Derly Marques, fotógrafo do Teatro de Arena

Imagem                                          Clayton Lima/Cia. Antropofágica

Por Eduardo Campos Lima

Além de ter ocasionado o encontro de grupos teatrais, músicos e poetas, a II Feira Paulista de Opinião ou I Feira Antropofágica de Opinião, organizada pela Cia. Antropofágica nos dias 15 e 16 de fevereiro, contou com a participação de alguns dos integrantes da I Feira, realizada em 1968 pelo Teatro de Arena e dirigida por Augusto Boal. Um deles foi Derly Marques, fotógrafo do Arena nos anos 1960.

Em 1965, alguém chamou Derly para fazer fotos de Arena Conta Zumbi. Naquele momento, ele era um estudante do segundo ano do curso de cenografia da Escola de Arte Dramática de São Paulo – então coordenado pelo arquiteto e cenógrafo Flávio Império – e diagramador na Editora Abril. Derly, que havia fotografado por oito anos, em Belo Horizonte, o trabalho do Teatro Universitário da Universidade Federal de Minas Gerais e do Teatro Experimental (ambas iniciativas criadas nos anos 1950), não lembra mais quem fez o convite – só sabe que, após fazer oito fotos da peça de Gianfrancesco Guarnieri e Boal, não parou mais.

“Eu só tinha uma Rolleiflex – depois, quando chegou a 35 mm, tinha mais capacidade de foto. Mas aquelas imagens do Zumbi, de certa forma, marcaram bem a peça, pela gesticulação, movimentação e conteúdo”, recorda.

Dali em diante, Derly fotografou todas as peças montadas pelo Teatro de Arena. “Os jornais não costumavam mandar fotógrafos, então cada companhia fazia as fotos que interessavam e distribuía para a imprensa”, conta.

Registrou também as produções do Teatro Oficina (calcula haver pelo menos 1.000 fotos do coletivo) e de grupos de teatro universitário. Fotografou a peça Morte e Vida Severina, encenada pelo Teatro da Universidade Católica (Tuca), sob direção de Silnei Siqueira, e O Coronel de Macambira, de Joaquim Cardoso, encenada pelo Teatro Universitário Carioca (também conhecido como Tuca), sob direção de Amir Haddad e com canções de Sérgio Ricardo.

“Além disso, fiz fotos dos trabalhos de Plínio Marcos – como a leitura de Navalha na Carne, realizada no teatrinho do apartamento da Cacilda Becker, na avenida Paulista”. A foto da cena final de Quando as Máquinas Param, em que Zé golpeia a barriga da esposa grávida, Nina, ganha ar de flagrante policial através da lente de Derly. “Uma das coisas que eu fazia era dar a impressão de que aquilo era uma reportagem”, descreve.

Capturar com precisão a dinâmica em cena era possível, do ponto de vista técnico, porque ele utilizava um revelador de grão ultrafino. “Fotografava com abertura f/8 e velocidade 1/60 s, então conseguia nitidez na cena toda, do primeiro até o último plano – o que tem ajudado muito na identificação dos atores e atrizes nas imagens”.

O registro do movimento e a nitidez dos detalhes tornaram notável a foto que Derly fez da I Feira Paulista de Opinião. Documento histórico fundamental, a imagem foi tomada de uma assembleia de atores, diretores e músicos organizada em associação à montagem de Boal, no Teatro Ruth Escobar – e materializa visualmente a frente artística e política contra a ditadura que foi impulsionada pela Feira.

Derly soube que a categoria teatral estava reunida em peso no teatro e foi para lá. “Depois de muito debate, alguém convidou o pessoal para ir para o palco, onde as falas continuaram. O Sandro Polônio, naquela hora, levantou o braço e disse: ‘a partir de hoje, nós não aceitamos mais a censura!’ Bem naquele momento, fiz três fotos. A melhor delas é a que ficou conhecida”, narra o fotógrafo.

A foto da assembleia apresenta a última articulação significativa dos artistas a se realizar contra o Regime Militar na década de 1960. Ainda em 1968, a ditadura endureceria de forma violenta com o decreto do Ato Institucional no 5 e, com a repressão redobrada que se instalou no país a partir daí, inviabilizou-se a manutenção de trabalhos artísticos de resistência. Boal e tantos outros artistas foram forçados ao exílio.

Derly Marques ingressou como fotógrafo na Folha de S. Paulo em 1969 e lá continuou, por alguns anos, a fotografar peças teatrais. Mas sua trajetória na documentação do teatro paulistano chegaria ao fim em 1972 – mesmo ano em que o Teatro de Arena se dissolveu.

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*Foto de Derly Marques, retirada do acervo online do Centro Cultural São Paulo*

http://www.centrocultural.sp.gov.br/idart30anos/gabinete/teatro/teatro14.htm

Um comentário sobre “Derly Marques, fotógrafo do Teatro de Arena

  1. Olá, meu pai Carlos Eduardo Bosisio foi um dos fundadores do grupo TUCA do Rio. Meu pai já faleceu e tinha um enorme carinho com a história do Teatro Universitário Carioca. Especialmente a montagem do Coronel de Macambira. Vocês poderiam me ajudar a ter acesso ao registro fotográfico desta peça feita pelo Derly Marques ? Obrigado

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