Augusto Boal e o Teatro do Oprimido: “Vários outros mundos são possíveis”

Boal

Léa Maria Aarão Reis, na Carta Maior

Agora, com a publicação do segundo volume da coleção de trabalhos do célebre teatrólogo Augusto Boal, (1931-2009), criador do Teatro do Oprimido e colaborador frequente de Carta Maior, o Instituto Augusto Boal se volta para a montagem de uma grande exposição sobre seu trabalho, um dos intelectuais brasileiros mais conhecidos internacionalmente, projetada para se iniciar no dia 13 de janeiro de 2015.

Nascido no bairro da Penha, no Rio de Janeiro, Boal escreveu a sua biografia intitulada Hamlet e o Filho do Padeiro – Memórias Imaginadas (Cosac Naif) lançada durante uma manifestação na calçada do prédio onde funcionou o Dops carioca, mês passado, por ocasião da descomemoração dos 50 anos do golpe que instaurou a ditadura civil-militar no país. Antes deste segundo volume da coleção que reúne suas obras, no ano passado foi lançado Teatro do Oprimido e outras poéticas políticas. 
 
Em seguida, outros três títulos virão, anuncia a psicanalista Cecilia Boal, viúva do teatrólogo e presidente do Instituto Augusto Boal. Ela comenta: ”Há o costume de sempre se falar mais do aspecto do Boal como teórico e homem político, o que de fato é muito importante. Mas seu texto é belo, pouco conhecido e valorizado. Espero que os livros estimulem a descoberta da qualidade dele de escritor, alguém que sentia prazer imenso em usar as palavras, que gostava de brincar com elas e substituí-las por outras quando burilava um texto.”  A ação, a militância política através da arte – no caso, o teatro – também era “importantíssima, na vida, na cena e nas intervenções que Boal realizava com as técnicas do Teatro do Oprimido,” observa Cecília.
 
Outra tarefa em que o Instituto está empenhado é a conservação do precioso acervo de Boal que se encontra na Faculdade de Letras da UFRJ. São quatro mil itens, textos, fotos, DVDs, programas e cartazes que ainda não estão catalogados, mas podem ser consultados mediante agendamento prévio com o Prof. Eduardo Coelho, de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
 
“Concordo,” diz Cecília, “com aqueles que dizem que no Brasil não existem ainda políticas públicas preocupadas com a memória nacional.” Ela chama a atenção para a existência de grandes acervos, grandes coleções e com reservas técnicas adequadas e “também instituições que asseguram o cuidado e a guarda de muitos acervos e coleções. Portanto, seria injusto dizer que não existe nada. Mas é insuficiente. Deveríamos ter uma política pública sistemática de preservação que possa acompanhar essa grande produção nacional artística e intelectual.”
 
Conversando com Carta Maior sobre o assunto, comenta que há muitas famílias tentando cuidar desse tipo de patrimônio, que afinal pertence ao país. “Sozinhas e sem muitas condições. É o meu caso. A UFRJ tem tentado ajudar bastante. Mas ainda falta muito. Agora, através da mostra no CCBB, espero poder avançar um pouco mais no tratamento dos documentos. Através deste acervo se pode acompanhar todo um período da história do Brasil e da história de América Latina, da Revolução dos Cravos em Portugal. Um material que acompanha Boal no percurso do seu exílio.”  
 
Na opinião da presidente do Instituto Augusto Boal, para quem é importante que o acervo permaneça no Brasil (“ele gostaria que fosse assim”) apesar de inúmeros convites para ser enviado para instituições no exterior, já deveria estar disponibilizado na internet, para consulta de todos. “Como Boal era um homem de esquerda, marxista, engajado nos movimentos populares – preso, torturado e depois exilado no estrangeiro -, é difícil eu aceitar ajuda da iniciativa privada. Tenho o cuidado de respeitar a sua memória. O Banco do Brasil é o Banco do Brasil, como o seu nome indica. E o Ministério de Cultura é um ministério do Brasil. É justo e desejável que sejam eles a se ocupar deste acervo. É o dever e a missão deles. Do Banco do Brasil, da Funarte, do MINC e do MEC.”
 
Se os títulos dos livros escritos pelo teatrólogo estavam, até aqui, fora de catálogo no Brasil, o mesmo não ocorreu nos Estados Unidos e na Inglaterra, onde estão constantemente disponíveis. “Ele está sendo publicado e republicado regularmente lá fora. Estou assinando novos contratos o tempo todo”, comenta Cecília. 
 
Há dois anos, entrevistada por Emir Sader, em Carta Maior, e já naquela época preocupada com o destino do precioso acervo do marido, ela falava sobre o interesse da New York University, onde Boal sempre trabalhou, de ter a guarda desse acervo, para “higienizá-lo, catalogá-lo e colocar uma cópia integral na internet, ou seja, à disposição de todos, em qualquer lugar do mundo e de forma inteiramente gratuita.” Cecília lembrava que nessa biblioteca há o setor Tamiment Library consagrado a autores da esquerda e à historia do sindicalismo no mundo. “Acho que o Boal estaria em excelente companhia neste espaço e seria muito bem tratado. Porém, também acho que as histórias que se originaram no contexto de uma determinada cultura pertencem a ela e é ali que devem continuar.”
 
Já Julián, o filho de Boal, jovem pesquisador do Teatro do Oprimido, se volta para a permanência das experiências do Teatro do Oprimido nos  tempos atuais de “Facebook, de reality shows, de democracias participativas esvaziadas”, como ele diz. “O que o Teatro do Oprimido tenha talvez a oferecer agora seja menos um palanque para os oprimidos, um lugar aonde eles possam se expressar, e mais uma prática com a qual se vê o mundo como um lugar transformável. Se no tempo das ditaduras havia um sentido de falar em participação popular, hoje isso não se dá do mesmo modo”, considera Julián. 
 
Mas a parceria, por exemplo, entre Teatro do Oprimido e o Movimento dos Sem Terra, que dura mais de dez anos, se mantém viva. Ele lembra: ”Foi uma delegação do MST que fez sua primeira formação junto do meu pai dentro do Centro do TO. Atualmente, mais de 30 grupos de TO se encontram dentro do movimento e os exercícios são regularmente utilizados nos encontros.” 
 
Julián fala também de uma cena do Teatro do Oprimido que mostra o confronto entre opressor e oprimido e onde o desfecho se mantém em aberto. “Em tempos de colapsos ecológicos programados é, talvez, um bom exercício tentar enxergar que, como dizia meu pai, ‘vários outros mundos são possíveis”. 
 
Com novas formas, o TO continua com os fundamentos criados por Boal e inspirado nas ideias de Bertolt Brecht – arte – e de Paulo Freire – educação. Alia teatro e ação social, prepara o ator com esse viés e busca permanentemente a transformação da realidade através do diálogo.

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