Peça : A Lua muito pequena e a caminhada perigosa

Essa peça faz parte do espetáculo Feira Paulista de Opinião que estreou em São Paulo em 1968. A peça foi encenada através de um ato de desobediência civil, pois tinha sido inteiramente censurada. Foi necessário uma liminar de um juiz da 7a vara da Justiça Federal para viabilizar a apresentação do espetáculo.

 A lua muito pequena, que o próprio Boal qualificava de colagem, foi construída à partir de textos selecionados no Diário do Che na Bolívia.

A lua muito pequena e a caminhada perigosa
A. Boal

Os atores estarão em cena durante todo o transcurso da peça –
São narradores de uma história conhecida – isto é, de uma história mal conhecida. Os atores se comovem ao conta-la e ao conhece – la melhor.
O ator que desempenha o Comandante deve ser sempre o mesmo; os demais atores revezam – se em todos os papéis, quando necessário.

Prólogo

Coringa –
Eu devo começar dizendo que chegamos a conclusão de que a morte do comandante é dolorosamente certa.
Já muitas vezes foi anunciada  sua morte, nunca chegamos a nos preocupar.
Desta vez, também , no começo, não nos preocupamos, mesmo quando começaram a chegar as primeiras fotos . Depois, noticias , desencontradas: uma cicatriz na mão esquerda e nenhum de nos se lembrava de ter visto qual quer cicatriz na mão do comandante. Depois, o tecido pulmonar, as impressões digitais, tudo, tudo podia ter sido forjado, tudo podia ser mentira. Menos a última prova: o seu diário e , nele, o seu pensamento. Uma fotografia pode ser retocada; até mesmo o rosto de um homem pode ser desfigurado; porém o seu estilo não pode nunca ser imitado.

A notícia da sua morte é dolorosamente certa.

Tonada de Manuel Rodriguez

 Uma atriz  avança e canta a TONADA , de Pablo Neruda
Esta é a dedicatória da peça.

TONADA :

Señora dicen que donde
Mi madre dice dijeron
El agua y el viento dicen
Que vieron al guerrillero ( bis)
Puede ser uno bispo , puede y no puede
Puede ser sólo el viento sobre la nieve,
Sobre la nieve , ay si! Madre no mires,
Que viene galopando Manuel Rodriguez.
Ya viene el guerrillero
Por el estero.
Saliendo de Meliquilla,
Cruzando por Talacante,
Pasando por San Fernando,
Amaneciendo en Pomaire. ( bis)
Pasando por Yancagua, por San Rosendo
Por Cauquenes , por Chena,
Por Nacimiento, por Nacimiento , ay si!
Desde Chiricue,
De todas partes viene Manuel Rodriguez
Pasale este clavel,
Vamos con él
Que se apaguen las guitarras
Que la patria está de duelo
Nuestra tierra se oscurece
Mataron al guerrillero ( bis)
En Pilquín lo mataron
Los asesinos, su espalda está sangrando por el camino
Por el camino, ay si! Madre no mires
Él que era nuestra sangre , nuestra alegria
La patria está llorando, vamos callando.

LUA PEQUENA  E CAMINHADA PERIGOSA

1.- A DESPEDIDA

Comandante-
Volto à estrada com meu escudo. Há coisa de dez anos escrevi outra carta de despedida. Eu me queixava de não ser melhor soldado e melhor médico. O segundo…
Em mim nada mudou, creio  na luta armada como única solução para os povos que lutam pela liberdade e sou consequente com as minhas crenças. Eu se um dia eu  morrer, saibam todos  que medi o alcance dos meus atos, e que me considero apenas um soldado no grande exercito do povo.
Em qual quer lugar que me surpreenda a morte, seja benvinda: sempre o nosso grito de guerra chegará a um ouvido receptivo, sempre outra mão se estenderá para empunhar nosso fuzil, e sempre outros homens se apressarão a cantar nossos gritos de guerra e de vitória.

Coringa-
Sempre nos preocupamos com a possibilidade de que este temperamento, este jeito bem seu de estar sempre presente em todos os momentos de perigo, pudesse conduzi-lo à morte em não importa qual combate.

Ator-
Os numerosos insetos, as moscas gigantes e os mosquitos, as aranhas, picam os homens no meio de um silêncio geral.

Coringa-
Na verdade, há sempre um período em que são tantos  os que desejam entrar para uma guerrilha que nem sequer existem armas para tanta gente.

Ator-
O pó e as picadas dos insetos transformam a pele do ser humano num manto de miséria.

Coringa-
E assim que descobrem que serão obrigados a marchar, a escalar montanhas, a sofrer, a passar fome, muitos se aproveitam do primeira ocasião para largar o grupo.

 Coringa-
O desertor é sempre um traidor.

Ator-
Antonio Rodriguez Flores: o desertor

António R.F. –
Comandante, será necessária a luta armada?

Comandante-
Não há um só exemplo na história de uma classe dominante que tenha abdicado graciosamente do poder.

 A.R.F.-
Mas nós somos tão poucos. Somos dezoito nas montanhas.

 Comandante-
Se nós fossemos somente tantos quantos somos seria melhor desistir. E se continuássemos seriamos bandoleiros. Mas nós somos o povo inteiro, por isso vamos vencer.

 A.R.F.-
Mas nós não sabemos nem guerrear.

Comandante-
A arte da guerra se aprende fazendo a guerra. Nenhum povo pode desejar a liberdade sem desejar a luta. A guerra pode começar agora ou mais tarde, mas que ninguém se iluda: nenhum  pais se libertará sem lutar. O ódio como fator de luta, o ódio intransigente ao inimigo que leva o guerrilheiro alem das limitações naturais do ser humano. Nossos soldados tem que ser assim: um povo sem ódio não triunfa de um inimigo brutal.

 António Rodriguez Flores-
Morte.

 Comandante-
Num combate tantas vezes a morte está mil vezes presente que a vitória é um mito que só um combatente de verdade pode sonhar.

 Coringa-
Absolutamente ninguém pode espantar-se de ter sido ele um dos primeiros a caírem durante o combate – o contrario sim, teria sido um milagre.

 Locutor-
Sabemos de fonte segura que o comandante está vivo e , estamos mais certos ainda de que está cercado.

 Coringa –
Um desertor é antes de tudo um revolucionário desmoralizado , ou um pseudo revolucionário que desejou brincar de revolução.

Ator –
A velha das cabras

Velha –
Eu não sei de nada. Há muito tempo que não vejo soldados .Os soldados não aparecem por aqui.

 Locutor-
O exército cerca os guerrilheiros num vale entre duas colinas cuja extensão ainda não foi definida,

 Velha-
O povo aqui não quer a guerra. O povo aqui quer viver em paz. Faz muito tempo que isso nós já conseguimos: nos vivemos em paz.

 Comandante-
Nós vivemos em paz?  Há vinte anos que vivemos em paz. É verdade que as grandes potencias não se estraçalharam ainda ,o mundo ainda não explodiu. Mas dois terços da humanidade está subnutrida, sessenta por cento das crianças do mundo morrem antes de abrirem os olhos. Esta é a nossa paz miserável. Aqui só se possui a doença e a fome.

Velha-
E a terra, o meu pedaço de terra, a minha terra?

Comandante-
Só é minha a terra que rego com o meu sangue.

Locutor-
As duas extremidades do vale , que é uma espécie de barranco foram ocupadas pelos soldados especializados na luta em florestas virgens. Muitos deles forma treinados por conselheiros estrangeiros, alguns dos quais forma treinados na Guerra do Vietnã.

 Comandante-
Ao longe, podemos ver duas elevações no terreno e marchamos em direção a esse lugar. Nós somos dezessete e caminhamos sob uma lua muito pequena. A caminhada foi perigosa e nos deixamos muitos traços pelo caminho.

5 – O combate e a prisão

Locutor-
O Comandante e seus dezesseis camaradas estão cercados, as altas autoridades afirmam  que o comandante não sairá vivo. O fuzil metralhadora nas mãos do comandante atirava há duas horas já, sem parar. Estava quente e ele o segurava por cima do gatilho com um lenço esfarrapado. Como ele , seus dezesseis homens atiravam sem parar.  O fim estava próximo.

 Ator-
Depois de três horas de luta os combatentes tentam um movimento de retirada. O comandante corre de um ponto a outro, quer atingir o grupo da frente. Uma rajada de metralhadora derruba-o no meio do caminho. Ele estremece, consegue ainda arrastar-se alguns metro, para.

 Coringa-
Evidentemente  todos aqueles que conheceram o comandante e nós o sabemos que não existia nenhuma maneira de captura-lo vivo, a menos que ele estivesse inconsciente.

 Locutor-
Seus camaradas ao ve-lo caído, ao ve-lo em perigo ofereceram  um combate de tal maneira prolongado que vai alem de qualquer limite nessas circunstâncias.

 6- DIALOGOS EM BUSCA DA VERDADE

Capitão-
Eu combati contra o comandante no último dia da sua vida. Eu o fiz prisioneiro.
Desde março você já matou mais de 50 soldados. Você é um criminoso.

 Comandante –
Desde março os soldados mataram mais de 50 operários das minas e desde sempre mais de 50 crianças morrem de fome cada mes.

 Repórter –
Qual foi a sua emoção quando descobriu ter capturado o combatente mais famoso do mundo?

Capitão –
Eu nem sabia que era ele , nem tive tempo de pensar. Ele estava ferido e quase não podia se mexer. Mas podia falar.

 Comandante –
Em que pais amigo você aprendeu a combater?

 Capitão –
Of course… I … ( Corta… Pausa)

 Reporter –
O senhor vi algum ferimento no peito do comandante, bem perto do coraçao?

Capitão –
Estão dizendo por aí que fomos nós que o matamos. Mas não é verdade.
Nós somos soldados, nós não executamos justiça.

Reporter –
Mas todo mundo viu um ferimento na altura do coração.

 Tenente –
Fui eu quem cuidou dele logo depois do combate. Limpei todos os ferimentos, mas no peito não havia nenhum. Depois o coronel ainda ficou conversando com ele. Eles chegaram até a discutir.

Soldado –
Isso é verdade, eu vi. Eu estava de longe não consegui ouvir muita coisa.

 Coronel –
Isto é seu  ( MOSTRA ABOTOADURAS AO COMANDANTE)

Comandante –
É. Queria que fossem entregues ao meu filho.

 Coronel –
Vocês são ladroes. Tudo que vocês tem vai ser distribuído pelos meus soldados.

 Soldado –
O coronel ficou muito tempo com o comandante. Discutiram mais de duas horas sobre o imperialismo. Depois o comandante se levantou e , sem levantar a voz, deu uma bofetada no rosto do coronel. Depois o coronel se levantou e saiu.

( MIMA-SE A AÇAO).

Reporter –
É verdade coronel, que o comandante tratou o senhor  de uma forma um pouco descortez?

Coronel –
É um cafageste.

Reporter –
Ele estava ferido: porque não foi transportado para um hospital na cidade?

 Coronel –
Eu estava aguardando instruções do governo.

 Reporter –
Um processo militar teria sido o procedimento normal.

 Coronel –
Ainda bem que ele morreu. Processar um homem desse tipo podia ser um tiro pela culatra.

Comandante –
Você é professora?

 Professora –
Eu tive medo de ir, tive medo de me encontrar com um sujeito bruto. Mas encontrei um homem aspecto agradável,  de olhar ao mesmo tempo doce e debochado. Eu não tive coragem de olhar diretamente nos seus olhos.

 Comandante –
Na minha pátria não existem escolas como esta. Isto aqui parece uma prisão.

 Professora –
Nos somos um pais pobre.

 Comandante –
Vocês são um povo pobre . Mas os governantes , os chefes militares e os oligarcas possuem Mercedes e palacetes.

 Professora –
Você veio de tão longe lutar no meu pais?

 Comandante –
Bolívar disse que a nossa pátria é a América inteira.

 Soldado –
Você tem muita raiva deles , não é?

Comandante –
Existe um povo, um povo pequeno que está sozinho. Contra  a maior força do mundo ele continua lutando. Nós precisamos entender isto: não se trata de desejar êxitos ao agredido – trata-se de correr a mesma sorte, acompanha-lo na morte ou na vitória.

Soldado –
Mas porque lutar aqui. Aqui tudo está tranquilo, reina a paz.

 Comandante –
É preciso levantar em armas dois, três, muitos pequenos povos que lutem. O pais inimigo do género humano consegue dominar a humanidade  menos pela força enorme que possui do que pelo medo que sentimos. Se nos conseguirmos vencer o nosso próprio medo, conseguiremos vencer o inimigo!

 Reporter –
O comandante foi capturado vivo domingo a tarde. Permaneceu vivo até segunda feira de manhã. Pergunto: o que foi que aconteceu durante todo esse tempo?

Coronel –
Alguns aspectos devem permanecer secretos por questões de segurança. ( GRITOS )

 Soldado –
Eu também quero entrar

 Soldado 2 – 
Eu vou na frente

 Soldado-
Não , você fica como  os outros dois.

 Soldado-
Eu tenho direito.

 Soldado-
Primeiro eu

( O COMANDANTE SE LEVANTA. ENTRA O CORONEL SEGUIDO DOS SOLDADOS)

 Coronel –
Senta.

 Comandante –
Por que , se você vai me matar?

Coronel –
Não , não vou não.

SILENCIO. O CORONEL OLHA PAR AO CHÃO. OS TRES SOLDADOS FITAM O COMANDANTE. O CORONEL DÁ AS COSTAS E CAMINHA ALGUNS  PASSOS DISTANCIANDO – SE DO COMANDANTE. DISPARA TRES VEZES.  O COMANDANTE CAI.OS SOLDADOS FICAM PARALISADOS. DEPOIS DE ALGUNS SEGUNDOS OS SOLDADOS DANDO GRITOS DISPARAM AS SUAS ARMAS.

 Ator –
A morte do comandante é dolorosamente certa.

 Coringa –
A morte do comandante é dolorosamente certa. Nós não queremos tirar vantagens da dúvida , da mentira.  O medo da verdade e a cumplicidade com qualquer ilusão, com não  importa qual  mentira, não foram jamais as armas do povo. Não somos precisamente nós, os revolucionários, que amamos o valor do exemplo, o valor dos princípios morais? Não somos nós, os revolucionários os primeiros a conhecer o que há de efémero na vida física dos homens e durável nas ideias, na conduta e no exemplo dos homens? O comandante foi eliminado fisicamente mas ninguém poderá eliminar o terrível impacto de seu exemplo, da sua conduta, da sua linha revolucionária e heróica. Os imperialistas conhecem, a força do exemplo. Por isso é lógico que eles sintam uma profunda angustia.

 Huasi –
O comandante não quer lágrimas: urge balas concretas, o pranto  em seu nome é uma grande traição. Que não se baixem as bandeiras a meio pau, ao contrario , que todas as bandeiras se levantem mais alto do que nunca. Só os assassinos põem luto , pois a sua própria morte está agora mais perto e mais próxima.

Comandante –
Você virá conosco a esse funeral.

 Coringa –
Se quisermos expressar como desejamos que sejam nossos companheiros devemos dizer: sejam como ele; se quisermos expressar como desejamos que sejam os homens das gerações futuras, devemos dizer: sejam como ele.
Se quisermos expressar como queremos  que se eduquem nossos filhos, devemos dizer, sem vacilação de nenhuma índole: queremos que se eduquem como seu espírito. Se quisermos um modelo de homem, um modelo de homem que não pertence  a este mundo, um modelo de homem que pertence ao futuro, de coração eu digo que este modelo, sem nenhuma mancha na sua conduta, este modelo era ele.

Cortázar –
Peço o impossível, o mais imerecido: peço que seja a sua voz a que aqui se ouça, que seja a sua mão a que escreva estas líneas . Sei que é absurdo e impossível e por isso mesmo creio que ele escreve  isto comigo porque ninguém soube  melhor do que ele  até que ponto o absurdo e o impossível serão um dia a realidade dos homens, o futuro por cuja conquista ele deu a sua jovem e maravilhosa vida.
Usa então a minha mão uma vez mais , irmão
De nada lhes valerá que te hajam cortado os dedos.
De nada lhes valerá que te hajam  assassinado.
Toma a minha mão e escreve.
Tudo quanto ainda me falta dizer e fazer, o direi  e farei sempre contigo a meu lado.  Só assim terá sentido continuar vivendo.

 Final da peça

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