Coletivos artísticos reeditam Feira Paulista de Opinião

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Vinte grupos teatrais, além de músicos, cartunistas e coletivos audiovisuais, se reúnem com veteranos da resistência à ditadura militar para pensar sobre o Brasil de hoje

Por Eduardo Campos Lima

A Companhia Antropofágica realiza, nos dias 15 e 16 de fevereiro, a II Feira Paulista de Opinião ou I Feira Antropofágica de Opinião, no Tendal da Lapa, em São Paulo. Vinte grupos premiados do teatro paulista se reunirão com músicos, coletivos audiovisuais e cartunistas para responderem todos, com suas obras, a mesma questão: o que pensa você do Brasil hoje?

O evento será uma reedição, preparada mais de 40 anos depois, da Primeira Feira Paulista de Opinião, organizada em 1968 pelo Teatro de Arena de São Paulo e dirigida pelo teatrólogo Augusto Boal. A Primeira Feira foi um marco na resistência à ditadura militar, congregando alguns dos principais dramaturgos, compositores e artistas plásticos do período em uma mesma frente política. Veteranos do evento, como Cecília Thumim Boal, Sérgio Ricardo, Umberto Magnani e Mário Masetti, integrarão a nova edição.

“As intervenções artísticas partirão de questionamentos políticos e estéticos imbricados na I Feira, mas em diálogo com aspectos contemporâneos. A ideia é proporcionar uma tensão que pode revelar contradições e apontar os novos caminhos que devem ser enfrentados no campo da política e da estética”, apresenta Thiago Vasconcelos, diretor da Antropofágica.

Da mesma forma que a Primeira Feira propôs uma reflexão sobre a arte de esquerda, ocasionando a discussão dos diferentes projetos estéticos e políticos então existentes e a necessidade de unificação na luta contra a ditadura, a Feira Antropofágica busca compreender a quantas anda a arte engajada dos dias atuais. “É necessário refletirmos sobre os caminhos e impasses da arte de esquerda que se produz hoje, no atual cenário brasileiro”, aponta Vasconcelos.

Primeira Feira – Em 1967, com a percepção de que o teatro ficava cada vez mais isolado após o golpe militar, o dramaturgo Lauro César Muniz teve a ideia de fazer uma encenação, com contribuições de diferentes dramaturgos, sobre a conjuntura política. “Propus a José Celso Martinez Corrêa [diretor do Teatro Oficina] fazer uma montagem chamada Os sete pecados capitalistas. Ele topou e fizemos uma reunião com os dramaturgos que estavam em mais evidência na época”, narra.

Os dois reuniram-se, no fim do ano, com Plínio Marcos, Bráulio Pedroso, Jorge Andrade, Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal – que imediatamente compreendeu o acerto político da proposta, comprometendo-se a assumir a tarefa com o Teatro de Arena de São Paulo. “Era um desafio à censura reunir os principais autores paulistas e Boal captou a força da ideia”, lembra Muniz.

O projeto inicial foi superado, dando lugar a uma articulação de amplitude maior. Do encontro, saiu o plano de integrar também compositores – Caetano Veloso, Gilberto Gil, Sérgio Ricardo, Ary Toledo e Edu Lobo – e artistas plásticos, como Nelson Leirner. “A coisa tomou volume em pouco tempo e aí Boal definiu: “Isso é uma feira’”. Em dezembro de 1967, os dramaturgos começaram a entregar a Boal as pequenas peças rapidamente criadas, definindo-se a base da encenação.

Lauro César Muniz escreveu uma peça chamada O Líder, sobre o caso verídico de um pescador de Ubatuba que, por ser a única pessoa alfabetizada de sua região, havia sido encarregado de liderar uma associação de trabalhadores, no período anterior ao golpe – depois do qual acabou preso por “subversão”; Bráulio Pedroso fez O Senhor Doutor, que exibia um burguês em degradação, produzindo pus a cena inteira; Plínio Marcos escreveu Verde que te Quero Verde, em que dois gorilas censuram uma peça; Jorge Andrade redigiu A Receita, sobre a falta de acesso à saúde no campo; Gianfrancesco Guarnieri produziu Animália, um panorama político do momento, com crítica ao poder dos meios de comunicação de massa; e Augusto Boal, que fechava a montagem, escreveu A Lua Muito Pequena e A Caminhada Perigosa, a partir de trechos do diário boliviano de Che Guevara. Os músicos enviaram suas canções e as peças foram ensaiadas durante algum tempo, sendo a estreia agendada para o fim do primeiro semestre de 1968, no teatro Ruth Escobar.

No elenco, estavam os atores Antônio Fagundes, Aracy Balabanian, Martha Overbeck, Cecília Thumim Boal, Edson Soler, Ana Mauri, Luiz Carlos Arutin, Myriam Muniz, Paco Sanchez, Renato Consorte, Rolando Boldrin, Zanoni Ferrite, Luiz Serra e Umberto Magnani.

Resistência – Apesar de congregar alguns dos maiores artistas em atividade na década de 1960, a Primeira Feira Paulista de Opinião não conseguiu evitar a censura. Das 80 páginas do texto enviado aos censores, foram liberadas apenas 15. “Não fazia sentido encená-lo com cortes. Decidimos fazer o texto na íntegra, apesar da censura”, explica Muniz.

Conforme lembra Augusto Boal em sua autobiografia, o veto ao texto provocou o “movimento artístico de solidariedade mais belo que já existiu”. “Artistas de São Paulo decretaram greve geral nos teatros da cidade e foram se juntar a nós. (…) Cacilda Becker, no palco, com a artística multidão atrás, em nome da dignidade dos artistas brasileiros, assumiu a responsabilidade pela Desobediência Civil que estávamos proclamando. A Feira seria representada sem alvará, desrespeitando a Censura, que não seria mais reconhecida por nenhum artista daquele dia em diante. A classe teatral aboliu a Censura!!!”, conta o teatrólogo.

A polícia, é claro, não permitiu a estreia e o elenco foi ao teatro Maria Della Costa, onde a atriz Fernanda Montenegro interrompeu sua peça para que fosse apresentado um trecho da Feira e lido um manifesto. O mesmo foi feito no Teatro de Alumínio, em Santo André, onde atuava o Grupo Teatro da Cidade, dirigido por Heleny Guariba. O cerco da repressão e de grupos de direita aumentava ao redor dos artistas – que estavam praticando algo definido por Boal como “guerrilha teatral”. “Arrumamos um advogado que conhecia um juiz simpático ao projeto. Conseguimos uma liminar que liberou totalmente o texto”, conta Muniz. O juiz, algum tempo depois, teve de partir para o exílio, pois integrava uma organização de resistência.

A Primeira Feira Paulista de Opinião enfim pôde estrear na sala Gil Vicente – ao mesmo tempo em que, na sala de cima, no mesmo teatro Ruth Escobar, era apresentada Roda Viva, de Chico Buarque. As ameaças de grupos da direita, como o Comando de Caça aos Comunistas (CCC), começavam a se concretizar. “O Zé Lica, que fazia a iluminação, foi pego na porta do teatro. Bateram nele e o devolveram somente depois de três dias”, recorda Umberto Magnani.

Com a ajuda de estudantes – que na época lotavam o Teatro de Arena, acompanhando de perto a luta dos artistas engajados – foi elaborado um esquema de segurança. “Havia estudantes na plateia, que, a qualquer sinal dos dois que ficavam de pé, de costas para o palco, já sabiam como reagir”, detalha Muniz. Ainda assim, não foi possível evitar ataques. “Colocavam ampolas de gás lacrimogêneo nos corredores, para que os espectadores pisassem, ao sair do teatro”, relata Magnani.

Infiltrados no público regular, os milicianos de direita lograram um forte ataque ao elenco de Roda Viva. “Eu coordenava a equipe de segurança. No dia em que eu folguei, eles invadiram”, lembra o ator do Arena Sylvio Zilber.

A Feira ficou em cartaz por alguns meses, passando por cidades do interior de São Paulo, como Piracicaba, e se encerrando com uma temporada no Rio de Janeiro – onde uma granada desativada foi lançada no palco. Arte e política caminhavam lado a lado, poucos meses antes do AI-5. “Depois dos espetáculos, havia debates inflamados até de madrugada”, lembra Rolando Boldrin.

Política – Pouco após a Primeira Feira, houve a tentativa, capitaneada por Ruth Escobar, de organizar uma versão brasileira. Alguns autores da Feira Paulista escreveram textos novamente – como Lauro César Muniz, que fez uma comédia sobre a figura do senador biônico –, mas o evento não chegou a acontecer. Em Nova York, Boal conseguiu realizar uma Feira Latinoamericana de Opinião, que teve apenas algumas apresentações. “Hélio Oiticica era um jovem artista e morava lá, na época, sendo o responsável pela cenografia da Feira”, recorda Cecília Boal.

Em texto intitulado O Que Pensa Você da Arte de Esquerda?, Augusto Boal mapeou as principais tendências dos diferentes setores da esquerda cultural no fim da década de 1960. Havia diferenças importantes entre as perspectivas do Arena e do Oficina, por exemplo. Mas as divergências, naquele momento, não podiam ser mais importantes que a articulação política contra a ditadura. “Boal podia até não achar todas as peças boas – sei que ele não gostava de algumas –, mas era estrategicamente fundamental contar com todos os autores. Ele era um guerrilheiro naquele momento”, analisa Lauro César Muniz.

Essa é a história que pretendem contar a Cia. Antropofágica e os outros coletivos participantes, alguns deles veteranos do teatro militante em São Paulo, como o Teatro União e Olho Vivo e o Engenho Teatral. Ao mesmo tempo, partem do aprendizado sobre os artistas militantes dos anos 1960 para, uma vez mais, pensarem sobre o Brasil e os caminhos para a transformação social – caminhos que a arte pode continuar ajudando a mostrar.

A programação completa pode ser acessada no site http://www.antropofagica.com.

Serviço
II Feira Paulista de Opinião ou I Feira Antropofágica de Opinião
15/02 | Sábado | 14h às 22h
16/02 | Domingo | 14h às 22h
Gratuito | Livre
Espaço Cultural Tendal da Lapa
Acesso pela Rua Constança, 72 – Lapa (Travessa da Rua Guaicurus)
Tel. 11 38710373

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