Carta de Boal para Marc Silberman sobre Brecht em 1997

Em 1997 Augusto Boal escreve carta endereçada ao International Brecht Society discutindo pontos importantes de sua leitura e compreensão do trabalho do dramaturgo alemão.

Esta carta, inédita, foi lida por Cecília Boal no Seminário “Que tempos são esses”, realizado no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) em 2016.

O Instituto Augusto Boal traduziu a carta e a coloca aqui a disposição:

Rio de Janeiro, 13 de agosto de 1997

Caro Marc Silberman,

Lamento não ter mais tempo para escrever mais longamente sobre Bertolt Brecht, como você me pediu . Mas este tem sido um ano particularmente difícil para mim, com muitas viagens ao redor do mundo, muitas oficinas, muitas palestras e demonstrações, além do meu trabalho contínuo aqui no meu próprio país no “Teatro Legislativo” – já conseguimos promulgar 13 leis municipais que surgiram das nossas intervenções com Teatro Fórum. O desejo tornou-se lei!!!

Brecht está e esteve ligado ao meu trabalho em muitos momentos da minha vida, e em muitos aspectos importantes.

Curiosamente, eu comecei a minha carreira profissional como diretor de teatro no mesmo ano (e quase no mesmo mês) em que ele morreu. A primeira das suas peças que dirigi foi “A Exceção e a Regra”, com os trabalhadores de uma organização sindical que não eram atores profissionais – e desde então, tenho trabalhado muitas vezes com não-atores, além de meu trabalho profissional com atores profissionais nos teatros oficiais.

O segundo, “A ascensão resistível de Arturo Ui”, foi a última peça que eu dirigi no Brasil antes de ser preso e mais tarde forçado ao exílio. Nós não podíamos produzir nossas próprias peças sobre o nosso próprio país e Brecht era um nome suficientemente prestigioso como para obrigar a censura à permitir que suas peças fossem encenadas. Queríamos denunciar o que estava acontecendo no Brasil e “Ui” era perfeito para esse efeito. Eu estava saindo do teatro uma noite, depois de um ensaio , quando fui sequestrado pela polícia secreta. A ascensão de nossos próprios Arturos era resistível, mas naquela época nós não conseguimos resistir …

Quando eu estava exilado na Argentina, lembrei de um de seus poemas em que uma velha vai a um supermercado, pega tudo o que precisa (pão, queijo, manteiga …) e, sabendo que ela não tem dinheiro para pagar essas mercadorias, coloca tudo de volta nas prateleiras dizendo, que afinal , ela não precisa de nada. O poema continua e o poeta sugere que ela não deveria ter feito isso: ao contrário, ela deveria ter ido até o caixa e exposto o seu problema – ela não tinha trabalho, não tinha nenhuma pensão, tinha apenas fome e precisava comer. O que poderia ser feito?

Esse poema nos inspirou e , na Bélgica, encenamos a mesma situação usando a técnica do “teatro invisível” – um jovem ator desempenhou o papel de um jovem desempregado enquanto outros atores ficavam em pé na fila com as suas próprias compras discutindo com o protagonista e com os outros clientes, que não sabiam que era “teatro invisível”.

E é claro , todas as pessoas no supermercado participaram intensamente na discussão sobre o desemprego, os salários, a fome… Sem saber que era teatro.

Muitos anos depois, quando eu estava vivendo em Paris onde criei meu primeiro “Centro de Teatro do Oprimido”, estávamos preparando um espetáculo para um festival de peças de Teatro Fórum , que são em geral peças curtas. Neste tipo de teatro, o espectador torna-se espect-ator , a peça ou modelo é apresentada uma primeira vez, e na segunda vez ele ou ela podem intervir e improvisar suas próprias soluções e alternativas. Queríamos apresentar peças de autores conhecidos preocupados com questões políticas e sociais e, é claro, eu me lembrei de Brecht, da sua peça “Aquele que diz sim e   aquele que diz não ” que também mostra que as soluções têm que ser encontradas . Mas, ao invés disso, nós fizemos “A esposa judia” exatamente como Brecht a tinha escrito, acrescentando apenas a presença em cena de todos os personagens com quem a protagonista fala no telefone. Na primeira apresentação, os personagens ficavam mudos, mas, a partir da segunda vez , ou seja da repetição do modelo, os espect-atores que desejavam substituir a esposa tinham o direito de improvisar com eles.

Utilizamos esta peça escrita na Alemanha antes da guerra, para discutir o racismo na França, muitas décadas depois.

Além destas utilizações práticas de Brecht ele funciona na teoria e ele influenciou muitas das minhas primeiras peças dos anos 50 e do início dos anos 60. Foi quando ele e Stanislavsky foram minhas principais fontes de inspiração teatral.

Desejo que o seu livro seja extremamente útil para todos os leitores IT’S.

Muito sinceramente,

Augusto Boal

Créditos: International Brecht Institute

Últimos dias da exposição! Não deixe de ir ver! :)

Exposição – Meus caros amigos – Augusto Boal – Cartas do exílio

A exposição Meus caros amigos – Augusto Boal – Cartas do exílio reúne parte da correspondência de Augusto Boal (1931-2009), criador do Teatro do Oprimido, durante os anos de seu exílio político, de 1971 a 1986. Com curadoria de Eucanaã Ferraz, poeta e consultor de literatura do IMS, a mostra fica em cartaz na Pequena Galeria do Instituto Moreira Salles no Rio de Janeiro até 21 de agosto.
Uma parceria do IMS com o Instituto Augusto Boal.

Entrada franca.

Visitação: 4 de junho a 21 de agosto de 2016
De terça a domingo, das 11h às 20h.

Site: boalcartasdoexilio.ims.com.br

exposicao

Texto de Rafael Villas Bôas sobre a forma de narrar de Cecilia Boal

Rafael Villas Bôas, professor da Universidade de Brasília e integrante do Coletivo Terra em Cena, compareceu à conversa com Cecilia Boal que aconteceu no dia 20 de julho na galeria da exposição “Meus caros amigos – Augusto Boal – Cartas do exílio”, no Instituto Moreira Salles. O texto a seguir apresenta as impressões sobre Cecilia que inspiraram Rafael durante o evento, realizado entre as correspondências e outros documentos expostos, testemunhas do período de exílio de Boal.

Cartas do exílio e a forma de narrar de Cecilia Thumim Boal

Numa tarde fria e chuvosa de 20 e junho de 2016, dentro da pequena sala do Instituto Moreira Salles, no Rio de Janeiro, onde está a exposição Cartas do Exílio, Cecília se pôs a falar para uma plateia interessada, que lotava a sala repleta de cartas, fotos e cartazes.

Pelas cartas de Augusto Boal podemos perceber o gesto da disciplina intelectual de elaborar, sempre, sobre as contradições da realidade em que vivia e com a qual se defrontava. No diálogo com companheiros, como Chico Buarque e Guarnieri, estava sempre a compartilhar sentimentos, impressões, e a combinar trabalhos conjuntos, publicações, peças, músicas. Proletários artistas profissionais, empenhados na melhor divulgação dos seus trabalhos, buscando meios de sobreviver na adversidade, agindo como propagandistas contra o golpe no exterior.

A ligação com organizações políticas, como o Partido Comunista Brasileiro (PCB) e a Aliança Libertadora Nacional (ALN), era também uma característica comum. Tempos menos fragmentados: o trabalho intelectual não estava à serviço de carreiras individuais, a realidade não era apenas objeto de análise.

Mas, naquela tarde estava Cecília a discorrer sobre as cartas: o homem com quem viveu e trabalhou, a ditadura, o exílio e seus múltiplos traumas, ressaltando todavia as possibilidades que a experiência proporcionou à família. De todas as formas como a história pode ser contada, Cecília evita aquelas cujo encaixe de sua presença no processo ou à destaque, ou a reifique, no lugar tradicional da mulher de um grande homem.

Diante de nós estava uma atriz e uma psicanalista, a mulher por quem Boal se apaixonou e levou uma vida junto. Uma trabalhadora que não se vangloria contando os espetáculos em que atuou. O desavisado não saberá por ela, mas pelo cartaz da montagem de “Arena conta Zumbi”, que lá estava ela no elenco, e também de muitas outras peças em diversos países.

Por intermédio de uma carta de Boal para a mãe ficamos sabendo que, por vezes, era ela que bancava a casa – o exílio marcado pelas dificuldades econômicas, com seu trabalho de atriz nas montagens de sucesso que participou.

A condição de psicanalista – a audiência soube por ela que definiu na França abandonar a carreira de atriz porque já não aguentava a cada mudança de país ter que aprender com fluência a língua para poder atuar – confere à narrativa de Cecília um ponto de vista terno e distanciado, tanto sobre a relação de Boal com a mãe, quanto sobre a projeção de culpa que carregou diante do impacto do exílio sobre os filhos dela e Boal.

Essa condição, agregada ao fato de ser argentina, também lhe permite um comentário distanciado sobre o Brasil e seus pactos: de silêncio sobre o passado, de conciliação cordial no presente. Países que promoveram rupturas radicais em seus processos formativos carregam na cultura, na sociabilidade, legados desse gesto. O impasse da conciliação permanente como gesto político não é um dilema de nossos países vizinhos como é para nós, brasileiros.

Por isso ter Cecília entre nós elaborando sobre os (nossos) traumas é uma oportunidade de grande aprendizado: sem vitimização, sem heroísmo, a narrativa de Cecília vai nos mostrando uma personagem fundamental, não apenas do passado, mas do tempo presente.

Esse tempo do agora extravasou os limites da exposição, do período da resistência à ditadura e da expectativa com a democratização. As pessoas perguntavam sobre o Instituto Augusto Boal, sobre a eficácia do Teatro do Oprimido como meio de formação e resistência. Alguns, como o estudante Andrey, do Levante Popular da Juventude, não apenas perguntava, mas dava depoimento de suas experiências com o método.

Cecília e Julian Boal puderam então abordar as redes, os encontros, em que estão ativamente envolvidos. Aqui termino, como testemunha da forma produtiva que ambos têm se colocado no cenário do teatro político contemporâneo: contra a cômoda posição de herdeiros do legado do mestre, os dois, mãe e filho, trabalhadores do teatro – Julian também como pesquisador, fazendo doutorado sobre o tema – têm se colocado como articuladores, mediadores, potencializadores de encontros  intercontinentais entre grupos e movimentos sociais. Por exemplo, ocorreu o Encontro Internacional de Teatro do Oprimido na Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), de 27 de junho a 01 de julho de 2016, reunindo cem pessoas de oito países e mais de vinte grupos praticantes de Teatro do Oprimido. E o II Seminário Internacional Teatro e Sociedade (SITS), da Rede Teatro e Sociedade, ocorrido na Universidade de Brasília, de 14 a 17 de dezembro de 2015, em que Cecília ministrou uma das cinco oficinas, compartilhando como era o método de interpretação desenvolvido pelo Teatro de Arena, em que ela atuava como atriz e Augusto Boal como diretor.

O empenho de Cecília e de Julian não é o de, tão somente, publicizar uma forma bem sucedida de teatro, mas de questionar a todo momento o limite e a potência das formas e métodos, sempre em contraste com as possibilidades do tempo histórico em que vivemos, e com as condições objetivas de sobrevivência do Teatro Político na atualidade. Sem a reivindicação de um protagonismo espetacular e hierárquico, vão a maneira deles ligando o passado ao presente, promovendo encontros, dando palestras, ministrando oficinas, organizando exposições, construindo elos essenciais.

Rafael Villas Bôas

Professor da Universidade de Brasília

Integrante do Coletivo Terra em Cena

Carta de Sábato Magaldi para Augusto Boal

Sábato Magaldi, um dos mais importantes críticos do teatro brasileiro, morreu na última quinta-feira, dia 14. Além de amigo da vida toda, Sábato foi grande incentivador da carreira de Augusto Boal ainda nos anos de 1950 e um dos responsáveis pela entrada de Boal na direção do Teatro de Arena. Durante todos esses anos, Sábato e Boal trocaram muitas correspondências e, como homenagem, postamos esta carta enviada por Sábato em janeiro de 1980.

Carta Sábato Magaldi 1 Carta Sábato Magaldi 2

Transcrição:

“2/1/80

Meu caro Boal:

Lamento que o tempo tenha sido curto para a gente bater outros papos, fazendo um balanço da sua rápida visita. Desconfio que a sua viagem foi algo decepcionante: as perspectivas não se mostram animadoras, a situação econômica do Brasil vai de mal a pior, o teatro sai com dificuldade do violento quadro de repressão.

Todo mundo se queixa de que, apesar do êxito artístico de alguns espetáculos, financeiramente a temporada foi muito mal. Esse é um reflexo da situação geral do país, nada brilhante. Como sairemos da crise?

Imagino que, para você, não tenha muito sentido deixar o êxito europeu, em função de um futuro incerto , entre nós. Incerto de todos os pontos de vista – político e financeiro, sobretudo. Mas continuo a achar que, talvez, você deve encontrar uma fórmula para desenvolver seu trabalho aí e aqui. A volta às vezes, de vez em quando, deve trazer um grande alento.

Por outro lado, sobretudo de sua inquietação criadora, suponho que você esteja indeciso entre a possibilidade de aproveitar pelo menos alguns anos as experiências de teatro-foro, teatro-invisível etc., e o desejo de pesquisar outros caminhos. O ideal seria uma conciliação entre o já conquistado e a busca de uma nova linguagem, permanentemente. Mas falta tempo para as menores solicitações.

Como não pude comparecer à estreia de Fábrica de Chocolate, faltou uma última conversa, até para saber sobre o seu programa nos próximos meses. Tentei falar também com o Fernando Peixoto, mas não consigo encontra-lo. Parece que ele viaja sem parar.

Fiz um balanço de 79, no qual registro sua vinda ao Brasil. Quando for ao jornal, arranjarei um exemplar, para manda-lo a você. No dia, não consegui comprar o JT.

Agora que levo uma vida mais calma, com tempo para leitura e estudo, acredito que me tornarei um epistológrafo verdadeiro. Minha intenção é a de responder, de imediato, a todas as cartas. Veja você que tomei até a iniciativa deste diálogo, sem esperar que você se manifestasse. Escreva, que não ficará sem resposta.

Edna e eu desejamos tudo de bom para você, Cecilia e os meninos, no ano e na década de 80.

Sábato”