O bebê deu o mau exemplo, agora todo mundo pensa que tem o direito de pisar na grama.

ELA – Ele está se aproximando do bebê.

ELE – Cada vez mais perto.

ELA – Engraçado: ele está sem focinheira.

ELE – E de boca aberta.

ELA – Vai lá salvar o menino, vai!!!

ELE – Se eu for, o Pitbull vai me comer. Ele está sem focinheira.

ELA – Como é que esse cachorro tem coragem de ameaçar o menino?

ELE – Porque ele está seguro da impunidade! Aqui é assim mesmo!

ELA – Toma esse pau. (Dá-lhe um pedaço de pau que estava no chão). Dá na cabeça do cachorro.

ELE – Mas é proibido pisar na grama. É proibido matar cachorro, mesmo sem focinheira.

ELA – É uma emergência! Vai, vai!!!

ELE – Olha que eu vou.

ELA – Vai.

ELE – Eu vou!

ELA – Vai!

ELE – Estou indo.

ELA – Depressa! (Começa a andar devagar na direção de onde se supõe que esteja o bebê e o pitbull. Ouve-se um apito. Aparece um guarda).

OMEÇA A ANDAR DEVAGAR NA DIREÇÃO DE ONDE SE SUPÕE QUE ESTEJA O BEBÊ E O PITBILL. OUVE-SE UM APITO. APARECE UM GUARDA).

GUARDA – Onde é que você pensa que vai?

ELE – Vou salvar uma vida humana.

GUARDA – É proibido.

ELA – Salvar bebê é proibido?!?!?

GUARDA – Não: pisar na grama.

ELA – Mas é uma emergência.

GUARDA – Se é uma emergência ou não, quem decide é a Instância Superior!

Ele – Qual?

GUARDA – A Secretaria de Gramas e Flores Exóticas.

ELE – Então, pede licença à Secretaria de Gramas e Flores Exóticas. Onde ela fica?

GUARDA – É na rua tal número qual. Só eles podem autorizar.

ELA – Mas o cachorro já mordeu o pé do bebê.

GUARDA – Esse é um outro problema: eu aqui estou cumprindo a minha missão, o meu dever. Tenho que fiscalizar, fiscalizo e pronto. Tenho que cumprir com a minha missão.

ELE – Eu quero salvar o bebê.

GUARDA – Mas eu tenho primeiro que salvar a minha pele. Se eu autorizo uma ilegalidade, quem paga depois sou eu!

ELA – O cachorro já comeu o pé do menino e está mordendo a perna: vai correndo buscar a autorização.

ELE – Eu vou. (Entra a funcionária) – É aqui a Secretaria de Grama e Flores Exóticas?

FUNCIONÁRIA – Aqui mesmo. Mas agora é hora do almoço e eu estou ainda no aperitivo.

ELE – Pelo amor de Deus: eu preciso de uma Autorização Especial para Pisar na Grama.

FUNCIONÁRIA – Tem receita médica?

ELE – É um bebê que está sendo comido por um cachorro no parque, e o cachorro não tem focinheira.

FUNCIONÁRIA – Identidade do cachorro, tem?

ELE – Eu sei lá!

FUN – Então o senhor tem que ir primeiro à Secretaria de Animais Sem Focinheira. Não é aqui, não.

ELE – Mas por quê???

FUNC – Procure me entender: quem está fora da lei, em primeiro lugar, é o cachorro, não é o senhor. Por isso, temos que abrir um processo contra o cachorro, porque assim manda a burocracia, e, se ficar provado que o cachorro tem dono, o dono também vai ser arrolado como testemunha.

ELE – Mas, pelo amor de Deus, me dê algum documento pra eu mostrar pro guarda.

FUN – Olha aqui: como eu tenho muito boa vontade, mas não posso me comprometer, – eu estou cumprindo com a minha obrigação, entende?, porque se não quem paga depois sou eu – eu vou lhe dar uma Petição, provisória, autorizando o senhor a pisar na grama, desde que o senhor se ofereça como garantia de que o cachorro, se não ficar provada a sua inocência, será obrigado a devolver todos os pedaços da perna do bebê já mastigados.

ELE – Prometo e me comprometo, juro e re-juro, mas me dê aqui essa Autorização provisória.

Fun – Que pressa é essa?

Ele – (Quase chorando) – É o menino vestido de azul… ele não gosta de cachorro…

FUN – Calma: falta o carimbo. Falta assinatura. Falta reconhecer a firma.

ELE – Do cachorro?

FUN – Não, a minha.

ELE – A senhora não reconhece a sua firma?

FUNC – Leve assim mesmo, pode ser que o Guarda tenha piedade do senhor. Tome. Leve. (Ele sai correndo)

ELE – Cheguei! Eu vou matar esse cachorro! Cadê o cachorro?

GUARDA – Que cachorro?

ELE – Cadê o bebê?

ELA – Deu uns gritos horríveis, você nem imagina, grito de gente grande.

GUARDA – Ah, agora eu me lembro: o senhor está falando daquele menino que vocês estavam querendo salvar do cachorro?

ELE – Esse mesmo.

ELA – Onde ele está?

GUARDA – O Pitbull comeu.

ELA – Mas agora nós já temos todos os papéis em ordem pra pisar na grama.

GUARDA – Pode jogar no lixo porque não serve mais pra nada. O Pitbull comeu o menino inteiro.

ELA – Comeu? Inteiro?

GUARDA – Pra dizer a verdade, inteiro não: deixou só alguns ossos. Comigo ficou esse osso aqui, mas eu não sei o que fazer com esse osso. (MOSTRA UM FÊMUR). Se quiserem, podem levar como recordação.

ELE – Ele não tinha duas pernas? Cadê o outro fêmur?

GUARDA – A mãe do menino levou como recordação. Leve este.

ELA – Obrigada.

GUARDA – E rasga essa petição. Não serve pra nada.

ELA – Não rasgo, não: eu vou guardar pra qualquer ocasião. Quem sabe, no domingo que vem, um lobo vem aqui pra comer o senhor em cima da grama, e eu vou salvá-lo.

GUARDA – Obrigado.

ELE – O senhor é um ótimo guardião da lei. Guarde a lei, guarde pro senhor! Boa noite!

 

II

Em seguida entra um funcionário, em outro ambiente mais burocrático.

FUNCIONÁRIO – Pois é: isso que o senhor está contando é muito interessante, muito ilustrativo, muito teatro, mas aqui na prestação de contas está escrito que vocês compraram passagens mais caras pela manhã quando, no mesmo dia, havia passagens mais baratas de tarde. Por que é que vocês não compraram das mais baratas?

CTO – Porque o nosso trabalho começava de manhã.

FUNCIONÁRIO – Podiam começar a tarde e vocês varavam à noite.

CTO – Nós trabalhamos com funcionários do Estado, eles têm horários que nós temos que respeitar.

FUNCIONÁRIO – Mas nós temos que respeitar a letra da lei.

CTO – A letra da lei tem espírito: vamos respeitar o espírito.

FUNCIONÁRIO – E tenho que ler o que está escrito, porque o TCU vai ler o que está aqui, não vai ler o espírito.

CTO – O senhor sabe que o nosso trabalho é importante…

FUN – Importantíssimo!

CTO – Em todas as prisões onde nós trabalhamos as relações entre os funcionários e o presos melhorou, diminuiu a violência, todo mundo está contente, quer que o nosso trabalho continue…

FUN – Mas vocês compraram as passagens de manhã que eram mais caras…

CTO – Nós compramos as passagens mais baratas que estavam à venda de tarde…

FUN – E tem outro problema: três pessoas que trabalharam nesse projeto assinaram a Ata de Fundação do Centro.

CTO – Porque acreditam no Teatro do Oprimido e queriam criar um Centro que fizesse o trabalho que estamos fazendo.

FUN – Mas assinaram.

CTO – Se elas não acreditassem, não assinariam.

FUN – Assinando, elas se tornaram inelegíveis para trabalhar no Centro.

CTO – São as únicas pessoas no mundo inteiro que podem realizar esse trabalho.

FUN – Vocês deviam fazer uma licitação.

 

 

 

Carta de Boal para Marc Silberman sobre Brecht em 1997

Em 1997 Augusto Boal escreve carta endereçada ao International Brecht Society discutindo pontos importantes de sua leitura e compreensão do trabalho do dramaturgo alemão.

Esta carta, inédita, foi lida por Cecília Boal no Seminário “Que tempos são esses”, realizado no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) em 2016.

O Instituto Augusto Boal traduziu a carta e a coloca aqui a disposição:

Rio de Janeiro, 13 de agosto de 1997

Caro Marc Silberman,

Lamento não ter mais tempo para escrever mais longamente sobre Bertolt Brecht, como você me pediu . Mas este tem sido um ano particularmente difícil para mim, com muitas viagens ao redor do mundo, muitas oficinas, muitas palestras e demonstrações, além do meu trabalho contínuo aqui no meu próprio país no “Teatro Legislativo” – já conseguimos promulgar 13 leis municipais que surgiram das nossas intervenções com Teatro Fórum. O desejo tornou-se lei!!!

Brecht está e esteve ligado ao meu trabalho em muitos momentos da minha vida, e em muitos aspectos importantes.

Curiosamente, eu comecei a minha carreira profissional como diretor de teatro no mesmo ano (e quase no mesmo mês) em que ele morreu. A primeira das suas peças que dirigi foi “A Exceção e a Regra”, com os trabalhadores de uma organização sindical que não eram atores profissionais – e desde então, tenho trabalhado muitas vezes com não-atores, além de meu trabalho profissional com atores profissionais nos teatros oficiais.

O segundo, “A ascensão resistível de Arturo Ui”, foi a última peça que eu dirigi no Brasil antes de ser preso e mais tarde forçado ao exílio. Nós não podíamos produzir nossas próprias peças sobre o nosso próprio país e Brecht era um nome suficientemente prestigioso como para obrigar a censura à permitir que suas peças fossem encenadas. Queríamos denunciar o que estava acontecendo no Brasil e “Ui” era perfeito para esse efeito. Eu estava saindo do teatro uma noite, depois de um ensaio , quando fui sequestrado pela polícia secreta. A ascensão de nossos próprios Arturos era resistível, mas naquela época nós não conseguimos resistir …

Quando eu estava exilado na Argentina, lembrei de um de seus poemas em que uma velha vai a um supermercado, pega tudo o que precisa (pão, queijo, manteiga …) e, sabendo que ela não tem dinheiro para pagar essas mercadorias, coloca tudo de volta nas prateleiras dizendo, que afinal , ela não precisa de nada. O poema continua e o poeta sugere que ela não deveria ter feito isso: ao contrário, ela deveria ter ido até o caixa e exposto o seu problema – ela não tinha trabalho, não tinha nenhuma pensão, tinha apenas fome e precisava comer. O que poderia ser feito?

Esse poema nos inspirou e , na Bélgica, encenamos a mesma situação usando a técnica do “teatro invisível” – um jovem ator desempenhou o papel de um jovem desempregado enquanto outros atores ficavam em pé na fila com as suas próprias compras discutindo com o protagonista e com os outros clientes, que não sabiam que era “teatro invisível”.

E é claro , todas as pessoas no supermercado participaram intensamente na discussão sobre o desemprego, os salários, a fome… Sem saber que era teatro.

Muitos anos depois, quando eu estava vivendo em Paris onde criei meu primeiro “Centro de Teatro do Oprimido”, estávamos preparando um espetáculo para um festival de peças de Teatro Fórum , que são em geral peças curtas. Neste tipo de teatro, o espectador torna-se espect-ator , a peça ou modelo é apresentada uma primeira vez, e na segunda vez ele ou ela podem intervir e improvisar suas próprias soluções e alternativas. Queríamos apresentar peças de autores conhecidos preocupados com questões políticas e sociais e, é claro, eu me lembrei de Brecht, da sua peça “Aquele que diz sim e   aquele que diz não ” que também mostra que as soluções têm que ser encontradas . Mas, ao invés disso, nós fizemos “A esposa judia” exatamente como Brecht a tinha escrito, acrescentando apenas a presença em cena de todos os personagens com quem a protagonista fala no telefone. Na primeira apresentação, os personagens ficavam mudos, mas, a partir da segunda vez , ou seja da repetição do modelo, os espect-atores que desejavam substituir a esposa tinham o direito de improvisar com eles.

Utilizamos esta peça escrita na Alemanha antes da guerra, para discutir o racismo na França, muitas décadas depois.

Além destas utilizações práticas de Brecht ele funciona na teoria e ele influenciou muitas das minhas primeiras peças dos anos 50 e do início dos anos 60. Foi quando ele e Stanislavsky foram minhas principais fontes de inspiração teatral.

Desejo que o seu livro seja extremamente útil para todos os leitores IT’S.

Muito sinceramente,

Augusto Boal

Créditos: International Brecht Institute