Agitprop e Teatro do Oprimido – texto de Iná Camargo Costa

Iná Camargo Costa, pesquisadora teatral, escreve este texto a pedido de Julian Boal.  Agradecemos a gentileza de ter nos permitido a publicação neste blog.

AGITPROP E TEATRO DO OPRIMIDO
Iná Camargo Costa[1] 

Introdução

Como arma na moderna luta de classes, o agitprop já tem uma história mais do que centenária segundo o recorte aqui adotado, pois teve início quando as organizações dos trabalhadores europeus – socialistas, anarquistas, trabalhistas – e depois latinoamericanos incluíram as atividades culturais em suas pautas de intervenção, sendo o teatro, por suas características de atividade pública, a que tem maior número de referências em todo o mundo. A partir do final dos anos 1960 e início dos anos 1970, Augusto Boal começou a escrever um dos capítulos latinoamericanos do agitprop e dedicou a vida inteira a desenvolver este trabalho.

O Teatro do Oprimido tem todo o direito de ser considerado um capítulo latinoamericano desta história pelas condições em que foi criado e depois teve sua elaboração teórica formulada por Augusto Boal: no exílio que começou pela Argentina e onde seu livro de mesmo nome foi publicado pela primeira vez, as circunstâncias em que se desenvolveu a proposta – principalmente do teatro fórum – foram dadas pela situação das lutas sociais e políticas latinoamericanas, como ele mesmo relata em diferentes ocasiões.

Para entender a família do agitprop que o Teatro do Oprimido integra, é preciso recapitular pelo menos o momento em que foram criadas, experimentadas ou desenvolvidas as suas formas mais conhecidas, bem como a própria palavra, que corresponde à fusão entre agitação e propaganda. Estamos obviamente nos referindo à Revolução de Outubro de 1917. A exemplo do que faziam todos os exércitos na Primeira Guerra mundial, o Comandante do Exército Vermelho, Leon Trotsky, convocou artistas e profissionais de todas as áreas para cuidar da vida cultural dos soldados e os que se dedicaram ao teatro foram responsáveis pela invenção ou reinvenção das formas teatrais de agitprop mais conhecidas até hoje.

Para refrescar a memória, vale a pena ao menos enumerar algumas das formas do teatro de agitprop que ajudam a entender o capítulo escrito por Augusto Boal.

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A Tempestade de Boal – O Globo

Que bom!

A tempestade de Boal - O Globo

Artigo no Globo em 08 de março de 2017

Vou domingo a Porto Alegre ver a estreia! O Clima tempo diz que vai chover mas quem é que se importa? A final nada mais coerente em se tratando de uma tempestade alem do mais estamos acostumados a chuvas e trovoadas e com os Atuadores da Tribu teremos certamente boas tempestades dignas do peixe que o Boal foi.

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Peixes desenho de Augusto Boal

Vivam os peixes, as tempestades e os Atuadores!

“Lembranças de Boal” de Iná Camargo Costa

Texto de Iná Camargo Costa publicado na edição 7 – Homenagem a Augusto Boal – da Revista Vintém, projeto editorial da Companhia do Latão, publicada em 31 de julho de 2oo9.

LEMBRANÇAS DE BOAL
Iná Camargo Costa

  1. Noticiário político-cultural

Os jovens que tinham 15, 16 anos, como eu em 1968, e se interessavam por teatro, sabiam de Augusto Boal e do teatro de Arena de São Paulo por diferentes meios e de maneira indireta, isto é, nós sabíamos sem saber muita coisa. É o que se chama informação de que somos abastecidos pela indústria cultural. Basta lembrar que uma das músicas brasileiras de maior sucesso em 1965 foi Carcará, gravação de Maria Bethânia. Só vim a saber muito tempo depois que ela integrava o Show Opinião, e que Augusto Boal participou da produção deste espetáculo e assegurou a pessoa jurídica necessária à sua estréia através do Teatro de Arena, pois o Teatro Opinião só foi criado depois do espetáculo.

Para dar mais um exemplo, a música Upa, neguinho, gravada por Elis Regina, e proveniente do espetáculo Arena conta Zumbi, também tocou muito no rádio e no ano de 1965 era regularmente interpretada por ela em seu programa de televisão, O fino da bossa. Por essa via, a série Arena conta… e os nomes de Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri, sobre os quais era possível saber alguma coisa no noticiário dos jornais, passaram a incendiar a nossa imaginação.

Não é preciso multiplicar os exemplos: já está claro que os jovens que moravam nos confins do Estado de São Paulo – como eu, primeiro em Chavantes e depois de 1967 em Botucatu – passaram a acompanhar com o máximo interesse, através de revistas, jornais, programas de rádio e de televisão, toda a produção cultural daquela geração, que se tornou referência para muitos de nós. Em primeiro lugar os cantores e intérpretes e depois os compositores, como Edu Lobo e Guarnieri, autores de Memórias de Marta Saré, defendida no IV Festival da TV Record, em 1968, por Marília Medalha, também atriz do Arena (ver post scriptum, abaixo).

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