Crítica de Izaias Almada à peça “Grajáu conta Dandaras, Grajaú conta Zumbis” da Cia. Humbalada

SOBRE DANDARAS E ZUMBIS

Izaías Almada

À Cia Humbalada de Teatro

 

Salve Zumbi dos Palmares! Dunga tará sinherê! Meu irmão de Andalaquituche, de Dambrabanga, do Grajaú. Companheiras Dandaras, companheiros Zumbis ou Zombies. Salve!

Passada uma semana após ter assistido ao espetáculo “Grajaú conta Dandaras e Zumbis”, os ecos de uma noite inesquecível e difícil ainda estão presentes na minha memória.

Inesquecível por presenciar um magnífico trabalho de teatro e difícil por ter de digerir a porrada na cara não só minha ou de minha companheira Bernadette, mas por perceber o grau de hipocrisia e de filhadaputice do Brasil atual, onde a cidade e o Estado de São Paulo lideram aquele que é um dos momentos mais tristes da vida política brasileira.

O lancinante grito de revolta do Grajaú e bairros vizinhos representa o grito de milhões de brasileiros que tentam arrancar do mais fundo de seus corações e de suas almas, algum resto de amor e felicidade, esses sentimentos capturados por um sistema econômico perverso, vil, preconceituoso, racista, machista, homofóbico e tantos outros adjetivos que escancaram para o mundo um país que, parece, finalmente conseguiu encontrar a sua vocação através de uma elite gananciosa, predadora e ainda escravocrata, para dizer o menos.

O conjunto de cenas que vão surgindo e tomando a atenção de cada um de nós espectadores, onde o dia a dia do Grajaú (leia-se Brasil) é visto e ampliado com as lentes dos que procuram por justiça social, igualdade de oportunidades, de direitos, por paz e felicidade, é arrebatador e não deixa a menor dúvida sobre o país em que vivemos. Um país onde a mercadoria mais valiosa é a hipocrisia.

Mães que perdem seus filhos ainda meninos, machões que se embebedam após o futebol, homossexuais caçados e humilhados pelas ruas, travestis que lutam desesperadamente para terem reconhecida a sua condição de seres humanos, negros que embora livres, ainda têm que gritar contra o preconceito e lutar por sua liberdade como Zumbi dos Palmares.

Sentado numa bancada móvel que mudava de posição consoante às cenas que eram apresentadas, embora desperto por fortes emoções, não conseguia de libertar do pensamento e de alguma reflexão sobre o momento em que vivemos, atitude em consonância com o lado épico do espetáculo, sobretudo pela provocação de uma igreja evangélica que se instalou ao lado do teatro, com seus característicos ruídos daquilo a que chamam de “pregação do evangelho”.

Mas o som que vinha das cenas, cantados ou não, abafavam a pregação do demônio, desculpem, a pregação do evangelho.

Cenas que para além da sua acutilante crítica aos valores da sociedade preconceituosa do Brasil de 2016, faziam evocações e, entre elas, uma homenagem ao teatro de Arena dos anos 60 e sua citação ao musical “Arena Conta Zumbi” de Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri.

Ali estava o Humbalada a “contar e cantar” o Taboão e adjacências, percorrendo ruas próximas ao teatro antes e depois da apresentação, integrando-se ao entorno e chamando para si a participação de seus habitantes.

O público, que lotou todas as apresentações do espetáculo, parecia hipnotizado pela enxurrada de palavras e cantos, sons e gestos, que eram vomitados para descarregar o acúmulo de injustiças e perversidades que sofrem os habitantes da periferia de São Paulo, igual a tantas outra periferias de um Brasil aprisionado por uma emissora de televisão, dois ou três jornais, uma polícia ignorante e selvagem, uma internet que liberou o fascismo caboclo e uma intelectualidade desnorteada à procura de uma explicação para aquilo que fugiu aos seus modelos de democracia representativa, sem que sequer tenhamos experimentado a democracia participativa.

Dandaras e Zumbis do Grajaú, vocês estão de parabéns pelo belo espetáculo apresentado, pela coragem de apresentá-lo e pela conexão eterna do homem com a sua vontade de ser livre.

 

 

Programa da Feira Latinoamericana de Opinião (1971)

Em 1971, durante uma viagem aos Estados Unidos, Augusto Boal cria a Feira Latinoamericana de Opinião, ampliando e desdobrando a ideia da Feira Paulista de 1968 , um evento, mais que um  espetaculo , que marcou a sua época pela coragem e ousadia de todos os participantes , incluindo o público que acompanhava solidario essa arrojada ação do Teatro Arena .

Nesta nova Feira, a Latinoamericana, Boal incorpora uma nova dimensão, as mesas de debates , para discutir questões tais  como: “Teatro e revolução… que revolução?” , “Teatro nas prisões”, “O papel das Igrejas na transformação da sociedade”, “As relações entre Estados Unidos e Brasil” e “Porque o Chile é diferente?” com relevantes personalidades da época.

Segue na íntegra o programa da Feira, dirigida por Boal e produzida por  TOLA (Theater of Latin America).

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Entre dos tempestades: Boal dialoga con Shakespeare

 

Texto de

José Ramón Fabelo Corzo

Pesquisador do Instituto de Filosofia de Havana e professor-pesquisador do Mestrado em Estética e Arte na Faculdade de Filosofia e Letras na Universidade de Puebla – México.

Ana Lucero López Troncoso

Professora da Faculdade de Arte Dramática da Universidade de Puebla – México.

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Aula do Seminário de Dramaturgia de 1966

Aula de 11/3/1966

O elemento essencial do teatro é o espetáculo de uma vontade livre, consciente dos meios que emprega para atingir um determinado objetivo, sendo que essa vontade conflitua com vontades antagônicas.

O que é liberdade? Essa definição se baseia nos estudos Hegel (Poética), onde ele já coloca o mesmo problema. Acrescenta que não se refere ao tipo de liberdade que não é a liberdade do cerceamento físico do personagem, quer dizer, o personagem pode ser livre mesmo em condições de sua liberdade física. É uma liberdade espiritual.

Dois exemplos: na possibilidade do personagem exteriorizar os movimentos de sua alma. Prometeus está acorrentado e não pode fazer nada. É o exemplo mais grave de prisão e no entanto, o personagem é livre porque pode dizer não a Zeus, tem a liberdade de se negar. Na medida em que tem liberdade de dizer, não pode ser um prisioneiro.

Segundo exemplo: Personagem de um quadro de Murillo, esse que aparece batendo no menino porque está comendo uma banana, mas, enquanto apanha, o menino manifesta desejo de comer a banana. É mais fraco do que a mãe e portanto está prisioneiro do outro personagem, mas é livre porque manifesta exteriormente a sua vontade. É exteriormente e dentro de certas medidas. Pode manifestar-se em termos de volição.

Não se refer e só a isto, mas faz uma gradação, uma violação, e já entra num terreno mais perigoso. Fala que certamente o personagem livre é aquele que manifesta sua vontade para o mundo objetivo, mas, ao mesmo tempo, é necessário que este personagem não esteja internamente, ou melhor, não tenha posto na sua cabeça certos objetivos interiorizados ou certos valores do mundo exterior.

Exemplo o personagem dramático por excelência, livre por excelência, que, além de poder manifestar livremente sua vontade, ele detém em si mesmo todos os poderes: o poder judiciário, por exemplo. Exemplo: o príncipe medieval desejando matar alguém que não tem que temer nenhuma pena que poderia existir fora dele. Ele é um homem que detém em si todo o poder. Decide nos três poderes. Este personagem não só é livre porém também não encontra fora de si nenhum obstáculo que não seja obstáculo ético, pois o único poder que não detém é o da liberdade ética. A moral que não depende dos homens.

Ia além: na medida em que a sociedade evoluía, ela ia incorporando costumes, hábitos, tradições, leis e nuances de lei, como se fosse sedimentado. Por exemplo: a sociedade Século XV tinha mais do que a do Século X, esta mais do que o século V, etc. Acrescentava tantas filigramas de lei, etc., que com o desenvolvimento da civilização haveria de chegar um momento em que um personagem de teatro seria impraticável, porque não haveria mais liberdade do personagem, pois estaria preso a todos estes hábitos, costumes, etc. Aos poucos vai se complicando mais a vida social que os seres ficarão confusos e presos.

Então o conceito de liberdade dele era este, isto é, o personagem é livre na medida em que se manifesta exteriormente.

O personagem teatral não é um ser humano que exerce as vontade particulares; é um personagem cuja vontade se identifica com algo universal. Por exemplo: Créon não é aquele particularmente que deseja não enterrar um dos irmãos de Antígone. A vontade se insere num universal que é a prioridade da lei do estado sobre a de família. Na medida em que ele se insere neste universal, tem uma necessidade de ação que não é capricho…

Na lei de Brunetière, ele fala uma coisa que o conflito é fundamental; o conflito de uma vontade consciente dos meios que emprega para atingir seu objetivo. O personagem deve saber quais os meios que emprega. Algumas peças talvez fugissem a essa regra, apesar de serem peças de teatro, apesar de serem inquestionavelmente peças de teatro. Archer tenta refutar a lei do conflito.

Exemplos: Otelo e Édipo. O primeiro é o personagem que já está enredado e que não está consciente de seus meios, ignora uma coisa – que Desdêmona é inocente. Édipo é ainda mais, porque quer descobrir o assassino de Laio, quando começa a peça já aconteceram todos os fatos que poderia dar o conflito. Quando começa a peça não há conflito possível. Se ele está pagando os pecados do pai, se eles está em luta contra Zeus. Ainda isto, o conflito entre ele e os deuses na peça e ele Édipo está numa armadilha. Então, segunda Archer, aqui não haveria conflito de vontades.

Romeu e Julieta é peça ou não? É bom teatro ou não. Qual o conflito entre Romeu e Julieta? William Archer coloca essas três peças como negação da teoria de Brunetière. Então, onde está o conflito de vontades conscientes? Essas peças negariam a validade dessa lei?

RESPOSTA: O conflito entre Romeu e Julieta não é entre eles mas sim entre os demais elementos da peça. Todos os tipos de conflito se encontram.

Monólogo é teatro? “Ser ou não ser” é teatro. Claro. Desde o começo. Monólogo não é uma peça, mas ele é teatral na medida em que tiver um conflito que não é entre um personagem e outro mas sim entre uma vontade e outra conta-vontade desse mesmo personagem. Há duas vontades antagônicas no mesmo personagem. Essa característica de conflito vale independentemente tanta para obras-primas como para peças ruins, como “As mãos de Eurídice”. É o personagem único criando conflitos o tempo todo. Mas essa peça é teatral.

Em Édipo ele tem uma vontade definida: ele quer saber quem matou Laio. Esta é sua meta- Quer punir o assassino. Não é consciente que o criminoso é ele mesmo. Mas ele é consciente dos meios que emprega para saber quem foi. A tragédia só se move porque há uma sequência de conflitos entre ele e Tirésias, por exemplo. A cena é teatral porque há um conflito de vontades. A peça existe porque há um conflito. O conflito seria entre ele e Deus, mas Tirésias é um preposto de Deus.

O caso de Otelo: ele sabe o que quer: ele quer matar Desdêmona, porque pensa que ela o traiu, por isso quer matá-la. Está consciente dos meios que emprega para matar Desdêmona e luta contra diversos obstáculos. Na primeira cena do terceiro ato a cena entre Otelo e Iago, um tentando convencer o outro que está errado.

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