Entrevista concedida por Boal ao Jornal Folha de São Paulo, em setembro de 1998


Do Rio a Calcutá

NELSON DE SÁ 
da Reportagem Local

SÉRGIO DE CARVALHO 
especial para a Folha

O autor, diretor e teórico Augusto Boal, 67, é o homem de teatro brasileiro mais conhecido no mundo. Há 27 anos saiu exilado do país e escreveu na sequência o livro que garantiu sua celebridade.
Em seu apartamento no Arpoador, no Rio, existem traduções de “Teatro do Oprimido” (74) feitas para idiomas como o japonês e o grego, que estimularam a formação de duas dezenas de Centros do Teatro do Oprimido (CTOs) em todos os continentes.
Entre as técnicas difundidas pelo livro estão o teatro invisível, em que o espectador participa de uma encenação sem saber, e o teatro-foro, em que o espectador é chamado a entrar em cena.
Convidado regularmente por festivais de Teatro do Oprimido em países como o Canadá e a Suécia ou pelo CTO de Paris, onde tem um teatro, Boal ainda hoje passa parte do ano fora do Brasil. Antes identificado com o nacionalismo e a confiança na transformação coletiva pela arte, época de seu trabalho no Teatro de Arena, hoje ele prefere dizer-se carioca a brasileiro e direciona sua ação teatral para a transformação individual, num sentido até terapêutico -como descreve no livro “O Arco-Íris do Desejo”, lançado em 96 no Brasil. Em entrevista, o diretor relembra sua formação em Nova York nos anos 50, o contato com as idéias de Stanislavski, filtradas pelo Actors Studio, e com os ensinamentos dramatúrgicos do crítico John Gassner, que se refletiram em toda uma geração do teatro brasileiro.
O diretor reage, algo incomodado, à sua vinculação ao pensamento de Bertolt Brecht, pois considera o Teatro do Oprimido um passo além. Fala ainda, na entrevista, de como elementos do gênero popular do teatro de revista influenciaram suas montagens históricas de musicais, como “Arena Conta Zumbi”.
Boal está lançando, pela Civilização Brasileira, uma versão ampliada de um de seus livros mais vendidos no país, “Jogos para Atores e Não-Atores”, que agora inclui seu trabalho com a Royal Shakespeare Company, realizado em 97, em Londres.
Ele anuncia também que está de volta ao teatro tradicional. Acaba de escrever duas comédias de “boulevard”, com tema político e moral. Também já fala em voltar a dirigir no Brasil. Sua última encenação no país aconteceu há exatos dez anos.

“O erro que o Arena cometeu foi ignorar a existência do indivíduo e só pensar na categoria, na classe’

da Reportagem Local
e especial para a Folha

Marcado pelo nacionalismo em seu trabalho no Teatro de Arena, Augusto Boal diz que os 27 anos passados “mais fora do que no Brasil” trouxeram mudanças. Além da “internacionalização”, o diretor também caminhou da preocupação com o coletivo social para a atenção ao indivíduo.

Folha – Você ainda se vê como brasileiro da mesma maneira que nos anos 50, 60?
Augusto Boal –
 Não, não.
Folha – Como é, então?
Boal –
 Quer dizer, o conceito de brasileiro, para mim, é importante. Eu me sinto brasileiro. Eu acho até que carioca, acho que não posso nem dizer brasileiro. Você vai para o Nordeste, é diferente. Vai para o Sul, é diferente. Mas eu sou uma pessoa que passou uma parte grande da vida mudando de língua, mudando de comida, de amigos, tudo. São 27 anos em que eu vivo mais fora do que no Brasil.
Folha – Você e o Arena estiveram à frente de um movimento de afirmação da cultura nacional. O projeto do Arena se ligava à procura de uma dramaturgia nacional…
Boal –
 Embora eu usasse a palavra nacionalismo e tudo mais, a minha preocupação não era a nação. Melhor dito, era, é claro, a nação, mas também não era ficar cego para as desigualdades na nação. Eu via o que estava acontecendo e acontece até hoje, de forma ainda mais cruel. Esta divisão de humanidades. A humanidade que possui o mercado. A segunda humanidade, que está inserida no mercado, como consumidora. E a terceira, a humanidade descartável, que está sendo jogada fora no Brasil, nos Estados Unidos, em toda parte. A minha preocupação com a nação, com o nacionalismo, era dizer “vamos mudar juntos”.
Folha – Mas houve um momento em que foi prioritário afirmar um teatro, uma arte brasileira.
Boal –
 Mas, ao ser brasileiro, a gente visava o oprimido. Não fazia peça sobre a alta sociedade brasileira. Quem fazia era o Abílio Pereira de Almeida, que cumpriu uma função, tudo bem, no TBC (Teatro Brasileiro de Comédia).
Folha – Naquela fase inicial, a sua perspectiva era nacional. Houve um deslocamento para uma perspectiva internacional, uma internacionalização.
Boal –
 A internacionalização… As pessoas dizem: “Trabalhar em tantos países, com gente tão diferente, não choca?”. Eu sempre respondo que muito mais chocante, estimulante, maravilhoso é ver tanta gente igual. (ri) Você vai para Calcutá, na Índia, e vê os mesmos desejos, invejas. A forma com que são apresentados difere, mas o que espanta é ver como somos parecidos, apesar de culturas diferentes, de regiões tão diferentes.
Em Calcutá, quando eu fui, eu queria fazer teatro-foro. Eles disseram: “Não, vamos fazer Árco-Íris do Desejo, porque a gente quer falar das nossas paixões, dos nossos medos”. Fizemos o trabalho todo, com camponeses de Bengala, sobre coisas internas, assim.
Folha – A sua preocupação, antes, era a transformação coletiva. E agora o próprio Teatro do Oprimido se associa ao terapêutico, no Arco-Íris do Desejo. É um deslocamento do coletivo para o individual. Não houve um certo, digamos, aburguesamento?
Boal –
 (ri) Não, certamente não. O erro que o Arena, o CPC (Centro Popular de Cultura) cometeram, e eu me incluo nisso, foi ignorar a existência do indivíduo e só pensar na categoria, na classe. A gente não falava de cada camponês. A gente falava “o campesinato”, como se todos fossem iguaizinhos. A gente negava a existência do indivíduo. Falava “o povo brasileiro” como se o povo fosse igual, no Nordeste, Sul. Ou então, “as mulheres”, “os negros”. Existem os negros, mas existe o negro, também.
Folha – No livro “Arco-Íris do Desejo” você cita, como um ponto de mudança, o episódio da espectadora que foi ao palco, para interpretar um final que só ela pensou para a cena, e bateu num ator.
Boal –
 (ri) Era uma negra, uma mulher deliciosa que, aliás, vai trabalhar com a gente, uma negra imensa. Era deliciosa. Foi no Peru. A gente queria interpretar o que ela dizia e não conseguia, nunca. Chegou um momento em que eu falei: “Por que a senhora mesma não vem até aqui e mostra?”. Quando ela entrou e fez o que pensava, (ri) era diferente de tudo o que a gente havia imaginado.
Na mesma situação, cada pessoa reage diferentemente. Então, restauramos, reconquistamos o indivíduo. Mas não foi o abandono do genérico. Foi o reconhecimento de um erro. Ou de uma insuficiência, porque não era erro, mas um processo em evolução. A gente começou pelo genérico, depois contou também com o indivíduo.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs06099804.htm

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