Fotógrafos populares revelam um outro Rio de Janeiro

Seu João Bolinha, vendedor ambulante que encanta as crianças com suas bolinhas de sabão (Nova Holanda, Maré, 2008 - foto de Af Rodrigues/Imagens do Povo)

Seu João Bolinha, vendedor ambulante que encanta as crianças com suas bolinhas de sabão (Nova Holanda, Maré, 2008 – foto de Af Rodrigues/Imagens do Povo)

Reportagem de Renata Silver, publicada na Revista do Brasil, conta a história do projeto Imagens do Povo, iniciado em 2004 pelo fotógrafo João Roberto Ripper no complexo de favelas da Maré, no Rio de Janeiro.

O programa, que completa 10 anos em maio, já formou gratuitamente 200 fotógrafos – principalmente jovens moradores da periferia. Ao colocar as câmeras nas mãos dos alunos e estimular que fotografem sua própria vizinhança, o projeto Imagens do Povo traça um caminho que se liga aos princípios da atuação do teatrólogo Augusto Boal.

Confira a matéria completa a seguir.

O Complexo de Favelas da Maré é famoso por sua extensão, seus problemas e, principalmente, pela violência. A comunidade, encravada entre a poluída Baía de Guanabara e a Avenida Brasil, lembra tudo, menos beleza. Mas um projeto pioneiro de fotografia mostra que nem só de praias e montanhas famosas é feita a paisagem do Rio de Janeiro. O projeto Imagens do Povo começou em maio de 2004 com o fotógrafo João Roberto Ripper, conhecido pela extensa documentação do trabalho escravo e autor de alguns dos mais importantes registros dos excluídos do país. Prestes a completar dez anos, a agência-escola é a única a oferecer ensino, prestação de serviços fotográficos e acervo para comercialização. O programa conta ainda com um espaço para expor os trabalhos dos fotógrafos da casa, a Galeria 535. Atualmente está em cartaz a mostra Folia de Imagens, com registros do carnaval de várias cidades brasileiras feitos por 22 profissionais.

O curso, que já formou mais de 200 fotógrafos, é gratuito e muito disputado. O interessado não precisa morar na Maré, há até alunos da classe média, moradores do “asfalto”. Mas o projeto é de interesse social, e ser morador da periferia é critério de desempate.

Alunos e funcionários ressaltam que o trabalho se baseia no respeito e na promoção dos direitos humanos. As imagens denunciam o sofrimento, mas também reverenciam o povo e suas festas, costumes, sacrifícios, alegrias. Além da técnica, os fotógrafos aprimoram a sensibilidade, adquirem paixão pelo ofício e capacidade de enxergar além de rostos e paisagens. “Fotografo pensando no retorno que o trabalho poderá ter para as pessoas que fotografei. Não importa o que os críticos de arte falam das imagens. Se o fotografado se vê representado, se ele se reconhece, considero um ganho”, relata Ratão Diniz, nascido e criado na Maré, aluno da primeira turma e um dos expoentes da agência-escola.

Maria da Silva no Morro do Cavalão (Niterói, 2007 - foto de Fábio Caffé/Imagens do Povo)

Maria da Silva no Morro do Cavalão (Niterói, 2007 – foto de Fábio Caffé/Imagens do Povo)

Alexandre Silva, coordenador de comunicação do projeto e curador da Galeria 535, não é fotógrafo, começou como estagiário e hoje se identifica profundamente com o trabalho. “Sou da Baixada Fluminense e o que vejo aqui são lutas que sempre vivenciei, embora não tivesse consciência de que também era um ator nesse processo. Compreendi a importância do trabalho que se faz aqui e fico muito satisfeito por fazer parte disso”, explica.

O Rio de Janeiro dos cartões-postais é o da área nobre da cidade, com suas praias e monumentos. As periferias aparecem como regiões tristes, feias, violentas e cheias de mazelas. Aos olhos dos moradores de áreas nobres, os habitantes da favela exprimem desesperança, medo e desejo de deixar o local. “Há pouco material fotográfico que mostre além da zona sul, talvez porque essa região concentre os cursos e os fotógrafos. Isso distorce a representação da cidade”, avalia Erika Tambke, gerente de atendimento e relações comerciais da agência.

O Imagens do Povo coloca as câmeras nas mãos dos alunos e os instiga a buscar material em sua vizinhança. Os aprendizes descobrem que há valor nos saberes e espaços de suas comunidades. “Da primeira vez que disse a uma turma que sairíamos para fotografar, os alunos pensaram que iríamos à praia, ao Pão de Açúcar. Nem passava pela cabeça deles que poderia haver coisas interessantes para fotografar aqui mesmo, na Maré”, relata Rovena Rosa, uma ex-aluna que se tornou professora e coordenadora do programa.

Histórico

O Imagens do Povo surgiu de maneira despretensiosa. Convidado pelo Observatório de Favelas, João Ripper foi à Maré para produzir imagens da comunidade. O interesse dos moradores, principalmente os mais jovens, pelo trabalho daquele homem de fala mansa, com uma câmera na mão, provocou a montagem de uma oficina de fotografia.

Em seguida, Ripper organizou um curso de quatro meses, com aulas diárias, num total de 320 horas/aula, para ensinar segredos da fotografia aos adolescentes e jovens da comunidade. Iniciada em maio de 2004, a primeira turma formou 22 fotógrafos populares, sob a coordenação de Ripper e do colega Ricardo Funari.

O curso como existe hoje foi montado em 2006. A carga horária passou para 540 horas, e Ripper convidou para a coordenação acadêmica da escola Dante Gastaldoni, professor de Fotojornalismo na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e na Universidade Federal Fluminense (UFF). “Naquele ano eu estava completando 30 anos de magistério e o curso foi um presente. Fiquei encantado com a receptividade”, recorda Dante.

O nível das aulas da escola não é inferior ao de outros profissionalizantes disponíveis no mercado do Rio de Janeiro, nem ao das faculdades de Jornalismo. A carga horária é extensa. Além das aulas expositivas, a cargo de Dante, Ripper e mais três professores, há palestras regulares com profissionais renomados. Mas não há cerceamento à espontaneidade. “Aqui há uma desorganização criativa, uma liberdade, que não se encaixa nos cânones do sistema de créditos. O projeto tem pulsação própria, a sensação de pertencimento que há aqui não existe na universidade”, compara Dante.

A qualidade do curso passou a ser reconhecida. O certificado foi emitido pela UFF, por meio de um convênio, de 2007 a 2009. Hoje, é pela UFRJ. “Mesmo com essa desorganização criativa, temos critérios firmes. Ao final do curso, cada aluno apresenta um projeto e é avaliado por uma banca. Se o processo avaliativo não fosse sério, não teria a chancela de universidades federais”, destaca o coordenador acadêmico. Segundo ele, a banca é rigorosa. Avalia se o aluno foi bem no curso, se participou intensamente das atividades, se tem competência técnica para se tornar fotógrafo da agência e se produziu fotos com qualidade para integrar o acervo do banco de imagens. A preocupação com a qualidade técnica e teórica estimula os alunos a buscar formação superior.

Dedicação

O que mais emociona Dante e Ripper é a postura dos alunos. “Eles fazem da fotografia sua vida. Cada fotógrafo leva anos fotografando o mesmo tema, cada um escolhe aquilo que o interessa”, explica Dante. O maior exemplo disso é a obra de Ratão Diniz. O grafite foi assunto de seu projeto de final de curso e ainda rende muitas fotografias. Seu tema mais recente – o Bloco da Lama, tradição do carnaval de Paraty – já é documentado há cinco anos. “O que me move é contar as histórias das pessoas, me interesso pelos temas da realidade. Quero vivenciá-los e me manter sempre em movimento”, define. Com seu primeiro livro individual previsto para este ano, ele não se considera pronto e sempre busca a companhia e a troca de ideias com os colegas.

A fotógrafa Valda Nogueira também demonstra esse companheirismo. Formada em julho de 2013, Valda fotografa profissionalmente, expõe, adquiriu equipamento próprio e produz uma obra autoral elogiada. Seu olhar afiado percebeu, por exemplo, que há uma diferença entre os olhares feminino e masculino. “A mulher tende a abordar outras leituras dentro do mesmo tema. As fotógrafas que conheço costumam enxergar e registrar melhor as questões de gênero. A maioria se envolve com este assunto porque ele está presente em suas vidas, a fotografia é uma forma de expressar a necessidade de discuti-lo”, acredita.

Valda deixou a faculdade de Biologia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) quando entrou para a Escola de Fotógrafos Populares. Formada, voltou para a universidade, onde acaba de iniciar o curso de Artes Visuais. “Virei fotógrafa para sempre. Mas também posso buscar outras expressões, cinema, talvez, e outras referências das artes visuais”, diz. Ratão, que começou a fotografar os grafiteiros por conta da frustração de não desenhar bem, também se sente à vontade com a multiplicidade de expressões artísticas. “Não só as artes visuais, mas também a música, a poesia, outras formas de arte complementam a linguagem da fotografia”, defende.

Legado

A relação entre os professores, gestores, alunos e ex-alunos do projeto é marcada pela afetividade e o companheirismo. “Aqui temos um sentido de coletivo. Claro que há tensões, mas há muita fraternidade. Mesmo depois de formados, os alunos se encontram aqui, saem juntos para fotografar, estão sempre em contato, discutindo fotografia”, relata Dante, orgulhoso dos pupilos.

A competição dá lugar à colaboração, seguindo o exemplo do desprendimento de Ripper. O fundador do projeto é frequentemente alertado por alguns de seus colegas, contrários à formação de fotógrafos populares, de que está criando a própria concorrência. Mas o relato de Ratão Diniz mostra que o modo de pensar do mestre é o oposto. “Da primeira vez que me candidatei a um edital, pedi ajuda a ele para preencher o formulário. Ele me ajudou com a maior generosidade. Depois, eu soube que ele estava sem dinheiro e fiquei constrangido, disse que ele deveria pegar o trabalho no meu lugar. Dias depois nos encontramos aqui na escola, ele segurou minha mão com as duas mãos dele, me olhou e disse: ‘Esse edital é seu. Não se preocupe comigo. Meu maior pagamento é ver que o fotógrafo que eu formei está trabalhando’. É assim que ele pensa.”

Alunos formados na escola passaram a ser convidados a ministrar oficinas. Daí surgiu o curso de Formação de Educadores em Fotografia, que se tornou mais uma ferramenta de multiplicação. E além da profissão, ex-alunos aprenderam a estimular a popularização da fotografia. Ratão Diniz é um dos que valorizam este caráter de formação de consciências.

“Tem a ver com democracia, com o direito à comunicação, a mudança do olhar. Por isso, não gosto de dar aulas se perceber que o trabalho não vai ter continuidade. Tenho planos de fazer uma viagem pelo interior do Nordeste fotografando, mas também ensinando a fotografar. E planejo deixar a câmera quando for embora de cada cidade”, avisa.

O pano de fundo para o desenvolvimento artístico e profissional desses cidadãos é o Complexo de Favelas da Maré. E o mais belo retrato tirado desse cenário não é a glamourização da pobreza e ou da estética das desigualdades. Mas a transformação de cidadãos em protagonistas, ponto de partida para se revelar uma nova realidade.

Veja mais fotos no site da Revista do Brasil.

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