Artigo de Julian Boal – em português

Como prometido vamos publicar  agora o texto de Julian Boal na sua tradução em português. É um texto que consideramos muito importante pelo foco na função do curinga,  essencial para o Teatro Fórum. Para além dos seus aspectos teóricos este texto oferece algumas “dicas” bem práticas para todos os que exercem ou pretendem exercer essa função.

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Elementos de reflexão a respeito do ” curinga »

*por Julian Boal

Este texto tem como único objetivo trazer uma contribuição teórica e prática sobre o papel do “curinga “. Esta função é a única realmente nova dentro do Teatro Fórum, razão pela qual encontramos poucos textos  que a descrevam ou a comentem.

O trabalho presente, embora de nenhum modo pretenda ser exaustivo, visa a acrescentar elementos para a sua  compreensão.

A afirmação de que o Teatro Fórum não representa uma nova página na história do teatro é, a meu ver, regularmente provada pelo fato de que diversos grupos no mundo realizaram espetáculos de Teatro Fórum – e continuam a fazê-lo – utilizando textos dramáticos originariamente não concebidos para esse tipo de representação. O pioneiro foi o próprio Augusto Boal, ao”forumisar” A Mulher Judia, texto de Brecht que faz parte da peça Terror e Misérias do Terceiro Reich. Há alguns meses, Adrian Jackson apresentou Woyzeck sob forma de fórum, em Londres, e tenho notícias de experiência similar realizada, na Croácia, com Antígona.

Não interessa, aqui, discutir se essas experiências fazem ou não sentido, nem mesmo se elas tiveram sucesso. Basta constatar que a figura do curinga foi essencial para que essas peças se transformassem em Fórum, já que todos os outros elementos já faziam parte delas.

Portanto, é normal que muitos praticantes do Teatro do Oprimido, ou pessoas que aspiram a esse papel, se interroguem sobre este recém chegado.

Responderei tendo como base as experiências que testemunhei e as discussões das quais participei. Em primeiro lugar, vou discorrer sobre o que eu próprio acredito ser a função essencial do curinga para, em seguida, falar das astúcias às quais recorrem curingas que encontrei em diferentes partes do mundo.

A função do curinga é difícil porque ela cristaliza todos os elementos do Fórum. O Fórum ideal é teatro, festa, assembleia geral, ato de solidariedade, espaço de discussões e de tomadas de decisão, uma imagem de uma sociedade ideal, cujos membros não seriam expostos a relações de força e, por isso mesmo, capazes de se reinventar. O Fórum ideal é igualmente um meio de tentar alcançar essa sociedade, é uma carta aberta ao Poder e igualmente uma ameaça, porque sempre pode ser o esboço de uma conspiração contra esse mesmo Poder.

Não é de se admirar que, devendo não apenas assumir mas tornar visíveis tantos parâmetros, o curinga seja uma função de difícil compreensão. No entanto, eu creio que os dois parâmetros que verdadeiramente devem servir de linha diretriz ao curinga, não são os que nomeei anteriormente mas sim o respeito à palavra de cada um e o esforço para que todos os presentes na sala de representação participem ativamente do espetáculo.

Do meu ponto de vista, estamos diante de uma contradição. O respeito absoluto à palavra de cada um poderia cansar o resto da audiência, e isto levar à passividade, à indiferença, ao mutismo. Tentar que a sala sempre seja “ativa” poderia conduzir o curinga a se transformar em um animador de auditório, alguém tentando a todo custo “esquentar” os participantes com piadas, saltando de situação em situação, impedindo assim toda capacidade de reflexão por parte dos espect-atores.

A única forma de resolver esse paradoxo é assumi-lo plenamente, enfrentá-lo, e tentar fazer com que esses dois polos contraditórios coabitem. Esses dois elementos são necessários e imprescindíveis. O respeito à palavra de cada um é o elemento necessário para que o espect-ator adquira confiança para subir na cena, oferecer as suas palavras e os seus gestos para todos os assistentes e também para os outros atores e o curinga.  O que ele dirá poderá ser discutido, criticado, porém, jamais julgado.

O curinga poderá interrompê-lo, sempre e quando a situação cesse de evoluir, quando o elemento imprevisível de que esse espect-ator foi portador se estagne numa relação de forças que lhe seja desfavorável e que ele não consiga superar. Outras razões podem justificar a interrupção de sua intervenção: se ele usa de violência, se o que diz ou faz é absolutamente incompatível com o papel que assume. Mas essa interrupção deverá, ela também, ser respeitosa.

O curinga pode, por exemplo, perguntar se ele acredita ter terminado, se tem alguma coisa a acrescentar.

Penso ser uma concepção restritiva a de considerar que a única forma possível de ativar um espect-ator é de fazê-lo subir à cena. Mais, se essa concepção fosse justa, seria triste para o Teatro Fórum. Suponhamos, por exemplo, um espetáculo representado diante de 50 pessoas. Sabemos que apenas 5 ou 10 dessas pessoas intervirão. O que pensar das outras 40, 50 pessoas?

Estariam inertes? Acreditar que somente os que sobem à cena se liberam de sua condição de passividade e falta de senso critico, seria desprezar todas as outras formas de Teatro, sociais, políticas ou militantes. Representaria igualmente uma re-sacralização da cena, pelo fato de lhe conferir, e somente a ela, a capacidade liberatória.

O curinga deve procurar que todos participem. Deve estimular as pessoas, fazendo-as pensar. Deve ser um espelho de seus pensamentos, devolvendo à assembleia o que cada um lhe disse. Deve ser como Platão definia Sócrates, “uma mutuca incrustada nas costas da sociedade”. Ele deve incomodá-las, por tentar colocá-las em estado de criatividade, de discussão, de modo que se distanciem de seus esquemas habituais de pensamento, fazendo com que suas opiniões quotidianas lhes pareçam subitamente como estrangeiras. Ele deve procurar conseguir que opiniões contrárias emitidas pela assembleia não suscitem o ressurgimento de preconceitos mas, ao contrário, que levem à reflexão e à possível superação desses preconceitos.

Assisti uma vez, numa prisão para mulheres do Brasil,  um espetáculo de Teatro Fórum sobre o AIDS. Um dos nós do conflito, sobre o qual os espect-atores eram convidados a assumir o papel do protagonista, era uma cena em que o patrão de uma empresa exigia de um candidato a emprego, que esse fizesse testes de saúde, entre os quais o de AIDS, sendo que o patrão teria o direito de conhecer o resultado dos testes. Na sala as opiniões se dividiram, algumas presas achavam normal que o patrão quisesse saber se seus empregados eram ou não soropositivos. Num dado momento, desde o lugar onde ela se encontrava, uma das prisioneiras começou a falar dos preconceitos que sofriam os soropositivos. Ela se declarou soropositiva, contou, de modo comovente, sua vivência de discriminação, e foi aplaudida pela audiência. Naquele lugar, uma prisão brasileira normal, onde as condições são tão atrozes que os prisioneiros se veem constrangidos a revestir as máscaras da violência e da animalidade como única forma de preservar um mínimo de privacidade, essa prisioneira conseguiu criar, ainda que por um pequeno instante, uma relação de outra ordem. Desta forma, as outras prisioneiras puderam lhe manifestar sua solidariedade.

O curinga deveria tê-la interrompido? Ou então autorizá-la a falar sob a estrita condição de que subisse à cena? Não creio. Se tudo é Teatro, reconheçamos então que o que vem da plateia tem um valor que não deveríamos desconhecer nem subestimar.

Algumas “astúcias” práticas

O curinga perfeito, em termos absolutos, não existe. Existem, sim, curingas perfeitos sob condições precisas. Claro que não se “curinga” do mesmo modo sempre, isso depende do número de pessoas presentes. O curinga deverá responder às situações concretas nas quais se encontrem os espect-atores: um público superexcitado ou, ao contrario, apático; um público unido por uma luta comum ou, ao contrario, atomizado; um público frágil ou um forte;  opressores estando presentes na sala ou não.

A imagem mais apropriada para o Teatro do Oprimido, e para o Teatro social, político, e mesmo para a educação em geral,  não é a de uma cadeia de montanhas, ou seja, não se pode simplesmente colocar uma pessoa num ponto de uma cadeia esperando, no final, obter tal ou qual resultado (a confiança, a tolerância, o respeito…). Nós evoluímos em situações diversas e variadas,  e devemos reagir face a essas diversidades.

É por isso que o curinga não pode se munir de dogmas, apenas de “astúcias”.

. Para saber se o público continua interessado na intervenção:

Após um certo tempo do início da intervenção, o curinga pode se aproximar aos poucos do lugar onde se passa a ação. Se, ao mesmo tempo em que ele se aproxima lentamente,  o público começa a olhar mais para ele do que para espect-ator, é sinal de que espera que ele faça alguma coisa, que ele intervenha. Se o público continua a olhar o espect-ator, então é, pelo contrário, sinal de que seguem interessados na intervenção e querem continuar para ver quais serão as consequências daquela ação.

·    Para “esquentar” a sala antes do espetáculo:
Explicar do modo mais simples e mais claro as regras do jogo.
–     Propor alguns jogos simples: de início os que possam se efetuar
sentados (o círculo e a cruz, John e Paul, etc.) e então, se o público for receptivo, pedir-lhes que se levantem para fazer exercícios mais físicos.

·    Para “esquentar” a sala logo depois da apresentacao do modelo  e
antes do começo das intervenções:
–    Pedir a todos os atores que se apresentem em linha. O público deverá dizer como viu tal ou tal personagem (por exemplo: “covarde”, “preguiçoso”, “mas com um bom coração”). O ator, assim mencionado, deverá então realizar com o seu corpo uma imagem fixa onde, sempre que possível, estarão presentes as características descritas pela sala (no exemplo dado, a estátua de um covarde com o coração de ouro, mas um tanto preguiçoso) .
–    Pedir à sala que se divida em pequenos grupos a fim de discutir o que viram, começando a refletir sobre as possíveis intervenções.

·    Para encorajar o público a subir à cena:
–    Durante a segunda apresentação do modelo, momento do Fórum, o curinga deve se posicionar de modo que todos os presentes lhe vejam. Se os assistentes demorar a reagir, ele pode se locomover no espaço que separa a sala da cena, olhando para eles, de modo a lembrá-los que se espera algo deles, que eles devem reagir; ele poderá inclusive falar com a audiência, provocá-la um pouco: ” até aqui, para vocês, tudo está perfeitamente normal; se essa história acontecesse com vocês, vocês agiriam exatamente da mesma
forma… “, etc
Com isso, o curinga terá a oportunidade de conhecer melhor os membros da assistência, e de localizar aquele que se inquieta em sua cadeira, mas ainda não ousa dizer “stop”. Quando começar uma intervenção, o curinga deverá se colocar em situação menos visível : o espect-ator que subiu à cena quer mostrar sua alternativa e o resto do presentes quer vê-la; nesse momento da ação, o curinga não deve ser uma interferência.
–    Interromper a ação e fazer perguntas aos espect-atores: “você realmente acredita que o personagem não tinha nenhuma outra opção?  Você acredita que o personagem adotou uma boa estratégia para obter o que queria?”, e assim por diante, tentando criar uma discussão da qual emergirão várias proposições ou alternativas.
–    Se um espect-ator começa a falar da sua cadeira e resiste em subir à cena, o curinga pode pedir ao público que o aplauda, para encorajá-lo.

·   Para fazer com que o conjunto dos presentes se ativem:
–    Estimular os assistentes , para que todas as intervenções, quando
terminadas, sejam comentadas. Esse debate os estimulará e encorajará a subir à cena numa outra oportunidade. Tentar, igualmente, impedir que o debate se organize em torno de questões de valor, tipo “foi uma boa intervenção?”.
–    Jamais entrar numa conversa de tipo particular com um membro da assistência. Se um espect-ator lhe fizer uma pergunta ou um comentário pessoal, o curinga deve se afastar dele de modo a obrigá-lo a falar mais alto. Se ainda assim o resto dos espect-atores  não ouvir a pergunta ou comentário, o curinga poderá repetir para os otros  o que ele disse, reformulando suas palavras ou não.
–    O curinga pode , igualmente , expor seu ponto de vista, sempre deixando claro de que se trata de UM ponto de vista, e não da única interpretação autorizada. Deve, em seguida, perguntar aos assistentes o que pensam de sua opinião, e aceitar a crítica da audiência.

·    Alguns conselhos suplementares:
–   Quanto mais tímida for a pessoa que assumir a função do curinga , mais os assistentes  vao se concentrar nela , e menos, portanto, na função que desempenha. Pode parecer um paradoxo, mas quanto mais  claros e expressivos somos , menos nos expomos enquanto indivíduos.
–    Uma sessão de Teatro Fórum deve terminar antes que os espect-atores se sintam saciados. Se os expusermos a intervenções e discussões sem fim, eles retornarão à passividade que justamente queríamos combater. O que importa é que as transgressões ousadas em cena se realizem igualmente na vida. Para tanto, devemos estimular e motivar os participantes, e não torná-los apáticos. É necessário que eles possam conservar, depois de deixar o teatro,
o mesmo desejo de intervir, de transformar.

Se o meu texto acaba aqui, a reflexão sobre o curinga,  ela,  deve continuar.

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