A Fábrica de Teatro Popular e sua atualidade em tempos de retrocesso – 30 anos depois

A Fábrica de Teatro Popular e sua atualidade em tempos de retrocesso – 30 anos depois

Aqueles e aquelas que se inspiram na trajetória e no trabalho de Augusto Boal, provavelmente já ouviram falar algo a respeito do seu retorno do exílio ao Brasil. Na época, em 1986, o regresso foi devido a um convite para trabalhar em parceria com Darcy Ribeiro em um projeto piloto denominado Fábrica de Teatro Popular, que integraria parte da metodologia dos recém criados Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs), conhecidos também como Brizolões. Nessa época, Darcy Ribeiro era então secretário de Estado, Ciência, Cultura e Tecnologia de Leonel Brizola (PDT), eleito em 1982 governador do estado do Rio de Janeiro.

O Brasil, nesse momento ainda estava imerso a uma violenta ditadura militar e passava por um árduo processo de redemocratização, iniciado em 1979 com o retorno do pluripartidarismo e a lei da anistia, processo este culminado apenas em 1988 com a promulgação da nova constituição. Assim, quando Boal volta ao país, Brizola era um dos poucos governadores de esquerda em exercício e desde de que fora eleito, caminhava com transformações profundas em setores estruturais do estado. No que se referia a educação, dois anos após o início do mandatado, ficou a cargo de Darcy iniciar o Programa Especial de Educação (PEE), dentro do qual o projeto do CIEPs seria desenvolvido e implementado.

O PEE tinha como principal objetivo “consolidar o ensino público moderno, bem aparelhado e democrático” (RIBEIRO, 1986) e foi idealizado devido a tradição impopular que a escola pública tinha até então com as camadas mais pobres da sociedade. Darcy, através do projeto denunciava o elitismo da educação pública, que nos moldes de então, perpetuava a desigualdade social, já que sua estrutura, metodologia e currículo beneficiavam um pequeno grupo social de estudantes pertencentes as camadas mais ricas da sociedade. O programa propunha em seu lugar, nos trilhos das ideias defendidas por Anísio Teixeira e Paulo Freire, uma educação outra, efetivamente popular, dialógica, que não transformasse as diferenças dos grupos sociais em desigualdades. Pelo contrário, buscava um modelo educacional onde estas diferenças fossem colocadas como ponto de partida de todo e qualquer aprendizado, estando assim mais próximos das diferentes realidades e interesses dos alunos e alunas, caminhando para se construir como efetivamente crítico e emancipatório.

É importante contextualizar este cenário educacional no estado de Rio de Janeiro quando Boal chega em terras brasileiras, para entendermos a dimensão que tinha a Fábrica de Teatro Popular neste momento. O projeto ao qual Boal foi convidado a dirigir, pertencia a um movimento importantíssimo da educação do estado, que foi drasticamente interrompido por questões estritamente políticas, quando Brizola perde as eleições de 1987 e assume Moreira Franco do PMDB (que já nesses tempos se dedicava a devastar a política no estado do RJ), deixando um projeto como o CIEPs de lado sem nenhum critério pedagógico ou avaliativo. Na verdade, como parte de um processo reacionário em relação aos avanços alcançados nos últimos anos.

A Fábrica de Teatro Popular foi pensada para trabalhar diretamente com um grupo de educadores específicos dos CIEPs, os animadores e animadoras culturais. Essa função era um dos pontos mais transgressores que integravam o modelo educacional do projeto. Dentro dos cerca de 500 centros integrados o objetivo era oferecer uma educação integral aos alunos e alunas. Integral não apenas em questão da ampliação de carga horária, mas no sentido mais amplo do termo. Esta proposta educacional buscava então formar os jovens, não focando apenas no desenvolvimento cognitivo, para a entrada no ensino superior e o mercado de trabalho, mas para o desenvolvimento pleno do potencial humano, para o convívio em sociedade e para o questionamento da mesma. Assim, além das aulas que compunham o currículo básico dadas no turno da manhã, os alunos e alunas participavam de uma série de outras atividades no contra turno ligadas a esportes, artes, educação sexual, estudo dirigido, além de tempos de leitura, atendimento médico, dentário e alimentação completa.

É neste ponto que são inseridos os animadores e animadoras culturais. O modelo de educação idealizada, compreendia o inestimável valor dos aprendizados que vinham no tempo livre e que se davam nas relações cotidianas com a comunidade e a cultura local. Dessa forma, acreditavam que o aumento na carga horária dos alunos e alunas, ao mesmo tempo que proporcionaria uma formação mais ampla, integral e libertária, comprometeria o contato com estes valiosos saberes que circundam os espaços formais de educação.

Os animadores e animadoras culturais eram mestres e mestras da cultura popular que já trabalhavam com alguma linguagem artística na comunidade local. Estes educadores e educadoras trabalhavam através das especificidadessocioculturaisde cada território onde cada unidade do CIEP estava inserida. Os animadores e animadoraseram responsáveis então pela interconexão entre estes conhecimentos populares e locais e a educação formal centralizada nos CIEPs, que por sua vez ofereciam a infraestrutura que possuíam para o uso de toda comunidade, principalmente em dias e horários em que não havia aula. Assim, quadras poliesportivas, salões sociais, bibliotecas e refeitórios ficavam abertos para a comunidade local, deixando de estar ociosos nesses tempos livres.

A Fábrica de Teatro Popular tinha então o objetivo de formar estes animadores e animadoras culturais como multiplicadores do Teatro do Oprimido (TO), e é neste ponto que a participação de Boal e da equipe nos CIEPS demonstra características transgressoras do método que valem a pena serem ressaltadas. Cada animador cultural era um trabalhador da cultura que já utilizava alguma linguagem artística, criadora, estética. A partir dessa formação estes animadores poderiam utilizar os jogos, exercícios e técnicas que compõe a metodologia TO no seu trabalho como educadores e educadoras dentro das suas áreas de trabalho. Mas além disso, aprendendo a base conceitual do método,estes profissionaisestariam levando outra proposta de ensino/aprendizagem para dentro dos espaços formais de educação.

Formar educadores e educadoras com uma proposta metodológica como o TO, incute em propor um trabalho educativo com alguns preceitos característico de uma educação emancipatória, crítica, dialógica. Como por exemplo a proposta de que na ação educativa não existe sujeito passivo, todos criam, todos se reapropriam dos meios de produção de cultura, todos criam significados a partir da sua expressão, todos são spect atores enquanto ensinam/aprendem, e os papéis de ensino e aprendizagem devem se revezar, se confundir, se sobrepor.

Outro exemplo é a proposta de criar narrativas coletivas, polifônicas. Essa proposta também característica do TO, principalmente das montagens de teatro-fórum, trazem uma reflexão e inspiração importantíssimas a educação formal. Como é possível pensarmos uma produção de conhecimento que se enriquece na diversidade? Que se potencializa na amplitude de perspectivas que são legitimadas para a construção da aprendizagem?

Além disso, o TO em espaços formais de educação nos permite pensar como podemos caminhar no sentido de pensar o saber e o fazer, a estética e o conhecimento (VITORIO, 2007) como parte do mesmo processo, ambos criadores, ambos produtores de saberes, ambos amplamente educativos. E postos dessa forma, potencialmente transgressores.

Assim, quando Boal junto a equipe da Fábrica de Teatro Popular, formada também por Cecília Thumim e Rosa Luiza Marques, iniciam seus trabalhos nos CIEPs, buscam, claroformar multiplicadores de TO que iriam montar peças de Teatro Fórum, as quais seriam apresentadas na rede de CIEPs, levantando debates estéticos e propostas para a resolução das problemáticas sociais apresentadas, mas também proporcionam um processo de formação com estes animadores e animadoras culturais com outra lógica de pensamento educativo, que tinha em muito para oxigenar e transbordar-se para dentro desta proposta já revolucionária dos CIEPs.

A proposta do projeto piloto era ter uma estrutura de formação clara e completa, que formasse continuamente animadores/educadores onde todos e todas deveriam passar por seminários de dramaturgia, laboratório de interpretação e ateliê de cenografia. A partir destes estudos e do trabalho prático desenvolvido junto aos alunos e alunas dos CIEPs estariam em constante formação para aplicar e multiplicar o método.

É importante colocar aqui, que o projeto dos CIEPs tinha como objetivo materializar a educação integral que desde Anísio Teixeira e os planos da Escola Parque no fim dos anos 1950, eram uma promessa de transformações estruturais no modelo educacional brasileiro. Assim, compreendemos que esta nova proposta educacional propunha uma educação efetivamente integral, muito diferente desta reforma educacional aprovada em 2017 pelo governo Michel Temer (ilegítimo). Não apenas diferente, mas diretamente oposta a esta, inclusive.

A reforma do ensino médio, aprovada a toque de caixa através de uma medida provisória (MP 746) em fevereiro de 2017, de moderna só tem os comerciais, e olhe lá, porque são bem caídos e cafonas. Apresenta um discurso de flexibilização do currículo, de liberdade de escolha dos alunos e alunas sobre suas áreas de interesse, de ampliação da carga horária e de uma formação mais ampla, mas na verdade, nas entrelinhas percebe-se o retrocesso que significará para aeducação brasileira.

Primeiramente, a reforma foi aprovada através de uma medida provisória. Uma pauta como esta, que necessitaria de amplo debate feito pela sociedade civil, principalmente por educadores, educadoras, especialistas da área e pelo alunado. O formato de aprovação da reforma então, já denuncia o nível de desconexão desta com as necessidades reais da educação, já que envolveu pouco diálogo com os principais envolvidos no setor e os mais impactados por ela. Seguidamente, propõe um aumento da carga horária progressivo (de 800 para 1.400 horas anuais, sendo que em cinco anos as escolas devem oferecer pelo menos 1.000 horas anuais), que naturalmente eleva o custo por aluno da educação pública, fato de certa forma contraditório já que poucos meses antes este governo havia aprovado a PEC 241/55 (do teto de gastos), que congela os gastos com saúde e educação por dez anos, com possibilidade de renovação, ou seja, mais dez anos.

Além disso, a reforma proposta cria cinco itinerários formativos, “dando” a opção para o alunado escolher quais áreas pretende se aprofundar. Entretanto, permite que as escolas não sejam obrigadas a ter todas as cinco opções, de forma que os alunos e alunas ou terão que escolher dentre aquelas que a escola possui, ou terão que pedir transferência para outra escola. Pensando na realidade do país, e na escassez de escolas em muitas regiões, principalmente nas áreas rurais, já podemos imaginar como ficará estas “possibilidades de escolha”. Por fim, a nova proposta de ensino médio coloca Sociologia, Filosofia, Educação Física e Artes não mais como disciplinas a serem cursadas, mas caracterizadas como “estudos e práticas”, deixando em aberto para a BNCC (base nacional comum curricular) definir como serão trabalhadas. Artimanha que possibilita que sejam enquadradas como áreas de estudo dentro de outra disciplina ou projeto pedagógico da escola.

Parece, no mínimo curioso, ambas as reformas educacionais das quais falamos, tanto a proposta através dos CIEPs, e a reforma do ensino médio aprovada pelo governo draculástico, terem o conceito de educação integral como base referencial. Denominação muito discutida, pesquisada e defendida por muitos educadores e educadoras sérios e comprometidos, mas utilizada, neste momento, de forma interesseira e perversa                                                                                                                                          por um projeto reacionário de governo.

Por isso, em momentos de ataque a democracia como o que vivemos, além de luta e persistência no trabalho educacional que acreditamos, esse sim libertário, emancipatório e democrático, é necessário relembrar também os projetos educacionais já idealizados, já implementados, já também combatidos por outros pensamentos e sujeitos que tinham no neoliberalismo suas premissas educacionais. Darcy, Freire, Anísio e Boal se reviram agora, certamente putos da vida com tamanho atraso provocado por este assalto a educação e cultura brasileira. Mas acredito que, liderados pelo nosso eterno dramaturgo, já estão ensaiando alguma intervenção, que some a luta dos trabalhadores e trabalhadoras da educação no processo e resistência contra o desmonte da educação pública.

                                                                                                Igor Trombini

SALAS ABERTAS PARA AUGUSTO BOAL

Nesse mês de maio no Rio de Janeiro:

SALAS ABERTAS PARA AUGUSTO BOAL

Leituras da dramaturgia de Augusto Boal com estudantes

Salas abertas para Augusto Boal trata-se de uma proposta de encontros de leitura da dramaturgia do diretor teatral, dramaturgo e ensaísta, Augusto Boal, com estudantes do ensino médio, tendo como foco principal estudantes do Curso de Formação de Professores.

O objetivo é aproximar a obra dramatúrgica de Augusto Boal dos jovens, sobretudo de estudantes do ensino médio, e observar como estes textos dialogam hoje com este público. Avaliar o que, através das peças de Boal, é possível suscitar de conhecimento histórico e de reflexão política e social; e como a linguagem presente nos textos se comunica e mobiliza o jovem de hoje.

Estes encontros de leitura serão conduzidos pela atriz, narradora oral e dramaturga Luciana Zule, que há alguns anos vem experimentando a leitura de textos dramáticos com adolescentes e jovens como atividade cultural e também como apoio ao trabalho de alfabetização para alunos com dificuldades de aprendizagem.

 

Onde? Quando?

  • Nos dias 08/05; 09/05; 22/05 e 23/05 das 13:30 às 16h

Na Biblioteca Popular de Irajá – João do Rio

  • No dia 10/05 das 9h às 11:30 e 13:30 às 16h

Na Biblioteca Popular do Rio Comprido – Annita Porto Martins

  • Nos dias 14/05 e 15/05 das 13h30 às 16h

Na Biblioteca Popular da Tijuca

Albertino Boal, irmão de Augusto, filhos do padeiro

Quando colocamos online a página do Instituto Augusto Boal, a nossa intenção era divulgar o trabalho de Boal e também o do Instituto. Desde então temos tido algumas boas surpresas.

Muita gente já sabe que Boal nasceu na Penha (RJ), e que o seu pai, José Augusto, era dono de uma padaria famosa pelos seus pães e pela sua solidariedade.

Lá os vizinhos podiam usar o forno de lenha para os seus assados dominicais e, coisa preciosa, o telefone.

Graças a isso a padaria se tornou famosa, quase tão famosa quanto o próprio Augusto Boal.

Acontece que de vez em quando algum antigo vizinho da Penha nos lê no Facebook e entra em contato conosco.

É o caso de Carlos, casado com a filha da dona Solange , que entrou em contato para nos dizer que a sua sogra tinha trabalhado na padaria do seu Boal que, naquela altura, já estava nas mãos de Albertino, o irmão médico, quem assumiu a padaria logo depois do falecimento do pai.

Pedimos a Layane que entrasse em contato com Solange e eis a historia.

O mais comovedor é o fato dela ter guardado preciosamente o cartão de Albertino Boal, médico, durante tantos e tantos anos.

Solange Maria de Lima:WhatsApp Image 2018-04-25 at 14.43.12

“No ano de 1989, eu estava na época com 19 anos, perdi meu emprego num supermercado e logo depois descobri que estava grávida e fiquei meio sem rumo porque não tinha como arrumar emprego, como eu ia arrumar emprego grávida, né? Aí o doutor Boal colocou no jornal  um anúncio pedindo  uma operadora de caixa para a padaria dele, ali na Lobo Junior. E eu fui assim mesmo, grávida, não falei nada e comecei a trabalhar. Fui trabalhando e o doutor Boal sempre me pedindo minha carteira para assinar, só que eu pensava assim: se ele assinar minha carteira, ele vai ter que pagar todos os meus direitos trabalhistas como se eu tivesse engravidado após o meu começo no trabalho, sendo que isso é uma inverdade porque eu já entrei grávida. Aí eu fiquei meio que enrolando para não perder o emprego e eu falava que ia levar a carteira e nunca levava. Quando foi um dia eu falei “quer saber? Eu vou falar a verdade”, aí eu falei com ele que estava grávida e ele me diria se me mandava embora ou não porque se eu desse a carteira e ele assinasse, depois ele ia ter que me pagar todos os direitos, me indenizar.  Eu acho que por isso, por eu ter dito a verdade, acabou que ele falou “não, pode ficar trabalhando até o final da gravidez”. Aí eu trabalhei, ele sempre me tratou muito bem, pegou uma confiança muito grande em mim. Ele falava do Augusto Boal, o irmão dele, que o irmão dele estava fazendo teatro e ele conversava muito comigo. Eu tive o bebê, fiquei um tempo sem trabalhar, acabei retornando. Dado um tempo, eu precisava de um emprego que pagasse mais, que eu pudesse ter uma ascensão. Eu precisava de uma carta de recomendação, ele (o doutor Boal) me deu uma  e eu só fiz entregar lá (na nova proposta de emprego) e já estava empregada ,  porque ele colocou que eu era secretária dele, que eu trabalhava há muitos anos com ele, ele falou que só me daria aquele papel porque confiava em mim. Passados dois anos, o gerente do doutor Boal vai lá em casa perguntar se eu to trabalhando porque o doutor Boal tava precisando de alguém para trabalhar com ele, se eu podia ir. Aí eu falei que poderia ir sim, só que tinha um problema, eu tava grávida de novo. O Antônio falou com ele, ele aceitou, trabalhei a gravidez toda. Ele quis conhecer a criança quando nasceu e eu sempre ia lá levar minhas filhas para ele ver. Eu agradeço muito ele porque foi em um dos momentos que eu mais precisava, que ninguém iria me empregar, ninguém iria ficar com uma pessoa grávida né?  Quando eu fui para ter minha filha, ele como tinha sido médico obstetra, me deu um cartão dizendo que eu era secretária dele, pedindo ao colega dele lá de Bonsucesso para me receber bem. Eu nunca fiz uso desse cartão, porque eu nunca gostei muito daquela coisa de “ah me trata bem porque eu conheço o fulano, beltrano”. Eu  acabei guardando o cartão por consideração, porque eu sempre fui muito grata a ele, por ele ter me aceito. Um dia, por acaso passei na padaria e perguntei ao Antônio por ele, aí ele me falou que tava tudo bem, nisso o telefone toca, era a notícia do falecimento do doutor Boal, eu achei curioso o fato de eu estar lá justamente naquela hora. Ele se dizia ateu, e tem tantas pessoas que às vezes se dizem religiosas e não deixam nada de bom para as pessoas lembrarem delas, ele foi uma das pessoas mais importantes na minha vida porque ele esteve presente nos dois momentos  em que eu mais precisei.

Na época os clientes da padaria eram aquelas pessoas conhecidas, que iam ali todos os dias. A padaria abria muito cedo naquela época, segunda a gente chegava e já tinha uma fila na porta. Na época eram aqueles fogões de lenha, hoje é tudo elétrico, mas na época era lenha então o doutor Boal tinha aquele galpão por trás da padaria que era cheio de lenha que era pra fazer os pães.  Eu me lembro bem das pessoas que eram clientes dessa época, engraçado, eu me lembro da fisionomia delas, me lembro que a maioria eram pessoas idosas. As pessoas às vezes comprava pão, mas na verdade eu tinha impressão que eles iam pra conversar também um pouquinho, pra tirar aquela coisa da solidão, porque muitos moravam sozinhos e iam lá comprar pão e acabavam conversando conosco e passando um pouco do tempo deles.”

Enviamos a entrevista para Sônia, sobrinha do Boal, que ficou emocionada e contribuiu conosco com seu comentário:

“Fiquei muito emocionada com esta história! Ele era exatamente assim. Ajudava todo mundo que ele podia, gostava de fazer amigos e todo mundo gostava dele. E a letra é dele mesmo. Embora ela não tenha feito uso do cartão, acho que ela deveria ter usado, porque não era um favor e sim uma maneira dele se certificar que ela seria atendida por alguém em quem ele provavelmente confiava. Era um grande cara também esse tio Albertino!”

Discurso de Boal em reeleição do Lula, 2006

Os textos de Boal são sempre tão atuais e tão presentes. Compartilhamos então, com vocês, a fala que ele preparou para discurso em função da vitória do Lula em sua reeleição, feito no Canecão em 2006. 

No vídeo Augusto Boal proferindo o discurso e abaixo o texto na íntegra:

17 de Outubro, Rio de Janeiro

“Companheiras e Companheiros,

eu quero lembrar àqueles que são da minha idade – e quero revelar aos menorzinhos -, que errar faz muito bem à saúde… desde que se aprenda. Nós aprendemos muito, aprendemos que não podemos continuar errando os mesmos erros que erramos no nosso passado político. Nunca mais os erros de 64: nunca mais a divisão.

Como cada um de nós é uma unicidade, é natural que, mesmo quando pensamos a mesma coisa, pensemos essa mesma coisa de forma diferente. Cada gêmeo, cada família, cada torcedor de um mesmo time, cada membro de uma mesma associação antifascista, cada militante de cada partido político de esquerda, por mais que tenha, com os demais, um sólido denominador comum, pensa de forma diferente a mesma coisa igual. Isso é maravilhoso, é assim que se avança: cotejando opiniões, dialogando entre companheiros, manifestando dúvidas e hesitações. Continuar lendo

Encontro com a arte engajada latino-americana

No dia 28 de abril participaremos de um evento na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio): “Encontro com a arte engajada latino-americana: Engajado não é palavrão!”  (https://www.facebook.com/events/413723152386035/) onde serão, ao longo do dia, lidas peças de autores latino-americanos e terão espaços de conversa mediados pela Cecilia Boal.

Dentro da programação, contaremos com a leitura da peça “Ala de Criados” de Mauricio Kartun.

Mauricio Kartun é dramaturgo, diretor e professor de dramaturgia. Seu trabalho é de extrema importância para a dramaturgia argentina contemporânea. Suas obras da década de 1980 Chau Misterix, La Castia de los viejos e Cumbia morena cumbia são reconhecidas pela crítica teatral por trabalhar com o realismo reflexivo e utilizar ricos procedimentos teatrais.

Kartun fez parte do grupo teatral argentino El Machete, que encenou em 1973 na extinta Sala Planeta em Buenos Aires a peça “Ay, Ay! No hay Cristo que aguante, no hay!” adaptação de “Revolução na América do Sul”, com a direção de Augusto Boal.

 

Conselho do Boal à curingas

Encontramos recentemente no computador de Boal estes comentários que certamente se referem a algum ensaio das peças de Teatro Fórum.

São conselhos especificamente dirigidos aos curingas: como são chamados os mediadores, os encarregados de organizar as participações do público e de sintetizar e analisar as propostas debatidas na cena.

“Acho que devemos dar muito mais atenção aos seguintes pontos que são fundamentais: 

  1. a proposta deve ser claramente definida: se é Dança do Trabalho deve ser formada por uma seqüência de tarefas repetitivas da profissão; se é a Vida na Comunidade, por um seqüência coerente de ações freqüentes. Quando se misturam propostas o resultado é misturado e, portanto, menos eficaz.

 

  1. os Curingas devem estar atentos para o fato de que os atores sempre podem fazer mais e melhor. A tendência deles, em um primeiro momento, é a de fazer os gestos miúdos, próximos à realidade. Os Curingas devem insistir em que, no palco, esses gestos devem ser ampliados, magnificados E DEVEM TOMAR CONTA DE TODO O CORPOe não apenas dos braços: O CORPO INTEIRO DEVE DANÇAR. Não que o corpo deva o tempo todo entrar em transe, pode ser dança suave, mas tem que ser integral.

 

  1. cada seqüência deve ser explorada com precisão para que se evite a confusão de não sabermos quem está fazendo o quê, e quando. Deve durar o tempo necessário para estimular os espectadores e para que sejam identificados e apreciados.

 

  1. ao usarmos o Espaço devemos usá-lo como um todo: o Espaço tem normalmente quatro ou cinco metros, por quatro ou cinco. Claro que os atores podem, em um determinado momento, ficarem todos em linha reta de frente para o público…  mas esse é um pobre aproveitamento do Espaço. Esses momentos não podem ser majoritários.

 

  1. Quando cada ator faz uma coisa diferente é lógico que se perca muitos detalhes porque não se pode tudo ver ao mesmo tempo. Os Curingas devem alternar: pode todo o elenco fazer a mesma coisa durante um certo tempo; podem-se formar grupos de dois ou de três, e cada grupo fazer uma coisa diferente. O que se perde é quando todo o elenco durante muito tempo faz, cada um, uma coisa diferente. Fazerem todos tudo igual o tempo todo pode ser monótono; fazer cada um a sua coisa, pode ser confuso.

 

  1. os Curingas devem pedir, durante os ensaios, que cada ator faça isoladamente todos os seus movimentos para que os possa observar, e para que os atores tomem consciência de que são importantes para o conjunto. Acontece que alguns atores pensam que, como são muitos em cena, a responsabilidade individual diminui. É exatamente o contrário: aumenta.”

Augusto Boal

 

 

8º Oprima – Encontro do Teatro do Oprimido e Ativismo: da potência do teatro político na luta contra o fascismo

            Iniciado há oito anos por iniciativa de coletivos de Teatro do Oprimido de Portugal, que tem por afinidade o trabalho com Teatro do Oprimido como meio de investigação da sociedade, formação, organização e luta, em 2018 foi a primeira vez que o evento foi realizado em uma cidade espanhola.

             Em Madrid funciona, no bairro Lavapiés, a Escola de Artes La Tortuga, em que são ofertados diversas modalidades de cursos, de um amplo leque de linguagens artísticas, sendo o teatro o principal eixo de trabalho. Organizado de forma colaborativa, os anfitriões se encarregam de hospedar as pessoas que vem de Portugal, Espanha e do Brasil em suas casas, e organizam a comida com revezamento de equipes, no La Tortuga, e cada participante colabora com uma taxa de inscrição e outra para bancar os custos da comida durante todos os dias do evento.

          O público do evento é composto pelos integrantes dos grupos de Teatro do Oprimido portugueses e espanhóis, por militantes de movimentos sociais, sindicais e estudantes de artes cênicas interessados em aprofundar suas pesquisas sobre teatro.

            A programação do encontro parte de um método de oficinas e cursos de, no máximo, quatro turnos, em dois dias, para que muitas experiências sejam compartilhadas e que os oficineiros possam também participar como estudantes de outras ações formativas. Para a oitava edição do encontro foram organizadas as seguintes oficinas: Teatro e Sindicalismo, com um grupo de Teatro do Sindicato Anarquista CNT; “No solo duelen los golpes” com a escritora e militante feminista Pamela Palenciano; Dramaturgia Dialética com Sérgio de Carvalho, diretor da Cia do Latão e professor da Universidade de São Paulo; Teatro e Militância, com Rafael Villas Bôas, professor da Universidade de Brasília e coordenador do Coletivo Terra em Cena; Antígona e o Poder, com Deyanira Schurjin, professora da Escola La Tortuga; Dialética do Desejo, com o deputado federal português do Bloco de Esquerda e curinga de Teatro do Oprimido José Soeiro.

                  Além das oficinas, pela parte das noites ocorreram mesas de debates e rodas de conversa sobre os seguintes temas: Teatro do Oprimido e Militância;  Gênero, Migração e Precariedade; e Colonialismo, Racismo, experiências de opressão e resistência. E foram apresentadas as peças “Hotel Exploração” do Coletivo Las Kellys formado por camareiras do setor hoteleiro de Madrid; uma cena de Teatro Fórum do coletivo português Tartaruga Falante, sobre assédio sexual no metrô, a peça do coletivo Trabalho Doméstico do coletivo de trabalhadoras domésticas formado por trabalhadoras migrantes que vivem na Espanha, e foram exibidos em vídeo trechos da peça “Maria 28” do coletivo Peles negras, máscaras negras” formado por filhos de cabo verdianos que vivem na periferia de Lisboa, a capital portuguesa.

            A abertura do encontro foi realizada com uma apresentação e debate sobre a experiência da cultura política de resistência construída pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra no decorrer de seus trinta e quatro anos de existência, feita pelo professor Rafael Villas Bôas, que é também integrante da Brigada Nacional de Teatro do MST, criada a partir de processo formativo que ocorreu entre 2001 e 2005 desenvolvido por Augusto Boal e curingas do Centro do Teatro do Oprimido do Rio de Janeiro.

         Do ponto de vista da promoção de espaços de intercâmbio entre diversos segmentos organizados de trabalhadoras e trabalhadores que fazem uso do Teatro do Oprimido como ferramenta de formação, organização social e luta política o evento foi notável. O interesse vívido do encontro pelo entendimento de diversas formas organizativas de segmentos de trabalhadoras, que compreendeu um amplo arco, desde os trabalhadores sem terra brasileiros, até as camareiras do setor hoteleiro e as trabalhadoras domésticas migrantes que vivem em Madrid, fez com que diversos temas como as marcas do processo colonial, da escravidão e do racismo, além das  consequências do sistema patriarcal e do avanço da luta feminista fossem debatidos de maneira articulada e interna aos desafios de cada segmento e país, e não apenas de forma abstrata. Esse ponto de partida objetivo expôs, em diversos momentos, os desafios atuais para a organização da classe trabalhadora, e deixou evidente a dificuldade de organizações partidárias e sindicais para se aproximar de debates como os que foram ali pautados e desenvolvidos em mesas e em processos de oficina teatral.

           A conjuntura marcada pelo retrocesso político em nossos países foi demarcada não apenas nos debates e nas oficinas, apareceu também nas ações de rua que fizemos. Em uma intervenção de Teatro Imagem em que utilizamos a água que corria abaixo da estátua de Tirso de Molina – na praça que leva o mesmo nome em homenagem ao dramaturgo – parte do elenco deitou ao lado da água como se estivesse caída à beira mar, representando corpos de imigrantes mortos nas tentativas de travessia, e passando por cima deles estavam turistas felizes carregando suas malas, se desviando dos cadáveres e da realidade indigesta da desigualdade do capitalismo, em busca do direito ao prazer. Carregavam na testa faixas em que se podia ler “Cruzeiros”. A Europa como continente turístico contraposta à miragem dos migrantes que buscam ali não o prazer e o turismo mas uma alternativa mínima de sobrevivência. Uma imagem simbolicamente forte, que mobilizou o olhar de todos os que passavam pela praça.

           O que não esperávamos eram reações explosivas movidas pelo fascismo e pela xenofobia, contra a cena mas, sobretudo, dirigida à pessoas da oficina que faziam a ressonância invisível conversando com as pessoas que passavam. Uma mulher branca, loira, muito alta e forte, explodiu contra Maria, uma integrante do grupo Madalenas de Sevilha: de que país você é?! Perguntou a mulher, e Maria, que é espanhola de Sevilha, respondeu ser da Argentina. Daí por diante a agressividade aumentou e quase chegou às vias de fato: a mulher, seguida depois por um homem branco alto, que passava com a filha, descontava nos migrantes o sentimento de frustação pela crise social por que passam todos. Como se a culpa fosse dos migrantes, como se fossem invasores do bem estar social europeu a lhes causar dificuldades econômicas e políticas. Ficamos todos bastante impactados ao nos deparar com a veemência do sentimento fascista se manifestando, sem pudor, em praça pública.

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         Porque foi o apoio popular aguerrido e violento como esse que fez com que, na Itália e na Alemanha, surgissem as milícias populares para confrontar “os inimigos do país”. E, como sabemos, no caso alemão, milícias como as freikorps se tornaram posteriormente as temidas SS nazistas quando o nacional-socialismo de Hitler ascendeu ao poder.

       No encontro, portanto, foram debatidos os temas da agenda anti-capitalista de acordo com a maneira como são enfrentados pelos segmentos que estão se organizando para combate-los: os sem terra brasileiros que fazem luta e arte para enfrentar o avanço devastador do agronegócio que conta com toda a força da indústria cultural, as camareiras de Madrid que resistem cotidianamente ao aumento da super-exploração da força de trabalho, manifesto em mais quartos a arrumar, por menos tempo, e com menos mulheres contratadas; as trabalhadoras migrantes domésticas, desamparadas pela lei, submetidas à invisibilidade e precariedade; a luta de todos os não brancos, suspeitos de sempre por conta de suas diferenças, sejam elas étnicas, religiosas, de aparência.

              O interesse vivo pelos contextos de origem e pela força atual das formas do teatro político, pela origem soviética, ou alemã, de estruturas estéticas posteriormente organizadas por Augusto Boal na linguagem do Teatro do Oprimido fez com que o trabalho das oficinas articulassem, sem dicotomias, sem maniqueísmos e preconceitos estabelecidos, o teatro de agitação e propaganda, o teatro épico, o teatro dialético e o teatro do oprimido, de maneira didática e produtiva, facilitando aos participantes tanto a compreensão teórica e histórica quanto o domínio técnico de métodos, de exercícios cênicos e de procedimentos de direção que certamente serão de grande utilidade para todos nós em tempos de acirramento do fascismo em nossos países e de necessidade de fortalecimento da luta anti-capitalista.

           Por fim, cabe ressaltar a semelhança do Centro de Investigação Cultural La Tortuga, em seus objetivos e dinâmica de atuação, com a Rede de Escolas de Teatro e Vídeo Político Popular Nuestra América, que reúne até o momento as Escolas de Teatro Político de Buenos Aires, a Escola de Teatro Popular do Rio de Janeiro, a Escola de Teatro Político e Vídeo Popular do Distrito Federal, a Escola de Teatro Político de Florianópolis e a Escola de Teatro Político de São Paulo. Os coletivos de teatro político e vídeo popular, articulados aos movimentos sociais de massa, aos sindicatos que não descartaram a formação e a organização popular, e a grupos de pesquisa que atuam sobre a agenda de esquerda nas universidades (luta de classes articulada à luta anti-patriarcal, anti-racista e decolonial) estão à recolocar em pauta iniciativas de articulação mais permanentes do que as tradicionais oficinas episódicas e efêmeras, e a reconstruir – em contexto de retrocesso da democracia liberal burguesa – os termos da práxis leninista, que considerava fortemente as articulações entre arte, política e formação a partir da premissa da agitação e propaganda soviética: informar, formar e organizar.

Rafael Villas Bôas

Professor da UnB, do Coletivo Terra em Cena

e da Escola de Teatro Político e Vídeo Popular do DF

 

Wellington Oliveira

Professor da Secretaria de Educação do DF

Pesquisador do Terra em Cena

e doutorando em Educação Artística pela Universidade do Porto