Milagre no Brasil – Comentário Afetivo

MILAGRE NO BRASIL – COMENTÁRIO AFETIVO[i]

Por Silvia Balestreri

 

Neste ano de homenagens aos 80 anos de Boal, decidi me encontrar de novo com Milagre no Brasil, livro que li há mais de 20 anos, e durante cuja leitura me lembro de ter rido e chorado, muitas vezes ao mesmo tempo.

Boal escreveu dois textos sobre sua experiência com a prisão e a tortura: a peça Torquemada, no mesmo ano em que foi solto, 1971, e, alguns anos mais tarde, em 1976 ou 77, este Milagre no Brasil. A edição que tenho é a primeira lançada pela editora Civilização Brasileira no país, do ano de 1979.

Escolhi uns trechos do livro e lhes atribuí títulos. Poderia ter escolhido o momento em que ele narra a tortura que sofreu, mas preferi escolher outras tantas passagens menos conhecidas.

A primeira parte, bem no começo do livro, reporta ao momento um pouco anterior à prisão, quando Boal está ensaiando a peça Arena Conta Bolívar.

POSTURA DIANTE DA CENSURA

Eu tinha acabado de ensaiar Simon Bolívar e estava cansado. Um dos atores tinha me perguntado:

– Afinal pra que é que a gente fica ensaiando tanto? A censura não vai mesmo deixar que a gente faça essa peça…

Eu não acreditava nada em nenhuma “abertura”, como muitos otimistas; desde 1964, desde uma semana depois do golpe e até hoje, tem muita gente que continua dizendo que o governo vai mudar, que vai redemocratizar o país, restaurar os direitos do homem, etc. Eu não acreditava que isso fosse possível; na minha opinião o governo não ia restaurar nada de motu proprio. Mas não queria de jeito nenhum aceitar a autocensura: não queria facilitar o trabalho deles. Se quiserem proibir uma peça minha, que proíbam: têm a força do lado deles. Mas não contem comigo para que me autocensure. Eu não queria fazer como muita gente que já nem sequer se permitia pensar em certas peças que gostaria de fazer, só de medo da censura. Por isso, continuávamos ensaiando essa peça sobre o Libertador de tantos países de Nuestra América, o homem que se auto-intitulou “O Lavrador do Mar”: tudo o que fez, ficou por fazer, tem que ser feito de novo…

7*

Nas duas passagens a seguir, Boal já estava preso. Ele foi levado primeiramente para o DOPS, onde, após alguns interrogatórios, foi torturado. Depois, transferido para o Presídio Tiradentes, ficou em uma cela coletiva. Nesse momento, estava ainda na cela isolada do DOPS.

PODERES QUE PERMANECEM

Durante toda a manhã da terça-feira só se ouviu a voz horrorosa do Sílvio Santos amando o “seu” Brasil. Era insuportável. Era demasiado irônico ouvir falsos elogios ao Brasil, quando na verdade o que ele elogiava era o governo, esse mesmo governo que o ajudava a fazer suas negociatas e que ao mesmo tempo nos tinha ali, prisioneiros.

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Aqui, já depois de ter sofrido tortura, no momento de tomarem seu “depoimento oficial”, mais PODERES QUE PERMANECEM:

Na quarta semana, finalmente, vieram me chamar para o depoimento oficial. O funcionário me fez o mesmo interrogatório de sempre, e recebeu as mesmas respostas. Acrescentou também algumas perguntas novas sobre o dossiê que a polícia política tinha de mim: uma passeata de gente de teatro contra a censura, uma assinatura de um jornal camponês, Terra Livre, e coisas que tais. Perguntou estupidezas como esta por exemplo:

– Por que foi que você devolveu os prêmios de teatro dados pelo jornal O Estado de São Paulo?

Até esse ponto ia a imbecilidade: a devolução de meros prêmios teatrais, decidida por uma assembléia de toda a gente de teatro, era considerada “subversiva”. Esse mesmo diário, durante vários anos depois, sofreu a censura prévia desse mesmo regime que defendia.

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Muito mais adiante no livro, já na cela coletiva do Presídio Tiradentes, onde “sempre havia alguém do Arena preso”, Boal tece impressões a partir das informações trazidas por presos recém-chegados:

O MUNDO ESTÁ MUDANDO (números)

 

Eu me imaginei, como uma espécie de Rip Van Wink1e da história muito conhecida, fantástica, de um homem que sobe em uma montanha e aí encontra um velho e começa a jogar xadrez com ele; quando termina, volta ao seu povoado mas, sem que o tivesse percebido, já se haviam passado 50 anos. Eu pensei que a mim me podia passar a mesma coisa: sair da prisão e me reencontrar com meus velhos amigos, só que 50 anos mais velhos. Alguns, 50 anos mais maduros; outros, 50 anos mais decadentes.

Era normal que lá fora, na “liberdade”, tudo se modificasse. Eu já sentia uma mudança muito marcada nas pessoas que vinham de fora. Pareciam preocupados exclusivamente com o dinheiro, com quanto ganhava cada artista, especialmente quanto ganhavam os que trabalhavam para a TV Globo, subsidiária da Time-Life, que pagava astronômicos salários e ao mesmo tempo obrigava os artistas a fazerem a propaganda do governo. O mesmo contrato onde figuravam as cifras siderais continha também a cláusula propagandística. Nem todos se submetiam, é claro. E sobre a Bolsa de Valores, então? Parece que todo mundo jogava na bolsa. Tantos milhões, tantos pontos. Eu tinha a impressão de que as pessoas começavam a esquecer as palavras e dialogavam exclusivamente com números.

214

Já quase ao final do livro, Boal coloca na boca de um companheiro de cela recém-chegado, o “magro”, o relato de diferentes formas de resistência que começavam a aparecer no Brasil:

FORMAS DE RESISTÊNCIA E ESPERANÇA – Operação Zelo

– É o seguinte: o governo pediu aos trabalhadores que trabalhassem mais. Aquela velha história: trabalhando mais aumenta a oferta e os preços caem e aumenta o salário real. A velha mentira! Aumentando a produção, o que acontece mesmo é que os burgueses vendem mais para o mercado externo e os trabalhadores o único que ganham é mais calos nas mãos. Numa dessas, um ministro pediu para que os trabalhadores cuidassem mais da qualidade dos produtos, com vistas à exportação e à competição nos mercados internacionais Pediu pra que pusessem mais “zelo” naquilo que fabricavam. Bom, isso bastou para que os operários descobrissem uma nova forma de luta: a operação zelo. Cada produto passou a ser examinado e reexaminado tantas vezes e cada parafuso aparafusado e desparafusado tanto e tanto que a produção de muitas fábricas baixou em 30 e até 40%. Muitos gerentes foram obrigados a pedir aos trabalhadores pra não terem tanto zelo assim. .

289

FORMAS DE RESISTÊNCIA – Intelectuais e Artistas

Aqui, Boal se dirige a um outro companheiro de cela, o “Mosca”:

Mosca, me faz um favor: vai dizer ao Caetano Veloso que sim, que o violão do Baden Powell pode ser de direita ou de esquerda, depende do uso que ele faça dele. Vai dizer a ele que pintar os lábios e remexer os quadris como ele fazia pode ser de direita ou pode ser de esquerda: depende de pra que é que serve. A única coisa que não é possível é que uma pessoa fique entre muitas outras e que ao mesmo tempo se esqueça do mundo, e da política, porque é justamente aí no meio de todas as outras que está a política, aí justamente está o mundo. É preciso primeiro saber quem são essas muitas pessoas, e aí a gente vai ficar sabendo de que lado está o violão.

214 e 215

E eu fui dormir pensando contente que não eram apenas os operários e camponeses que resistiam: pensei também que entre nós, os intelectuais, também entre nós havia muitos que, embora sofrendo pressões econômicas, repressão policial, censura e ameaças, ainda assim não se dobravam. E não era apenas um ou outro compositor: eram também romancistas, jornalistas, dramaturgos, poetas, historiadores, sociólogos, professores, pintores… Pensei em toda essa gente que a ditadura não havia conseguido comprar nem calar… E pensando neles, senti um orgulho enorme de ser intelectual, e de ser brasileiro.

215

Nas duas última páginas do livro, no momento em que está saindo da prisão, Boal conta que se despediu dos companheiros de cela e chorou. Enquanto sai, continua a ouvir a voz cheia de novidades e impressões do companheiro que acabara de chegar:

SAÍDA DA PRISÃO – Estamos vivos!

 

Quando terminei de me despedir de todos, dei a volta no corredor e olhei minha cela pela última vez, pela janela, mas agora já do lado de fora. O magro continuava falando, falando, falando:

– Eles nos queriam matar a todos. Mataram muitos. Uns morreram de bala, outros morreram de medo. O Brasil se transformou em um enorme cemitério. Parecia que os homens saíam de suas casas e se dirigiam sozinhos às suas sepulturas. E os que já estavam mortos aí apodreceram; e os que estavam moribundos aí endureceram, e parecia que todos estavam mortos, bem mortos. Mas alguns começaram a dizer baixinho, “eu estou vivo, eu estou vivo”, e outros ouviram a voz que dizia que estava viva, e de repente começaram a dizer baixinho, primeiro bem baixinho, “eu estou vivo, eu estou vivo”, E outros escutaram e, agora já são muitos os que estão dizendo que estão vivos, são muitos os que estão vivos, dizendo “eu estou vivo, eu estou vivo…” Já são muitos os que estão gritando que não estão mortos, que estão vivos, já são muitos os que estão fazendo coisas de vivos e não coisas de mortos, e esses que já são muitos estão aumentando, já são muitos mais companheiros, é certo que a gente não deve ser otimista demais, mas já existem muitos mais que estão dizendo e fazendo coisas de vivos, e estão vivos, e esse é o milagre, o milagre no Brasil, o povo está vivo, bem vivo, e muito cedo os assassinos que pensaram que seria possível matar o povo, muito cedo esses assassinos vão perceber que os mortos são eles e que já aconteceu o milagre, o povo inteiro, o povo vivo, gritando “eu estou vivo, eu estou vivo…”

Muitos na cela estavam chorando.

Quando desci, no pátio ainda se podia ouvir a sua voz. Abriram um enorme portão de ferro e eu saí. Lá fora, já não se ouvia mais a sua voz. Lá fora muitos tinham medo de falar, muitos tinham cara de medo. Mas certamente estavam vivos; por dentro, inaudivelmente, estariam gritando que estavam vivos.

Fui embora para casa. Se me lembro bem, eu estava contente.

Muito contente.

290 e 291

Em relação à SAUDADE, trago aqui as palavras que Boal me escreveu em um email de outubro de 2003, em resposta a uma mensagem em que eu lhe dizia ter descoberto, pela internet, o contato de queridos amigos da Alemanha, que conheci quando vieram ao Rio em 1991, para fazerem um curso com ele. Boal se disse feliz com a descoberta, que iria escrever para eles e, em resposta a minha declaração de saudade “daquele tempo em que, imagine, eu nem tinha computador”, escreveu:

Também eu sinto saudades daquele tempo. Sinto tantas saudades de tantas coisas, mas penso nas muitas que ainda não fiz e quero fazer para sentir saudades depois. Um beijo, Boal

[i] Apresentado na homenagem Augusto Boal – 80 Anos, em 04 de junho de 2011, na sede da Cia. do Latão, em São Paulo. Reapresentado em 16 de outubro de 2011, no evento Augusto Boal 80 Anos – Nossa Homenagem, no Teatro de Arena de Porto Alegre. Silvia Balestreri é professora do Dep. de Arte Dramática e do PPG Artes Cênicas da UFRGS.

* BOAL, Augusto. Milagre no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. Esta é a edição utilizada aqui para todas as citações. Os números abaixo e no canto direito de cada citação correspondem às páginas do livro.

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