Torquemada no México

A peça Torquemeda, escrita por Augusto Boal durante a prisão durante da Ditadura Militar brasileira, foi encenada no Centro Libre de Experimentación Teatral y Artística de la Universidad Nacional Autónoma de México (CLETA – UNAM) em 1973.

O grupo de teatro venezuelano Rajatabla e seu diretor Carlos Giménez chegou ao México em 1972. Enquanto iniciava a montagem de Torquemada, Carlos Giménez foi deportado, violentamente retirado de sua hospedagem no México e colocado em um avião de retorno a Buenos Aires.

 

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Capa do Programa da peça encenada no México em 1973. Acesse em: http://www.acervoaugustoboal.com.br/

O espetáculo teve sua estréia em maio de 1973 no Foro Isabelino e ficou dois meses em temporada, dedicando as apresentações ao diretor Carlos Giménez.

 Sobre a estreia de Torquemada, Gerardo de la Torre conta em seu livro “Torquemada: contra viento y marea”:

 

A poucos dias da estreia, todo mundo – moças e rapazes cansados, porém cheios de vitalidade – correm, se preocupam em pintar as paredes, colocar a iluminação, varrer os camarins, colocar os botões no figurino. Ensaiam a tarde, de noite e de madrugada, se criticam e se auto-criticam.

Enrique Buenaventura na Feira Latino-americana de Opinião

Em 1972 Augusto Boal dirige na St Clemment´s Church em Nova York, a Feira Latino-americana de Opinião, produzida pelo TOLA (Theatre of Latin America) e baseada na Feira Paulista de Opinião criada pelo Teatro de Arena em 1968.

Um dos dramaturgos participantes foi o colombiano Enrique Buenaventura, que apresentou a peça “A autopsia”. A cena fazia parte de uma série denominada “Os papeis do inferno”, que abordavam diretamente a violência política colombiana.

As cenas descrevem situações cotidianas, mas extremamente violentas no país. São abordadas as múltiplas facetas da administração estatal abusiva, em que a morte, a tortura e muitas violações aos Direitos Humanos seguem sem nenhum tipo de penalização.

“A autopsia” coloca o medo como a principal forma de controle e foca naqueles que, mesmo sem participar de algum tipo de organização política, devem se submeter a ordens de certos comandos. É a história de um pai que precisa fazer a autopsia de um filho assassinado pelo Exército.

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Enrique Buenaventura na primeira sala do TEC (Teatro Experimental de Cali), fundado por ele (1969).

Foto retirada da página do autor: http://www.enriquebuenaventura.org/

 

Fernanda Montenegro

Hoje Fernanda Montenegro faz 87 anos e relembramos seu trabalho em conjunto com Augusto Boal.

Em 1984 Fernanda escreve carta a Augusto Boal, ainda exilado, sobre o processo das Diretas Já!:
“Espero que eu, ao acordar, as Diretas Já tenham sido aprovadas. O Congresso está cercado pelo Exército. Dizem que pra proteger as instituições. Deus nos acuda. Censura geral. Notícias só nos jornais. A mobilização popular é total e, se não passarem as Diretas Já o pau vai comer. O povo não vai voltar pra casa não: ninguém aguenta mais tanta corrupção e repressão. São vinte anos, Boal! Até já…

São duas horas da manhã. A televisão comunica diretamente do Congresso que a Ementa Diretas Já não passou. Deus nos salve! A madrugada saiu sem nenhuma notícia mais.”

Carta publicada no Correio IMS: https://www.correioims.com.br/carta/deus-nos-acuda/

Em 1986 já de volta ao Brasil Augusto Boal dirige Fedra de Jean Racine com tradução de Millôr Fernandes, com Fernanda Montenegro no papel principal.

A montagem estreou no Teatro de Arena do Rio de Janeiro com Edson Celulari no elenco, figurino e cenografia de Hélio Eichbauer.

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Foto de Luciano Moura. Fernanda Montenegro em cena de “Fedra” no Teatro de Arena do Rio de Janeiro (1986)

Flávio Migliaccio

Flavio Migliaccio é uma das figuras fundamentais do Teatro de Arena, participando de diversas montagens do teatro como: Juno e o Pavão (1957), Eles não usam Black-tie (1958), Chapetuba Futebol Clube (1959), Gente como a gente (1959), Revolução na America do Sul (1960) e Pintado de alegre (1961).

Registro de Flavio Migliaccio, que hoje completa 82 anos, em montagem de Revolução na América do Sul em 1960, peça escrita por Augusto Boal e dirigida por José Renato no Teatro de Arena de São Paulo.

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Torquemada em Buenos Aires

Augusto Boal deixou o Brasil em 1971, após ser liberado do Presídio Tiradentes em São Paulo, onde foi preso e torturado durante a Ditadura Militar brasileira.
 
Em Dezembro de 1971 encenou a peça “Torquemada” na New York University, com alunos da Universidade, em que a figura do inquisidor espanhol Torquemada, conhecido por sua crueldade durante o reino de Aragão e Castela de 1478 a 1494, retoma o sistema corrupto e violento que se instaurava no continente latino-americano.
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Ator em cena de “Torquemada”

Em seguida, Boal e sua família seguiram para o exílio em Buenos Aires, onde residiram até 1976. A peça foi montada e dirigida por ele em Buenos Aires em junho de 1972 no T
eatro do Centro e em outubro do mesmo ano na Sala Planeta. Sobre a apresentação de “Torquemada” em Buenos Aires, Augusto Boal escreveu em seu livro “Hamlet e o filho do padeiro”:
 
“Dirigi Torquemada. Não acreditava no que me havia acontecido. Precisava vê-lo acontecer fora de mim, em cena, para que me pudesse ver, separar-me de mim. Eu e a palavra, eu e o ator. Só assim me entenderia. Não me bastava espelho nem memória: precisava me ver em alguém que me roubasse o nome, o Augusto Boal que eu pensava ser, que trazia colado ao rosto, às mãos, ao peito. Já não sabia quem eu era ou tinha sido. Queria ouvir palavras que pronunciei na tortura. Voz empostada de ator bem treinado reproduzindo gritos roucos. Ver-me, longe de mim. Dirigir-me como dirijo atores.”
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Recorte de publicação de Augusto Boal em “El milagro brasileño – Diario dependiente del State Department”, em Buenos Aires.

Censura nunca mais!

“Como pode trabalhar um artista em ditadura, se o artista é aquele que, livre, cria o novo, e a ditadura é aquela que, fazendo calar, preserva o velho? Arte e ditadura são incompatíveis. Essas duas palavras se odeiam!”

Augusto Boal escreve sobre a Censura durante a Ditadura Militar em sua autobiografia “Hamlet e o filho do padeiro”.

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Na foto: Documento escrito pelo Teatro de Arena de São Paulo denunciando a Censura e repressão ocorrida durante a exibição da Primeira Feira Paulista de Opinião em 1968.

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