O dramaturgo Chico de Assis

Via Blog Refletor

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Depois de anos sem nos ver, encontrei Chico de Assis esta semana, em Brasília, contente por estar sendo homenageado com a Ordem do Mérito Cultural e cheio de projetos. O paulistano Chico de Assis, 80 anos bem vividos, é um dos maiores dramaturgos brasileiros no sentido mais moderno, contemporâneo, deste ofício. Ainda adolescente foi trabalhar na nascente TV Tupi e começou sua aventura artística pilotando uma câmera. Esteve quase dez anos metido nos estúdios de televisão.

Em seguida embicou pelo teatro. Foi na porta certa: o Teatro de Arena de São Paulo, com Augusto Boal, José Renato, Oduvaldo Vianna Filho (o Vianinha), Gianfrancesco Guarnieri e toda aquela gente que balançou o coreto cênico brasileiro nos anos 1950 e 60. Chico dirigiu, atuou e escreveu na roda viva desse movimento (é autor de mais de 20 peças). No alvorecer da década 1960 foi um dos fundadores do Centro Popular de Cultura da UNE, que se espalhou por São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, pluralizado. Os Centros Populares de Cultura, os CPCs, trabalhavam a aliança de estudantes, camponeses e operários na criação e produção de obras artísticas.

Chico de Assis seguiu nesse caminho de descobertas estéticas através das junções sociais, do entendimento humanista da função social da arte. Não sem razão um de seus trabalhos recentes é um programa intitulado Interações Estéticas. Mas não vim aqui para contar a vida de meu amigo com nome de santo, quem não souber dela pode recorrer aos livros e à internet. Quero falar sobre o que falamos em nosso encontro em Brasília e voltar ao conceito atual de dramaturgo. O significado histórico (a palavra vem do grego) é o de escritor de dramas, de peças teatrais. Mas a evolução narrativa do teatro através dos tempos elasteceu esse significado para o artista que compõe ou harmoniza as várias interfaces do fazer dramático — a palavra, a expressão corporal, a luz, o som, o movimento rítmico de pessoas e objetos em um espaço.

O cinema e seus derivados, as artes tecnológicas, ratificaram a necessidade dessa ampliação conceitual. O que estivemos recordando em Brasília foi um espetáculo dirigido por ele em 1962 ou 63, para o CPC da Bahia, do qual participei ao lado de Geraldo Sarno, Capinan, Johnson Santos e mais umas 30 pessoas. Chico apareceu na Bahia com um projeto que avançava ainda mais a ousadia criativa daqueles tempos revolucionários. A ideia era montar a peça Mutirão em Novo Sol, escrita a dez mãos por Augusto Boal, Nelson Xavier, Modesto Carone, Hamilton Trevisan e Benedito Araújo, da turma do Arena. Para Boal, essa peça representa “um momento emblemático do encontro da produção do teatro político com a luta camponesa da década de 1960”.

O título foi mudado para Rebelião em Novo Sol e o projeto de Chico era juntar e misturar as linguagens do teatro, da dança, da música e do cinema. Naquele tempo não existia o conceito multimídia, não existia nem a palavra mídia, o que Chico pregava era a “simultaneidade de distintas linguagens” e a necessidade de “dramatizar todas as nuances” da narrativa. Há meio século Chico de Assis já se expressava e trabalhava na trilha do que o teatro contemporâneo, o cinema, a TV, o videogame entendem como dramaturgo. Geraldo Sarno e eu fomos os responsáveis pelo cinema, fizemos um documentário silencioso sobre as Ligas Camponesas, que abria o espetáculo, e várias cenas que interagiam com as ações teatrais e musicais.

A montagem foi na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, com capacidade para cinco mil pessoas e sempre lotado. As imagens eram projetadas em uma tela que ficava a cavaleiro do palco, permitindo ”diálogos” entre a imagem virtual e os atores reais. Lembro-me de uma cena, só como exemplo: alguém na tela disparava um tiro e atingia uma personagem no palco, um pistoleiro assassinando um camponês. Aquele espetáculo praticamente futurista regido pelo Chico nos marcou profundamente a todos, aos que trabalhamos com ele e seguramente aos espectadores, entusiasmados com a novidade (Glauber fala de seu entusiasmo sobre Rebelião em Novo Sol no livro Revolução do Cinema Novo).

Sobre isso conversamos, sobre aquele momento de descoberta, de inventar poesia e rebeliões. Ele estava sendo homenageado pelo Estado Brasileiro pelo sua condição de artista mestre, esses artistas que ensinam aos outros artistas. E como ele me ensinou tanto, me abriu os olhos até o arreganho, me fez pensar no teatro sem palavras, na mímica sem gestos, no cinema sem imagens, também quis fazer minha pequena homenagem ao grande homem e meu jeito foi escrever essas coisas. Chico de Assis, o dramaturgo, o demiurgo.

Por Orlando Senna

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