Texto Cecilia Programa Murro em São Paulo

Resolvi aceitar o convite de Nena Inoué, convite urgente, porque ele vai me permitir contar uma historia

Muito se pode dizer sobre o exílio, sobre o sofrimentos que causa ter que abandonar o seu pais, a sua língua, os seus amigos, tudo aquilo que nos dá identidade , para se tornar um estrangeiro

Poderia falar da dor de ser um estrangeiro, um estrangeiro de verdade, no quotidiano , sem  nenhuma consideração filosófica

Coisas bem tristes!

Por isso achei mais bonito, mais alegre e divertido contar como foi que o meu exílio começou

Conheci Augusto Boal em Buenos Aires em 1966

Eu era uma jovem atriz representando uma peça de teatro num teatro portenho enorme e sombrio

Um dia uma noticia sacudiu o teatro e as suas vetustas estruturas

Tinha chegado um diretor do Brasil

Naquela época o Brasil para mim ficava tão longe como a Austrália

Mas o diretor era charmoso, muito charmoso!

E vinha antecedido de uma fama retumbante, era um revolucionário, um militante politico e teatral, um homem perseguido

E  eis que este diretor aparece um pouco mais tarde no meu camarim para me convidar a participar do seu próximo espetáculo

Uma semana depois estávamos vivendo juntos

Vim com Boal para São Paulo e o acompanhei pelo mundo

Nunca mais nos separamos, ele foi o meu país

Muitos anos mais tarde, muitos mesmo , já morando de volta no Brasil, um dia me dei conta de uma coisa muito curiosa: a peça que eu representava no momento em que Boal apareceu no meu camarim era uma adaptação de um conto de Scholem Aleijem

É a historia de uma moça que se apaixona por um homem de circo e vai embora com ele

O conto se chama Destinos Errantes

E , de certa forma , o Boal foi sempre assim, um homem de teatro traçando um destino glorioso e mambembe, colado numa mala que guardava sempre pronta embaixo da cama

Porém, tantos desenraizamentos, tantos desterros , não abalaram nunca a sua força, a sua alegria, a sua imensa confiança nos seres humanos, na sua capacidade de transformação e na sua solidaridade

O olhar do Boal sobre as coisas do mundo sempre foi um olhar confiante e generoso, alegre e divertido

Poderia falar horas sobre ele, escrever horas

Mas foi ficar por aqui

Assistam a peça, ela fala mais e melhor do que eu

Bom espetáculo!

Cecilia

 

Um comentário sobre “Texto Cecilia Programa Murro em São Paulo

  1. Querida Cecilia,
    emocionante o seu texto. Suas palavras são de uma alegria e delicadeza tocantes.
    Você, a jovem atriz, no teatro sombrio, e o homem de circo, Augusto, abrindo novos e insondáveis “destinos errantes”! O bonito é que vocês levam a gente pela mão nesse mambembe!…
    Grande beijo, com todo o meu carinho,
    Clara de Andrade

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