Hamlet e o Filho do Padeiro no Movimento Ocupa DOPS

No próximo sábado (26/04), será apresentada no Rio de Janeiro a autobiografia de Augusto Boal, Hamlet e o Filho do Padeiro – Memórias Imaginadas. Numa Ciro fará a leitura do capítulo Casar era Indispensável (abaixo), em que Boal narra a história do casamento de seus pais.

Será às 16h, na porta do DOPS, como atividade do Movimento Ocupa DOPS.

CASAR ERA INDISPENSÁVEL

Albertina caçula tinha 24 anos e muitos mais pretendentes. Bonita – não digo por filho, há testemunhas: era bela! De Justes e até de Vila Real chegavam pedidos de casamento, mas as responsabilidades da moça eram maiores do que o desejo de se casar. Dizia-se que já estava passando da idade. Que pena: ela, que não era corcunda nem feia, prendada, boa saúde, sabia ler e escrever e nunca errava nas contas, trabalhadora, logo ela corria o risco de ficar pra tia.Minha mãe conversou com parentes, pensou, viu que não havia remédio e decidiu-se a casar. Havia em vão esperado o Príncipe Encantado. Albertina estava só, esperando alguém sem saber a quem.

Não se entusiasmava por nenhum pretendente, ipso facto, escolheu o mais apaixonado, João Marcelino, trabalhador, aceito até pelo Tefé, e com a virtude de ser calado. Encontravam-se, uma tia de permeio – indispensável testemunha.

Marcaram a data do casório: 10 de setembro. Foram ao padre e confirmaram, dia 10. Ajustaram o preço da cerimônia e das flores, da música e das rezas. Em Justes só se falava no casamento da minha mãe.

Dia 1o. de setembro de 1925, Justes acordou alvoroçada: havia chegado um “brasileiro” – eram assim chamados os que voltavam do Brasil, depois de encaminhados na vida. O brasileiro, chapéu-coco e bengala, bigodinho, chamava-se José Augusto. Primeiro de setembro, nove dias antes do 10.

Todos queriam ver o brasileiro que conversava animado, contava novidades, olhando para a porta do armazém: a moça Albertina, agora noiva, também o espiava. O brasileiro sorria sorriso largo que ostentava orgulhoso o primeiro dente de ouro que jamais havia sido visto em Justes! Dente de ouro brasileiro! Autêntico. Vendo aquele dente, aquele brilho, luz solar, os camponeses locais sonhavam com Eldorado, Peru, Shangri-lá!

Entardecia e, antes que minha mãe fechasse as portas, meu pai sentiu súbita vontade de um copo de vinho. Onde? No armazém, claro. Entrou e pediu tinto, tomou uns goles para atiçar a coragem e lapidar o verbo:

“Albertina, tu te lembras quando me perguntaste se eu também seria mau como o outro?”

“Que outro?”

“O que trazia lenha. Era brutamontes, dizia palavrões. Teu pai o despediu e me pediu que ficasse no lugar dele. Tu perguntaste: ‘Esse não será tão mau como o outro?’ Lembras?”

“Não perguntei a ti, foi ao meu pai.”

“Não sou tão mau.” Silêncio. “Agora… voltei.”

“Para quê?”

“Pra me casar contigo!”

Albertina pensou no dia 10. Fez-se – isto não é figura de retórica: é tempo cronometrado, rigoroso -, fez-se pauta de, digamos, sem exageros, horas. Em resumo: longa. Quebrada por Albertina, sincera: “Vai ser difícil…”.

“Casar é fácil: vai-se ao padre e paga-se o que for preciso; em Vila Real, vai-se ao cartório e pagam-se os selos e já estamos casados! Depois, vai-se à companhia de navegação e compram-se os bilhetes, pagam-se e já estamos a caminho do Brasil…”

“É fácil e difícil… porque… eu estou noiva.”

“Homessa. Com essa eu não contava!”, disse, triste, meu futuro pai. “Então… tu não esperaste por mim?”

“Doze anos… Esperei o que pude…”

“Eu voltei… pra te buscar… prometi e cumpri… Sou homem de palavra!”

“O casamento está marcado para o dia 10…”

“Temos nove dias…”

Renasceu a esperança. Meu pai aduziu e seduziu:

“Quando estava no Brasil sonhei que voltava a Portugal pra me casar contigo… Sonhei até onde vamos morar, uma casa na rua Bela de São Cristóvão… Sonhei muitas vezes o mesmo sonho… E a cada sonho a casa ficava maior, mais bonita, pintada, colorida… A cada sonho crescia o quintal e o quarto dos meninos e o das meninas… Já aluguei a casa… Mas, se estás noiva, é difícil…”

“Mas não é impossível…”, falou realista Albertina, que, nesse instante, decidiu minha vida e meu futuro. “Tu tens que me dar algum tempo…”

“Quanto?”

“Amanhã a esta hora, vens cá me ver e eu digo-te o que fiz…”

Antes de se despedirem, minha mãe perguntou: “É verdade que tens um dente de ouro?”.

“Tenho, tenho.”

“Deixas-me vê-lo?”

Meu pai sorriu: o dente de ouro brasileiro brilhou ao sol lusitano. Estava selado o compromisso. Despediram-se. Ele quis dar-lhe um beijinho, ela não aceitou: noiva, mulher fiel.

No dia seguinte, ao acordar, depois de ter sonhado com José Augusto desde o anoitecer à madrugada, minha mãe foi ver o João Marcelino e explicou, antes dos bons-dias e dos como vais?, que tinha mudado de ideia, que não se podia fazer o casamento, ficava o dito por não dito. Que a soubesse compreender e a desculpasse, noivas não faltam, bonitas e trabalhadeiras, logo encontraria outra mais adequada e condizente. Muitas boas tardes. Adeus. Nunca mais. E “tira-me da tua cabeça!”. Minha mãe não queria deixar com o noivo sequer lembrança, saudades.

O aturdido Marcelino não teve tempo de abrir a boca ou arregalar os olhos. Não foi convencido nem pôde convencer. Ainda bem: por um triz, eu escapei de não nascer!

Desnoivada, Albertina foi à igreja, sem saber se tinha sido desculpada. O padre meio dormindo, Albertina apressada não aceitava delongas, precisava abrir as portas do armazém, chamou Eufrosina, a mulher do padre – perdão! -, a mulher que cuidava do padre, senhora respeitável, bem entendido, como em geral todas as mulheres de todos os padres! – perdão, que cuidam dos padres. Albertinha deu-lhe dinheiro para o acordar antes do café na cama. Eufrosina chamou, o padre veio esfregando os olhos, em ceroulas e um crucifixo embaixo do camisolão. Albertina informou que havia duas mudanças urgentes a fazer nos planos matrimoniais. Primeiro, a data, muito próxima. Tinha que ser um mês mais tarde, 10 de outubro.

“Compreendo… Os preparativos de um sólido casamento cristão levam tempo, os noivos precisam se conhecer melhor, pois tomam decisão para a vida toda, comprometem os filhos, a Santa Madre Igreja, compreendo… E a segunda mudança, vamos lá ver?”

“É o nome do noivo: ele passa a se chamar José Augusto Boal…”

“Não compreendo!!!”, disse o padre, boquiabrindo-se, pensando que sonhava. “Ele não se chamava… como era? João alguma coisa… Ou Manuel, Joaquim…”

“O que importa é como se chama agora! Meu noivo chama-se José Augusto Boal.”

Quando tinha que tomar decisões, minha mãe não perdia tempo nem economizava energias: parabéns, mãe!

Findo o dia, lá veio José Augusto, olhando tímido, justificando a expressão “de soslaio”. Ela não fez suspense, não vacilou: “Está tudo arranjado. Nosso casamento vai ser dia 10 de outubro. As passagens para o Brasil, quando é que as vais comprar?”.

“Amanhã de manhã, vou a Vila Real: é lá que as vendem.”

“Compra três: a Linda vem conosco porque não a posso deixar sozinha. O pai, não se sabe onde anda e a mãe está no Brasil…”

José Augusto viu Albertina determinada: comprou cabina de casal e outra ao lado, menor. Antes do casamento, minha mãe se desfez das mercadorias do armazém, e, depois, da Angelina, quando a rapariga começou a lançar olhares ao meu pai. Mamãe não perdeu tempo: despediu a moça. Outra vez, escapei por um pequeno triz!

Casaram-se em família, presentes amigos mais chegados. Dia 10 de outubro, 1925. Nenhum dos dois jamais tinha ouvido falar em Stanislavski, mas a emoção foi enorme.

Quando o navio zarpou, em Lisboa, no Tejo, findo o casamento, José Augusto, vendo nos olhos da esposa o brilho, prometeu: “Daqui a alguns anos, voltamos, para visitar os parentes e a terra”.

Meu pai morreu no exato dia em que fez 71 anos, 7 de junho de 1963, sem nunca ter voltado a Portugal. Shakespeare, como meu pai, nasceu e morreu no mesmo dia: 23 de abril. E não tenho nada com isso: nasci no dia 16 de março de 1931 e espero não morrer nunca: Deus dirá!

Depois de sua morte, minha mãe foi a Portugal uma só vez. Encontrou poucos personagens dessa história. Ela tinha ido me visitar em Lisboa, onde eu estava exilado. No Bairro Alto, estávamos olhando o castelo de São Jorge, em frente. Ela disse: “Foi aqui que eu vim com o teu pai, antes de viajar pro Brasil. Ele queria voltar pra terra… Mas não voltou, só eu: não tem importância, ele está aqui comigo. Se eu estou aqui, ele também está…”.

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