«América Latina»: ¿al servicio de la colonización o de la descolonización?

Texto de

José Ramón Fabelo Corzo

Pesquisador do Instituto de Filosofia de Havana e professor-pesquisador do Mestrado em Estética e Arte na Faculdade de Filosofia e Letras na Universidade de Puebla – México.

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Entre dos tempestades: Boal dialoga con Shakespeare

 

Texto de

José Ramón Fabelo Corzo

Pesquisador do Instituto de Filosofia de Havana e professor-pesquisador do Mestrado em Estética e Arte na Faculdade de Filosofia e Letras na Universidade de Puebla – México.

Ana Lucero López Troncoso

Professora da Faculdade de Arte Dramática da Universidade de Puebla – México.

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Aula do Seminário de Dramaturgia de 1966

Aula de 11/3/1966

O elemento essencial do teatro é o espetáculo de uma vontade livre, consciente dos meios que emprega para atingir um determinado objetivo, sendo que essa vontade conflitua com vontades antagônicas.

O que é liberdade? Essa definição se baseia nos estudos Hegel (Poética), onde ele já coloca o mesmo problema. Acrescenta que não se refere ao tipo de liberdade que não é a liberdade do cerceamento físico do personagem, quer dizer, o personagem pode ser livre mesmo em condições de sua liberdade física. É uma liberdade espiritual.

Dois exemplos: na possibilidade do personagem exteriorizar os movimentos de sua alma. Prometeus está acorrentado e não pode fazer nada. É o exemplo mais grave de prisão e no entanto, o personagem é livre porque pode dizer não a Zeus, tem a liberdade de se negar. Na medida em que tem liberdade de dizer, não pode ser um prisioneiro.

Segundo exemplo: Personagem de um quadro de Murillo, esse que aparece batendo no menino porque está comendo uma banana, mas, enquanto apanha, o menino manifesta desejo de comer a banana. É mais fraco do que a mãe e portanto está prisioneiro do outro personagem, mas é livre porque manifesta exteriormente a sua vontade. É exteriormente e dentro de certas medidas. Pode manifestar-se em termos de volição.

Não se refer e só a isto, mas faz uma gradação, uma violação, e já entra num terreno mais perigoso. Fala que certamente o personagem livre é aquele que manifesta sua vontade para o mundo objetivo, mas, ao mesmo tempo, é necessário que este personagem não esteja internamente, ou melhor, não tenha posto na sua cabeça certos objetivos interiorizados ou certos valores do mundo exterior.

Exemplo o personagem dramático por excelência, livre por excelência, que, além de poder manifestar livremente sua vontade, ele detém em si mesmo todos os poderes: o poder judiciário, por exemplo. Exemplo: o príncipe medieval desejando matar alguém que não tem que temer nenhuma pena que poderia existir fora dele. Ele é um homem que detém em si todo o poder. Decide nos três poderes. Este personagem não só é livre porém também não encontra fora de si nenhum obstáculo que não seja obstáculo ético, pois o único poder que não detém é o da liberdade ética. A moral que não depende dos homens.

Ia além: na medida em que a sociedade evoluía, ela ia incorporando costumes, hábitos, tradições, leis e nuances de lei, como se fosse sedimentado. Por exemplo: a sociedade Século XV tinha mais do que a do Século X, esta mais do que o século V, etc. Acrescentava tantas filigramas de lei, etc., que com o desenvolvimento da civilização haveria de chegar um momento em que um personagem de teatro seria impraticável, porque não haveria mais liberdade do personagem, pois estaria preso a todos estes hábitos, costumes, etc. Aos poucos vai se complicando mais a vida social que os seres ficarão confusos e presos.

Então o conceito de liberdade dele era este, isto é, o personagem é livre na medida em que se manifesta exteriormente.

O personagem teatral não é um ser humano que exerce as vontade particulares; é um personagem cuja vontade se identifica com algo universal. Por exemplo: Créon não é aquele particularmente que deseja não enterrar um dos irmãos de Antígone. A vontade se insere num universal que é a prioridade da lei do estado sobre a de família. Na medida em que ele se insere neste universal, tem uma necessidade de ação que não é capricho…

Na lei de Brunetière, ele fala uma coisa que o conflito é fundamental; o conflito de uma vontade consciente dos meios que emprega para atingir seu objetivo. O personagem deve saber quais os meios que emprega. Algumas peças talvez fugissem a essa regra, apesar de serem peças de teatro, apesar de serem inquestionavelmente peças de teatro. Archer tenta refutar a lei do conflito.

Exemplos: Otelo e Édipo. O primeiro é o personagem que já está enredado e que não está consciente de seus meios, ignora uma coisa – que Desdêmona é inocente. Édipo é ainda mais, porque quer descobrir o assassino de Laio, quando começa a peça já aconteceram todos os fatos que poderia dar o conflito. Quando começa a peça não há conflito possível. Se ele está pagando os pecados do pai, se eles está em luta contra Zeus. Ainda isto, o conflito entre ele e os deuses na peça e ele Édipo está numa armadilha. Então, segunda Archer, aqui não haveria conflito de vontades.

Romeu e Julieta é peça ou não? É bom teatro ou não. Qual o conflito entre Romeu e Julieta? William Archer coloca essas três peças como negação da teoria de Brunetière. Então, onde está o conflito de vontades conscientes? Essas peças negariam a validade dessa lei?

RESPOSTA: O conflito entre Romeu e Julieta não é entre eles mas sim entre os demais elementos da peça. Todos os tipos de conflito se encontram.

Monólogo é teatro? “Ser ou não ser” é teatro. Claro. Desde o começo. Monólogo não é uma peça, mas ele é teatral na medida em que tiver um conflito que não é entre um personagem e outro mas sim entre uma vontade e outra conta-vontade desse mesmo personagem. Há duas vontades antagônicas no mesmo personagem. Essa característica de conflito vale independentemente tanta para obras-primas como para peças ruins, como “As mãos de Eurídice”. É o personagem único criando conflitos o tempo todo. Mas essa peça é teatral.

Em Édipo ele tem uma vontade definida: ele quer saber quem matou Laio. Esta é sua meta- Quer punir o assassino. Não é consciente que o criminoso é ele mesmo. Mas ele é consciente dos meios que emprega para saber quem foi. A tragédia só se move porque há uma sequência de conflitos entre ele e Tirésias, por exemplo. A cena é teatral porque há um conflito de vontades. A peça existe porque há um conflito. O conflito seria entre ele e Deus, mas Tirésias é um preposto de Deus.

O caso de Otelo: ele sabe o que quer: ele quer matar Desdêmona, porque pensa que ela o traiu, por isso quer matá-la. Está consciente dos meios que emprega para matar Desdêmona e luta contra diversos obstáculos. Na primeira cena do terceiro ato a cena entre Otelo e Iago, um tentando convencer o outro que está errado.

dramaturgia-3ra-aula-11_03_1966

 

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AUTORIZACÃO DE USO DE IMAGEM PARA BANCO DE DADOS DIGITAL

Queremos comunicar com muito orgulho e satisfação que estamos na fase final da digitalização de uma parte considerável do acervo de Augusto Boal.

Estes documentos serão disponibilizados de forma  inteiramente gratuita num plataforma digital na internet.
Para isso isso precisamos da colaboração de todos e solicitamos aos atores do Teatro Arena de São Paulo que trabalharam com Boal nos anos 60/70 ou aos seus herdeiros que nos enviem uma autorização de uso de imagem segundo o modelo que segue:

TERMO DE AUTORIZAÇÃO DE USO DE IMAGEM E VOZ

Pelo presente instrumento, eu, ( nome completo), abaixo qualificado e assinado, AUTORIZO o Instituto Augusto Boal, organização sem fins lucrativos com sede na Cidade do Rio de Janeiro, RJ, na Rua Francisco Otaviano, 185/41, Copacabana, CEP 22080-040, inscrita no CNPJ sob nº 13.069.431/0001-56, doravante denominada simplesmente “IAB”, de forma inteiramente gratuita, a título universal, em caráter definitivo, irrevogável e irretratável, a utilizar a minha imagem e voz, registradas em atividades realizadas no Teatro Arena de São Paulo , seja através de fotos, gravações de áudio, ou audiovisuais, com o objetivo de disponibilizar tais documentos em banco de dados digital, a ser disponibilizado gratuitamente no site do IAB na internet, ou em outro website por ele indicado, no Brasil e/ou exterior, com o intuito de disponibilizar o acesso ao acervo Augusto Boal aberto ao público, para que a sua obra se mantenha viva, acessível e em uso, facilitando a pesquisa assim como a aplicação das suas técnicas.

Por esta ser a expressão da minha vontade, declaro que autorizo o uso acima descrito sem que nada haja a ser reclamado a título de direitos conexos à minha imagem ou a qualquer outro, e assino a presente autorização em 02 vias de igual teor e forma.

O instrumento é firmado em caráter irrevogável e irretratável, ficando eleito o foro da Comarca da capital do Rio de Janeiro para dirimir quaisquer dúvidas oriundas deste Termo.

Lugar e data
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 Nome:
Identidade:
CPF:
Endereço:
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Testemunha 1:
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Testemunha 2:
Queremos aproveitar esta ocasião para agradecer mais uma vez à equipe encabeçada pela historiadora Celia Leite Costa que com tanto cuidado e dedicação realizam esta delicada tarefa.
Celia, Charlyne, Anita, Thais, muito obrigada!

 

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A Fábrica de Teatro Popular

Em 2017 se cumprem os 30 anos do belo projeto que nos trouxe de volta ao Brasil.

Por iniciativa de Darcy Ribeiro, um gênio, apaixonado e visionário, Boal, outro homem genial e apaixonado, veio trabalhar nos CIEPS, a genial invenção de Darcy. Não acho outra forma para descreve-los.

Era impressionante ver os dois juntos, delirando, inventando, sonhando alto, dois


furacões, duas tsunamis em ação. Faz bem à alma no meio de tanta, tanta, tanta mediocridade!!!!!

Fruto dos generosos delírios uma ideia: a Fábrica de Teatro Popular.

Animadores animados, usando teatro para discutir cidadania, para discutir direitos, igualdade.

Eucanãa, Silvia, Valéria,  Luiz Vaz, Luiz Boal, Rosa Luisa de Puerto Rico, Maria Libia, Noni, Claudete, Boal e eu.

Nos Cieps das periferias apresentado as nossas peças para o debate, debates que terminavam sempre com um farto lanche oferecido pelas experientes cozinheiras.

Saudades daquele tempo !! Como é possível que Darcy tenha perdido essa eleição?

No lugar de Darcy, Moreira Franco. No lugar dos Cieps:  escola integral, com as suas mães sociais, suas bibliotecas, seus animadores culturais, escolas sucateadas.

Temos que aprender a cuidar melhor o que temos, a cuidar melhor dos brasileiros como Boal e Darcy porque são únicos, são nossos e são excepcionais.

 

 

 

 

 

 

 

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Homenagem à burocracia – Do baú do Boal

HOMENAGEM À BUROCRACIA

Cena Teatro-Fórum de Augusto Boal, em louvor à Burocracia, sem data atribuída.

Um casal passeia no jardim de sonho.

ELE – Que jardim tão lindo, cheio de flores.

ELA – Olha aquele menino andando de bicicleta – ele parece tão feliz e contente, vestido de azul.

ELE – E a menina brincando de boneca. Que gracinha, toda vestida de cor de rosa.

ELA – Olha aqueles namorados… Como eles se amam…

ELE _ E aquela velhinha fazendo tricô… Que gracinha…

ELA – E aquele vovôzinho, lendo jornal com lupa e binóculo. ELE – Que bonito…

ELA – Ele lê todos os dias todos os jornais.

ELE – E vê todos os noticiários de televisão.

ELA – E sabe de cor o número de mortos na guerra do Iraque, na Faixa de Gaza.

ELE – E no Morro do Alemão.

ELA – Isso sim, é saber viver até o fim.

ELE – Tudo tão perfeito. Todo mundo tão feliz.

ELA – E a grama tão verde, tão fresquinha… O orvalho vem caindo e ela fica mais verde ainda.

ELE – É proibido pisar na grama, você sabia?

ELA – Claro que sei. Proibidíssimo.

ELE – Mas aquele bebê está pisando, amassando a grama… É proibido, mas ele não sabe.

ELA – Ele não está pisando: está engatinhando.

ELE – É a mesma coisa. A lei proíbe pisar pra proteger a grama, entendeu? O bebê está fora da lei.

ELA – Claro que não. O bebê não conhece a lei…

ELE – Eu sou estudante de Direito e sei muito bem que nenhum cidadão pode alegar ignorância da lei. O bebê existe, logo é um cidadão. Como tal, tem que se comportar como qualquer cidadão. O que o bebê está fazendo é uma transgressão á lei. Desobediência civil.

ELA – Não vamos brigar. Tudo estava indo tão bem.

ELE – Vamos continuar olhando as coisas bonitas que acontecem aqui neste parque.

ELA – Por exemplo…

ELE – Por exemplo, o quê?

ELA – Aquele cachorro. Qual é a marca daquele cachorro?

ELE – Não é marca, é raça.

ELA – Mesmo assim, qual é?

ELE – Pitbull.

ELA – Olha que boca grande ele tem, não é mesmo?

ELE – Olha os dentes.

ELA – Olha a cara de mau!

ELE – É feroz.

ELA – Mata?

ELE – Estraçalha.

ELA – Olha: ele também está pisando na grama. Isso também é desobediência civil!

ELE – Viu? O bebê deu o mau exemplo, agora todo mundo pensa que tem o direito de pisar na grama.

ELA – Ele está se aproximando do bebê.

ELE – Cada vez mais perto.

ELA – Engraçado: ele está sem focinheira.

ELE – E de boca aberta.

ELA – Vai lá salvar o menino, vai!!!

ELE – Se eu for, o Pitbull vai me comer. Ele está sem focinheira.

ELA – Como é que esse cachorro tem coragem de ameaçar o menino?

ELE – Porque ele está seguro da impunidade! Aqui é assim mesmo!

ELA – Toma esse pau. (Dá-lhe um pedaço de pau que estava no chão). Dá na cabeça do cachorro.

ELE – Mas é proibido pisar na grama. É proibido matar cachorro, mesmo sem focinheira.

ELA – É uma emergência! Vai, vai!!!

ELE – Olha que eu vou.

ELA – Vai.

ELE – Eu vou!

ELA – Vai!

ELE – Estou indo.

ELA – Depressa! (Começa a andar devagar na direção de onde se supõe que esteja o bebê e o pitbull. Ouve-se um apito. Aparece um guarda).

OMEÇA A ANDAR DEVAGAR NA DIREÇÃO DE ONDE SE SUPÕE QUE ESTEJA O BEBÊ E O PITBILL. OUVE-SE UM APITO. APARECE UM GUARDA).

GUARDA – Onde é que você pensa que vai?

ELE – Vou salvar uma vida humana.

GUARDA – É proibido.

ELA – Salvar bebê é proibido?!?!?

GUARDA – Não: pisar na grama.

ELA – Mas é uma emergência.

GUARDA – Se é uma emergência ou não, quem decide é a Instância Superior!

Ele – Qual?

GUARDA – A Secretaria de Gramas e Flores Exóticas.

ELE – Então, pede licença à Secretaria de Gramas e Flores Exóticas. Onde ela fica?

GUARDA – É na rua tal número qual. Só eles podem autorizar.

ELA – Mas o cachorro já mordeu o pé do bebê.

GUARDA – Esse é um outro problema: eu aqui estou cumprindo a minha missão, o meu dever. Tenho que fiscalizar, fiscalizo e pronto. Tenho que cumprir com a minha missão.

ELE – Eu quero salvar o bebê.

GUARDA – Mas eu tenho primeiro que salvar a minha pele. Se eu autorizo uma ilegalidade, quem paga depois sou eu!

ELA – O cachorro já comeu o pé do menino e está mordendo a perna: vai correndo buscar a autorização.

ELE – Eu vou. (Entra a funcionária) – É aqui a Secretaria de Grama e Flores Exóticas?

FUNCIONÁRIA – Aqui mesmo. Mas agora é hora do almoço e eu estou ainda no aperitivo.

ELE – Pelo amor de Deus: eu preciso de uma Autorização Especial para Pisar na Grama.

FUNCIONÁRIA – Tem receita médica?

ELE – É um bebê que está sendo comido por um cachorro no parque, e o cachorro não tem focinheira.

FUNCIONÁRIA – Identidade do cachorro, tem?

ELE – Eu sei lá!

FUN – Então o senhor tem que ir primeiro à Secretaria de Animais Sem Focinheira. Não é aqui, não.

ELE – Mas por quê???

FUNC – Procure me entender: quem está fora da lei, em primeiro lugar, é o cachorro, não é o senhor. Por isso, temos que abrir um processo contra o cachorro, porque assim manda a burocracia, e, se ficar provado que o cachorro tem dono, o dono também vai ser arrolado como testemunha.

ELE – Mas, pelo amor de Deus, me dê algum documento pra eu mostrar pro guarda.

FUN – Olha aqui: como eu tenho muito boa vontade, mas não posso me comprometer, – eu estou cumprindo com a minha obrigação, entende?, porque se não quem paga depois sou eu – eu vou lhe dar uma Petição, provisória, autorizando o senhor a pisar na grama, desde que o senhor se ofereça como garantia de que o cachorro, se não ficar provada a sua inocência, será obrigado a devolver todos os pedaços da perna do bebê já mastigados.

ELE – Prometo e me comprometo, juro e re-juro, mas me dê aqui essa Autorização provisória.

Fun – Que pressa é essa?

Ele – (Quase chorando) – É o menino vestido de azul… ele não gosta de cachorro…

FUN – Calma: falta o carimbo. Falta assinatura. Falta reconhecer a firma.

ELE – Do cachorro?

FUN – Não, a minha.

ELE – A senhora não reconhece a sua firma?

FUNC – Leve assim mesmo, pode ser que o Guarda tenha piedade do senhor. Tome. Leve. (Ele sai correndo)

ELE – Cheguei! Eu vou matar esse cachorro! Cadê o cachorro?

GUARDA – Que cachorro?

ELE – Cadê o bebê?

ELA – Deu uns gritos horríveis, você nem imagina, grito de gente grande.

GUARDA – Ah, agora eu me lembro: o senhor está falando daquele menino que vocês estavam querendo salvar do cachorro?

ELE – Esse mesmo.

ELA – Onde ele está?

GUARDA – O Pitbull comeu.

ELA – Mas agora nós já temos todos os papéis em ordem pra pisar na grama.

GUARDA – Pode jogar no lixo porque não serve mais pra nada. O Pitbull comeu o menino inteiro.

ELA – Comeu? Inteiro?

GUARDA – Pra dizer a verdade, inteiro não: deixou só alguns ossos. Comigo ficou esse osso aqui, mas eu não sei o que fazer com esse osso. (MOSTRA UM FÊMUR). Se quiserem, podem levar como recordação.

ELE – Ele não tinha duas pernas? Cadê o outro fêmur?

GUARDA – A mãe do menino levou como recordação. Leve este.

ELA – Obrigada.

GUARDA – E rasga essa petição. Não serve pra nada.

ELA – Não rasgo, não: eu vou guardar pra qualquer ocasião. Quem sabe, no domingo que vem, um lobo vem aqui pra comer o senhor em cima da grama, e eu vou salvá-lo.

GUARDA – Obrigado.

ELE – O senhor é um ótimo guardião da lei. Guarde a lei, guarde pro senhor! Boa noite!

 

II

Em seguida entra um funcionário, em outro ambiente mais burocrático.

FUNCIONÁRIO – Pois é: isso que o senhor está contando é muito interessante, muito ilustrativo, muito teatro, mas aqui na prestação de contas está escrito que vocês compraram passagens mais caras pela manhã quando, no mesmo dia, havia passagens mais baratas de tarde. Por que é que vocês não compraram das mais baratas?

CTO – Porque o nosso trabalho começava de manhã.

FUNCIONÁRIO – Podiam começar a tarde e vocês varavam à noite.

CTO – Nós trabalhamos com funcionários do Estado, eles têm horários que nós temos que respeitar.

FUNCIONÁRIO – Mas nós temos que respeitar a letra da lei.

CTO – A letra da lei tem espírito: vamos respeitar o espírito.

FUNCIONÁRIO – E tenho que ler o que está escrito, porque o TCU vai ler o que está aqui, não vai ler o espírito.

CTO – O senhor sabe que o nosso trabalho é importante…

FUN – Importantíssimo!

CTO – Em todas as prisões onde nós trabalhamos as relações entre os funcionários e o presos melhorou, diminuiu a violência, todo mundo está contente, quer que o nosso trabalho continue…

FUN – Mas vocês compraram as passagens de manhã que eram mais caras…

CTO – Nós compramos as passagens mais baratas que estavam à venda de tarde…

FUN – E tem outro problema: três pessoas que trabalharam nesse projeto assinaram a Ata de Fundação do Centro.

CTO – Porque acreditam no Teatro do Oprimido e queriam criar um Centro que fizesse o trabalho que estamos fazendo.

FUN – Mas assinaram.

CTO – Se elas não acreditassem, não assinariam.

FUN – Assinando, elas se tornaram inelegíveis para trabalhar no Centro.

CTO – São as únicas pessoas no mundo inteiro que podem realizar esse trabalho.

FUN – Vocês deviam fazer uma licitação.

 

 

 

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Foto projetada no OcupaDOPS – Do baú do Boal

Registro de projeção na fachada do antigo Dops no lançamento do livro “Hamlet e o filho do padeiro” dia 26 de Abril de 2014, durante o OcupaDOPS.

2014-04-26-22-27-00

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