Discurso de Boal em reeleição do Lula, 2006

Os textos de Boal são sempre tão atuais e tão presentes. Compartilhamos então, com vocês, a fala que ele preparou para discurso em função da vitória do Lula em sua reeleição, feito no Canecão em 2006. 

No vídeo Augusto Boal proferindo o discurso e abaixo o texto na íntegra:

17 de Outubro, Rio de Janeiro

“Companheiras e Companheiros,

eu quero lembrar àqueles que são da minha idade – e quero revelar aos menorzinhos -, que errar faz muito bem à saúde… desde que se aprenda. Nós aprendemos muito, aprendemos que não podemos continuar errando os mesmos erros que erramos no nosso passado político. Nunca mais os erros de 64: nunca mais a divisão.

Como cada um de nós é uma unicidade, é natural que, mesmo quando pensamos a mesma coisa, pensemos essa mesma coisa de forma diferente. Cada gêmeo, cada família, cada torcedor de um mesmo time, cada membro de uma mesma associação antifascista, cada militante de cada partido político de esquerda, por mais que tenha, com os demais, um sólido denominador comum, pensa de forma diferente a mesma coisa igual. Isso é maravilhoso, é assim que se avança: cotejando opiniões, dialogando entre companheiros, manifestando dúvidas e hesitações.

Mas tem um porém: vezes há em que o combate se dualiza e o mundo se divide em duas metades: não existe terceira metade, não existe a terceira margem do rio. É lá ou cá. É este esse momento: ou cá ou lá!

Em 1964, a esquerda se dividiu em ALN, PC do B, Var-Palmares, MR8, PCR e outros: um mais à esquerda, outro menos à esquerda; um, um pouco mais ou menos à esquerda, outro menos ou mais; uma esquerda assustada, timorata e temerosa, outra, afoita, destemida e corajuda. Eram tantas divisões e dissidências,  dissidências das divisões e divisões das dissidências, divisões das divisões e dissidências das dissidências, que, nós, que éramos a maioria, que éramos todos contra a ditadura mas estávamos divididos, nós fomos vencidos. Todos. Perdemos para uma ditadura sólida, que também tinha nuances, inimizades, conflitos econômicos, mas eram todos ditadores. Perdemos e pagamos caro a derrota – no espírito e no corpo. Pagamos caro.

Hoje, só eu penso como eu, só Lula pensa como Lula, só cada um de nós pensa como cada um. Mas, mesmo pensando diferente, pensamos a mesma coisa: temos que derrotar esses adversários. Não para que sejamos vencedores, – não há medalhas a distribuir, nem taças nem troféus –  mas para que vença o povo brasileiro.

Não por nossa causa, ou não apenas, mas pela causa dos países irmãos nossos vizinhos, pela causa dos países escravizados da África e de toda parte, globalizados, fagocitados pela potência hegemônica que dissemina a guerra inclemente e a pilhagem desavergonhada. Não por nossa causa, ou não apenas, mas pela causa dos pobres e miseráveis do mundo inteiro, inclusive dos países ricos, pois que lá também existem oprimidos, humilhados e ofendidos.

Não somos nós que radicalizamos: é a direita! Hoje, nós estamos diante de uma direita canibal – no sentido figurado, pois come as riquezas do Brasil, privatizando, privatizando, privatizando, e dizendo “Sou lobo feroz sim, porém… vegetariano!”  A direita é também canibal no sentido literal, como aconteceu domingo no Leblon, quando alguns fascistas comeram um dedo de uma militante petista. E tiveram a sem-vergonhice de dizer que o comiam para que ela tivesse no corpo a marca do Lula… Foi o que disseram eles, e eu digo: se fosse necessário marcar no corpo a sua ideologia, então a direita teria que cortar, ela própria, não um dedo, mas suas cabeças vazias.

Eu não quero dizer nem peço, eu não peço nem penso que devemos esquecer as diferenças que temos. Temos que vencer a direita, sim, mas temos que continuar mobilizados depois da vitória.

Para vencer a direita não basta votar em Lula todos os que já são de esquerda: é preciso que nele votem também os mal informados: são esses que devemos conquistar. Temos que votar e multiplicar!

Na primeira posse de Lula houve um acidente e um incidente que ficaram gravados nos olhos da minha memória. O acidente foi o carro onde estava Lula quando ia tomar posse. O calhambeque, bonito carro de coleção, subia uma ladeirinha quando morreu o motor. O risco era que voltasse tudo pra trás, ladeira abaixo, com Lula dentro. O povo, o querido povão que estava lá, não hesitou: empurrou o carro que subiu ladeira acima e o povo ficou olhando o carro que se afastava.

Depois da posse, aconteceu o incidente: o povo queria ver de perto, abraçar o presidente, mas tinha pela frente um espelho d´água. Outra vez o povão não hesitou e, vestido como estava, mergulhou n´água, e foi lá para o palácio encharcado, pingando peixinho dourado, foi abraçar Lula, ou ver de perto.

Hoje, mais uma vez, mais do que nunca, não podemos hesitar: temos que mergulhar no espelho d´água, temos que empurrar o carro montanha acima, e temos que continuar empurrando depois da vitória, empurrando sempre, porque não é justo deixar que um homem só faça o trabalho que compete ao povo inteiro.

Nossa maior emoção política foi no dia em que paramos de gritar Lula Presidente e pudemos gritar Presidente Lula. Ele foi eleito, mas fomos nós que gritamos.

Lula, nós sempre estivemos do teu lado e, hoje, mais do que nunca, estamos com você! Mas de nós, Lula, você nunca mais vai se livrar. Assim seja!”

 Augusto Boal

 

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