Publicamos mais uma contribuição de Érika Oliveira / Another contribution of Érika Oliveira

Vidas que valem a pena

Quando a Cecília me convidou para escrever este texto, achei que demoraria pelo menos uma semana para organizar as ideias.  O que eu não sabia, contudo, é que o texto já estava todo escrito dentro da minha cabeça, bastando, portanto, um único pedido para que eu o escrevesse de um só golpe.  E se ele já estava escrito, precisando apenas se materializar nesta página é porque, no fundo, eu sentia uma imensa necessidade de colocar em palavras aquilo que venho pensando enquanto faço as minhas leituras cotidianas.  Agradeço, portanto, mais uma vez ao convite da Cecília já que, a partir dele, posso colocar para fora aquilo que vai aqui, debaixo da minha pele.

Quero começar falando de Judith Butler, teórica feminista, que em seu texto “Violência, luto, política”[1], escrito em 2004, nos recorda o velho ensinamento psicanalítico: somos todos(as) desamparados(as), necessitamos do Outro para sobreviver.  O vínculo com o Outro nos constitui ao mesmo tempo em que nos desintegra, por ele somos habitados(as) e despossuídos(as).  Este pensamento trazido por Butler não pode ser compreendido de modo individualizado, cabe ressaltar.  Para ela, cada um de nós se constitui politicamente em virtude da vulnerabilidade social de nossos corpos. Em maior ou menor grau estamos, irremediavelmente, ameaçados(as) pela dor da perda, pelo luto advindo dela, pelas violências e humilhações que podemos vir a sofrer ao longo de nossas vidas. Para além destas considerações iniciais, Butler indaga-se a respeito das vidas que contam como vidas, ou melhor, sobre o que faz com que uma vida “valha a pena”. Algumas vidas são consideradas, pelos discursos oficiais, como sendo dignas de serem vividas em contraposição àquelas que, invisibilizadas por este mesmo discurso, poderiam ser apagadas a qualquer momento e relegadas ao esquecimento. Nós continuaríamos nossas vidas, achando que essa divisão entre aqueles(as) que “valem a pena” e aqueles(as) que não “valem a pena” é algo um tanto natural e fatídico.  Mas Butler nos leva a pensar melhor sobre isso, argumentando que o nosso “eu” está inserido numa comunidade, por ela é afetado, ao mesmo tempo em que atua sobre os outros. Ela insiste em defender a noção de uma vulnerabilidade corporal “comum” a todos(as) nós. Se a partir daí, conseguimos entender a nossa formação como seres humanos, somos levados(as) a refletir sobre o porque de certas vidas serem altamente protegidas ao passo que outras não gozam de nenhum apoio, sendo desprestigiadas e desqualificadas. Entenderíamos que essas escolhas que agem como uma espécie de loteria, premiando alguns(as) e rechaçando outros(as), são um tanto políticas, criadas e mantidas em função de vários interesses sociais, econômicos, religiosos etc.

Feitas essas considerações, quero agora tentar estabelecer um laço com o pensamento e a prática de Augusto Boal.  A meu ver, fica muito claro a sua luta, a partir da criação do Teatro do(a) Oprimido(a), para denunciar a existência destas vidas que, para tantos(as), não “valeriam a pena”.  Além desta demonstração, outro convite feito por Boal, também audacioso, deve ser mencionado aqui.  Não bastaria denunciar o fato de que em nossa sociedade muitas vidas são tratadas como não merecedoras de tratamento humanizado.  Para tanto, ele convida os próprios indivíduos implicados nesse estado de coisas, a narrarem essa experiência de ser tratado como um corpo abjeto (usando expressão de Butler).  Segundo ela, o corpo abjeto diz respeito a todo tipo de corpo cuja vida não é considerada “vida” e cuja materialidade é entendida como “não importante”.  Este exercício de relatar as opressões vividas faz parte das contribuições mais libertadoras do Teatro do(a) Oprimido(a).  Aquele ser, antes tratado como invisível, anônimo, despossuído, um verdadeiro outro, ganha agora o status de sujeito, de protagonista de sua história.  Ele passa a construir uma narrativa que lhe permite dizer como é estar no lugar de quem tem a vida tratada pelos outros (por nosso Estado, nossa sociedade), como uma vida indigna de “valer a pena”.  Boal dá, a um só tempo, um pontapé em posturas estáticas decorrentes das várias expropriações sociais às quais estamos expostos(as) e nos faz dizer: estamos indignados(as) com isso!  O espaço estético, concedido por ele, recria a dimensão humana muitas vezes perdida em nós.  Esta dimensão é inaugurada pela capacidade que temos de rememorar e rearticular nossa história, contando-a para os(as) demais.  Walter Benjamin, dizia: “[…] somos pobres em histórias surpreendentes. A razão é que os fatos já nos chegam acompanhados de explicações. Em outras palavras: quase nada do que acontece está a serviço da narrativa, e quase tudo está a serviço da informação” (p. 203).  Boal, ao incitar as pessoas para um verdadeiro trabalho de memória (não vamos varrer nossas mazelas para debaixo do tapete!), inaugura a possibilidade de nos tornarmos grandes narradores(as) de uma história surpreendente; a nossa história!  Ressignificar a dor ou a opressão vividas, projetando-as politicamente, através do compartilhamento com os(as) outros(as), é a sua proposta.  Não apenas ressignificar, mas dividir as opressões, buscando provocar uma indignação, agora coletiva.  Vamos voltar ao pensamento inicial deste texto.   Junto com Bulter (ou melhor, amparada por ela), pergunto-me: e se conseguíssemos, através da compreensão de que somos todos(as) vulneráveis, aprender que nossa responsabilidade sobre a vida humana, em função disso, passa a ser coletiva?  Tendo um insight a respeito desta questão, poderíamos, quem sabe, inaugurar uma agenda cujo tópico principal seria a promoção de uma cultura da paz, através das discussões das violações de tantos direitos humanos que estamos acompanhando atualmente.  À mulher que é espancada, à criança que é maltratada, ao(à) homossexual que é exterminado(a), ao pobre que é totalmente excluído, enfim, a todas as minorias (que recebem esta designação injustamente, melhor seria falarmos, no caso do nosso país, em “maiorias”), juntaríamos nossos esforços, como desejava Boal, para promover um mundo mais justo.  Isso só seria possível, penso eu, quando abandonarmos nossos concepções preconceituosas a respeito daqueles(as) que não somos “nós”, mas que estão diretamente implicados com aquilo que somos ou queremos ser um dia: os(as) outros(as). Termino este texto desejando boas festas a todos(as) e usando as palavras de Judith Butler a respeito de nós, humanos(as):  “Não posso pensar na questão da responsabilidade sozinha, isolada do Outro; se o faço, expulso a mim mesma fora do laço relacional que desde o começo marca o problema da responsabilidade” (p. 74).[2]

[1] O título em espanhol é “Violencia, duelo, política”.

[2] Conforme o texto original: “No puedo pensar la cuestión de la responsabilidad solo, aislado do Outro; si lo hago, me expulso a mí mismo fuera del lazo relacional que desde el comienzo enmarca el problema de la responsabilidad”

BENJAMIN, W. (1985).  O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov (pp. 197-221). In: ______.  Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura.  São Paulo: Brasiliense.

BUTLER, J. (2000). Corpos que pesam: sobre os limites discursivos do “sexo”.  In LOURO, G. L. (Org.), O corpo educado: pedagogias da sexualidade (2ª ed.). (pp. 153-172). Belo Horizonte: Autêntica.

BUTLER, J.  (2004[2006]).  Violencia, duelo, política.  In: ______.  Vida precaria: el poder del duelo y violencia (pp. 45-77).  Buenos Aires: Paidós.

Lives that are worth

When Cecília invited me to write this text I thought I would take at least a week to organize the ideas. However, what I did not know was that the whole text was written inside my head, and a single request was enough for me to write at one stroke. And if it was already written, needing only to materialize in this page, it is because basically I felt an immense need of putting into words what I have been thinking of while I make my quotidian readings. So once again I thank Cecília for her invitation since because of it I can put outside something that goes here, under my skin.

I want to start by talking about Judith Butler, a feminist theorist who in her text “Violence, mourning, politics”[1], written in 2004, reminds us of the old psychoanalytical teaching: we are all helpless; we all need the Other to survive. The link with the Other constitutes us at the same time it disintegrates us; by him/her we are inhabited and unpossessed. We must emphasize that this thinking brought out by Butler cannot be comprehended in an individualized way. For her, each one of us is politically constituted as a result of the social vulnerability of our bodies. To a higher or lower extent we are irremediably threatened with the pain of loss, with the mourning which proceeds from it, with the violences and humiliations we may suffer along our lives. Going beyond these initial considerations, Butler asks herself about lives which are counted as lives, or rather, about what makes a life to be worth. Some lives are considered by the official discourses as worthy of being lived in contraposition to those lives which, made invisible by this same discourse, could be obscured at any time and relegated to forgetting. We would carry our lives on thinking that this division between those who “are worth” and those who “are not” is somewhat natural and fateful. But Butler leads us to think better about that, arguing that our “I” is inserted in a community and is affected by it, at the same time that this “I” acts on the other people. She insists on defending the notion of a bodily vulnerability which is “common” to all of us. If from this point we manage to understand our formation as human beings, we will be lead to reflect about why some lives are highly protected whereas other ones are not supported at all, being discredited and disqualified. We would understand that those choices which act as a kind of lottery, rewarding some people and repelling other ones, are somewhat political, created and maintained in terms of several social, economic, religious interests and so on.

After these considerations, now I will try to establish a link with Augusto Boal’s thought and practice. In my view, from the creation of the Theatre of the Oppressed (Teatro do Oprimido) his struggle to denounce the existence of these lives which, for many people, “would not be worth the while”, becomes clear. In addition to this demonstration, another audacious Boal’s invite must be mentioned here. It would not be enough to denounce the fact that in our society many lives are treated as worthy of a humanized treatment. For that he invites the individuals implicated themselves in this situation to narrate this experience of being treated like an abject body (as in Butler’s expression). According to her the abject body concerns every kind of body whose life is not considered as “life” and whose materiality is perceived as “not important”. This exercise of relating the oppressions lived is part of the most liberating contributions of the Theatre of the Oppressed. That being who was treated as anonymous, unpossessed, a real “other” now gets the status of subject, of protagonist in his/her own history. He/she begins to construct a narrative which allows him/her to tell how it is to be in the place of someone whose life is handled by other ones (like our State, our society) as an “unworthy” life. At the same time Boal kicks motionless postures resulting from several social expropriations to which we are exposed and makes us say: We are indignant with this! The esthetic space given by him recreates the human dimension which many times is lost in ourselves. This dimension is inaugurated by the capacity we have of recalling and rearticulating our history by telling it to the other people.  Walter Benjamin used to say: “[…] we are poor in surprisingly stories. The reason is that the facts already come to us accompanied by explanations. In other words: almost nothing of what is happening is at service of narrative, and almost everything is at service of information” (p. 203). By inciting people to a real work of memory (Let’s not sweep our blemishes under the rug!) Boal inaugurates the possibility for us to become great narrators of a surprisingly story; our history!

His proposal is to ressignify the lived pain or oppression by projecting them politically through sharing with other ones. Not only to ressignify but to share oppressions, trying to provoke a now collective indignation. Let’s go back to the initial thought of this text. Together with Butler (or rather, supported by her) I ask myself: what about if, by means of comprehending that we are all vulnerable, we managed to learn that, because of it, our responsibility for human life turns to be collective? With an insight about this question who knows we could inaugurate an agenda the main topic of which would be the promotion of a culture of peace, through discussions about the violation of so many human rights that we see nowadays. To the woman who is hit, to the child who I mistreated, to the homosexual who is exterminated, to the poor who is totally excluded, in short, to all the minorities (which receive this designation wrongly; in the case of our country, we should talk about “majorities”) we would join our efforts, as Boal wished, to promote a fairer world. I think this could only be possible when abandon our preconceived conceptions about those people who are not “we”, but who are directly involved in what we are or in what we want to be someday: the other ones. I finish this text wishing everybody nice holidays and making use of Judith Butler’s words about us, humans: “I cannot think about the question of responsibility alone, isolated from the Other; if I do it I expel myself from the relational link which from the beginning marks the problem of responsibility” (p. 74).

[1] The title in Spanish is “violencia, duelo, politica”.

BENJAMIN, W. (1985).  O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov (pp. 197-221). In: ______.  Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura.  São Paulo: Brasiliense.

BUTLER, J. (2000). Corpos que pesam: sobre os limites discursivos do “sexo”.  In LOURO, G. L. (Org.), O corpo educado: pedagogias da sexualidade (2ª ed.). (pp. 153-172). Belo Horizonte: Autêntica.

BUTLER, J.  (2004[2006]).  Violencia, duelo, política.  In: ______.  Vida precaria: el poder del duelo y violencia (pp. 45-77).  Buenos Aires: Paidós.

3 comentários sobre “Publicamos mais uma contribuição de Érika Oliveira / Another contribution of Érika Oliveira

  1. o outro um estranho estrangeiro, o teatro do oprimido é uma importante ferramenta de dialogo com o outro, mas ainda sinto falta dele nos movimentos estudantis e acampas, acho que em 2012 teremos um Dialogo com esses movimentos que surgem do palco da vida, se tornam protagonistas de nosso tempo, parabéns pelo texto e muito axé no caminho

  2. Obrigada Silvia e Teatro Fórum (desculpe, não sei o nome), desejo axé e Luz para ambos. Que 2012 abra mais diálogos entre nós e o Teatro do Oprimido e que mais experiências sejam compartilhadas por aqui.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s