Em busca dos Sacis do Boal

Matéria de Léa Maria Aarão Reis, da Carta Maior

Agosto de 1968. Data emblemática que deixava o mundo em suspenso, de pernas para o ar. Nas ruas de Paris o chienlit coroava a nova maneira de viver a contracultura: sonhar com o impossível, proibir o proibido. Manifestações de rua contra o sistema se multiplicavam em diversos lugares. Desde junho, em Praga, Dubcek preparava a primavera da então Tchecoslováquia – meses depois abortada. Os americanos percebiam, com algum estupor, que, desde janeiro, com a histórica ofensiva do Tet, começavam a perder a guerra do Vietnã.

No Brasil a atmosfera era sombria. Quatro Atos autoritários tinham sido baixados pelos militares e o famigerado quinto viria quatro meses mais tarde, em dezembro. Aqui, imperava o medo que pouco mais tarde se transformaria em terror com a ditadura civil-militar instalada. Em São Paulo a classe teatral reagia e corajosamente resistia à censura e à violência. Um grupo de paramilitares invadira o palco de Roda Viva e surrara as atrizes do elenco da peça de Chico Buarque dirigida por José Celso. Bombas de gás lacrimogêneo eram lançadas nas salas de vários teatros. No Arena a atriz Norma Bengell era raptada por soldados do Exército ao sair de cena e só seria liberada dias depois, no Rio de Janeiro.

Muitos outros episódios como estes são lembrados no irônico livro de memórias póstumas “imaginadas”, no dizer do autor, Augusto Boal, lançado este ano. Em ‘O filho do padeiro’, o mestre do Teatro do Oprimido pinta, em narrativa humorada, irônica e absorvente, o ambiente dos tempos em que o país viveu sob o golpe contra o governo de Jango que se abatera quatro anos antes – mas que fora construído durante os dez anos anteriores.

“1960 foi o começo,” escreve Boal. “O pior viria.” Ele lembra que “muitos líderes foram mortos. O desejo de liberdade era tão grande, sincero (…) Torturados, assassinados a sangue-frio. Mortos em combate, diziam as Forças Armadas.”

Mas há um episódio relatado em suas memórias bem real. Nada de imaginado. Atualmente, a família de Boal, falecido em 2009, se mobiliza sobre esse assunto com o objetivo de tornar mais rico ainda o acervo do legado deixado pelo teatrólogo para que as gerações futuras possam estudar e pesquisar o Teatro do Oprimido.  “O acervo deverá guardar todos os premios e todos os objetos do Boal,” diz Cecília Thumin, psicanalista e presidente do Instituto Augusto Boal, viúva do teatrólogo. Hoje, o Instituto, pessoa jurídica, funciona por enquanto informalmente na sua residência e no seu consultório, no Rio.

Há tempos Cecília procura encontrar o paradeiro de duas estatuetas – “minhas estatuazinhas” como chamava Boal as peças em bronze criadas pelo escultor Victor Brecheret com a figura do personagem de Monteiro Lobato. Eram Sacis ganhos pelo marido, em 68, recusados e jogados fora por ele e dezenas de companheiros da classe teatral igualmente contemplados pelo mais prestigioso prêmio instituído pelo jornal Estado de São Paulo desde os anos 50, originalmente para os que se distinguiam no cinema brasileiro.

Cacilda Becker estava no grupo. Tempos depois inclusive comentou que tinha devolvido os seus Sacis “com muita dor.” Os prêmios haviam sido criados e escolhidos por um dos mais eruditos críticos de teatro do país, intelectual de estirpe, Décio de Almeida Prado, que assinava no Estadão. Logo após a devolução/protesto coletivo, Almeida Prado, um socialista na juventude e admirador da obra de Boal, se aposentou. Não concordava, é claro, com a censura e não podia se alinhar com o jornal que publicara pouco antes um editorial simpático à causa da lei do ferrolho. Encerrava-se em 68 a carreira dos Sacis e de Almeida Prado.

No relato do seu livro Boal é discreto. Com a graça que sempre foi uma característica marcante ele escreve: “Um escritor, que jamais havia sido premiado, propôs que devolvêssemos os prêmios que havíamos recebido de um jornal paulistano. Tratava-se de premio prestigioso, o Saci, espécie de Oscar, Tony ou Obie* nativo. Devolver representava tapa na cara do jornal, mas causaria também certa dor nostálgica nos premiados.”

Na assembléia da classe onde se decidiria sobre a devolução, continua Boal, “a maioria dos assembleistas (sic), não premiada, gritava ensandecida, pedindo que  as lindas estatuetas de Brecheret fosse jogadas no chão do hall do jornal. Bofetada e pontapé.”

Boal, o ator Antonio Pedro e muitos outros companheiros foram contra. Achavam que devolver era decisão pessoal de cada um.  A votação foi feita e às quatro e meia da manhã, “eu, rouco, afônico”, registra o autor, “Antonio Pedro na presidência, fez-se a votação: ganhou o bota-fora!”

“O jornal foi tomado pela polícia. Chegamos, cada premiado com seus prêmios, eu com minhas duas estatuazinhas tão bonitinhas. Não nos deixaram entrar. Decidiu a maioria que jogássemos as estátuas nos jardins do jornal.”

Conclusão: durante as décadas seguintes o Estado de São Paulo só se referia a Augusto Boal como aboal. Proibia para sempre que seu nome fosse publicado por extenso, no jornal! Vingança sórdida de quem achava que ele era o instigador da devolução/protesto. Não era. Mas permaneceu de castigo, condenado ao gelo como costuma fazer a velha mídia quando empaca com algum desafeto. “Sobreviveu”, como escreve brincando. “Na época”, ele fecha assim o capítulo: “a assinatura aboal’ doeu.” Hoje, o seu nome há muito está restituído.

Mas os Sacis que eram seus sumiram. Às vezes têm-se notícias de que alguma estatueta apareceu à venda em leilão. Vários atores conseguiram recuperar os prêmios. Boal, não. Teve que se exilar menos de um ano depois do sucedido e só voltou ao Brasil  mais de dez anos depois.

Cecília e o Instituto criado com os filhos em homenagem a um dos mais brilhantes homens do teatro brasileiro, conhecido, respeitado, reconhecido e venerado não apenas pelas legiões de fieis amigos brasileiros, mas também pela tribo do Teatro no mundo inteiro – o carioca Augusto Boal, filho de padeiro do bairro da Penha, no Rio de Janeiro -, procuram as suas “estatuazinhas”. Tentam achá-las através de alguma informação ou de alguém por cujas mãos elas tenham passado.

Será mais uma ação de restabelecimento da realidade até aqui escamoteada, dos anos de chumbo. Um episódio que, apesar da graça com que Boal conta a passagem, no seu livro, é mais um descalabro ocorrido naqueles tempos sinistros.

Basta fazer contato com o contact@instboal.org.

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