“O professor vai à delegacia”, de Eduardo Coelho

Navio francês com escravos para venda no Rio de Janeiro

Relato extraído do blog Autores e Livros:

O professor foi assaltado, às 20h30, quando voltava para casa. Dois rapazotes o abordaram. O mais velho sacou uma pistola Falcon, pôs contra sua cabeça e disse: “Passa tudo se não quiser levar bala.” O professor entregou tudo, sem qualquer resistência e com uma calma inexplicável. Suas mãos e pernas nem tremiam. “Vai agora por aqui, se não mato você.” O professor foi, obediente como de costume. Não é homem de sobressaltos.

Comunicou o ocorrido ao policial da viatura estacionada não muito longe do assalto. O policial anotou as informações, mas recomendou que fosse à delegacia prestar queixa.

Na delegacia, o policial de plantão tomou seus dados e fez perguntas. A certa altura, comentou: “Eu faço perguntas específicas, você me responde, mas depois começa a acrescentar elementos que não são específicos da minha pergunta. É professor de quê?” E o professor: “De literatura. Policial, as narrativas precisam ser criadas. Talvez interessem mais a mim do que ao senhor. É uma pena. Bom seria que interessassem aos dois.”

Em seguida, o policial entregou ao professor álbuns de reconhecimento, com centenas de fotografias de assaltantes da região. O professor conseguia ver apenas os olhos dos assaltantes: tristes, de uma tristeza profunda; angustiados, desamparados, intranquilos. Depois o professor reviu as fotos, observando apenas seus rostos. Quase todos eram negros e magros, com muitas cicatrizes na pele. Alguns ele reconheceu da rua – afinal, vivia há 12 anos naquele bairro. Nesses casos, lia atentamente seus nomes. Desse modo seriam um pouco menos estranhos.

Até que o professor parou de folhear e contemplou a foto de um homem que parecia um índio apache, com cabelos lisos e longos, um lenço de algodão na cabeça, um olhar vibrante. Mais do que assaltante, era um Deus do Texas. Única exceção dos álbuns.

“Reconheceu alguém?”, perguntou o policial. “Reconheci todos. São todos humanos. É o único reconhecimento possível. Muito obrigado e bom trabalho.”

O professor entrou no táxi e pensou em Homero: a necessidade de contar a história dos vencidos. A raiva contra os assaltantes havia passado. A questão agora era outra.

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