Artes e Letras: Entrevistas

Em 2006 Boal deu uma entrevista para a publicação Artes e Letras: Entrevistas da EDUSP.

Segue trechos do ele disse:

por Walnice Nogueira Galvão Teoria e Debate, abril de 2006

“Uma das maiores expressões do teatro brasileiro nos conta um pouco de sua história, parte já publicada em Hamlet e o Filho do Padeiro: Memórias Imaginadas”.

Como você descobriu o teatro?

Quando eu era criança, não havia telenovela, mas o correio trazia, todo fim de semana, fascículos de romances, O Conde de Monte Cristo, A Ré Misteriosa. Minha mãe comprava, lia e dava para a gente ler. No domingo, toda a família se reunia em casa para almoçar, um almoço “ajantarado”. Vinham 25, trinta pessoas. Irmãos e primos, nos juntávamos e dramatizávamos os fascículos. Minha estreia no teatro foi aos nove anos. Mas minha estreia dirigindo foi em Nova York.

E como se deu a politização?

A politização foi fora do teatro. Meu pai era dono de uma padaria e, desde os onze anos, eu o ajudava. Então, via uma população de trabalhadores do curtume carioca que frequentavam a padaria, a maioria negros e todos pobres. A politização se deu pelo choque de classes. Minha família não era rica: meu pai tinha padaria, duas ou três casas na Penha, um bairro operário, mas havia uma diferença muito flagrante entre mim e os colegas que jogavam futebol comigo. Eles eram pobres, passavam por dificuldades. Na hora de jogar futebol, o time era coeso, “todos por um e um por todos”. Depois, um ia dormir numa casa com o chão todo quebrado e eu ia para uma casa bonita e gostosa. Isso dava a um jovem com aquela idade um sentido de que alguma coisa estava errada. O senso de injustiça despertou.

Como você se encaminhou para o teatro com essa idade?

Por volta dos nove anos, comecei a escrever peças sobre essas pessoas, sobre aquela gente. E fiquei amigo do Abdias Nascimento, fundador do Teatro Experimental do Negro. Como eu trabalhava e minhas peças eram sobre os negros que eu conhecia, passei a entregá-las a ele. Uma vez ele quase encenou uma peça minha com Grande Otelo chamada Martim-Pescador, baseada na vida de pescadores.

Crítica de Izaias Almada à peça “Grajáu conta Dandaras, Grajaú conta Zumbis” da Cia. Humbalada

SOBRE DANDARAS E ZUMBIS

Izaías Almada

À Cia Humbalada de Teatro

 

Salve Zumbi dos Palmares! Dunga tará sinherê! Meu irmão de Andalaquituche, de Dambrabanga, do Grajaú. Companheiras Dandaras, companheiros Zumbis ou Zombies. Salve!

Passada uma semana após ter assistido ao espetáculo “Grajaú conta Dandaras e Zumbis”, os ecos de uma noite inesquecível e difícil ainda estão presentes na minha memória.

Inesquecível por presenciar um magnífico trabalho de teatro e difícil por ter de digerir a porrada na cara não só minha ou de minha companheira Bernadette, mas por perceber o grau de hipocrisia e de filhadaputice do Brasil atual, onde a cidade e o Estado de São Paulo lideram aquele que é um dos momentos mais tristes da vida política brasileira.

O lancinante grito de revolta do Grajaú e bairros vizinhos representa o grito de milhões de brasileiros que tentam arrancar do mais fundo de seus corações e de suas almas, algum resto de amor e felicidade, esses sentimentos capturados por um sistema econômico perverso, vil, preconceituoso, racista, machista, homofóbico e tantos outros adjetivos que escancaram para o mundo um país que, parece, finalmente conseguiu encontrar a sua vocação através de uma elite gananciosa, predadora e ainda escravocrata, para dizer o menos.

O conjunto de cenas que vão surgindo e tomando a atenção de cada um de nós espectadores, onde o dia a dia do Grajaú (leia-se Brasil) é visto e ampliado com as lentes dos que procuram por justiça social, igualdade de oportunidades, de direitos, por paz e felicidade, é arrebatador e não deixa a menor dúvida sobre o país em que vivemos. Um país onde a mercadoria mais valiosa é a hipocrisia.

Mães que perdem seus filhos ainda meninos, machões que se embebedam após o futebol, homossexuais caçados e humilhados pelas ruas, travestis que lutam desesperadamente para terem reconhecida a sua condição de seres humanos, negros que embora livres, ainda têm que gritar contra o preconceito e lutar por sua liberdade como Zumbi dos Palmares.

Sentado numa bancada móvel que mudava de posição consoante às cenas que eram apresentadas, embora desperto por fortes emoções, não conseguia de libertar do pensamento e de alguma reflexão sobre o momento em que vivemos, atitude em consonância com o lado épico do espetáculo, sobretudo pela provocação de uma igreja evangélica que se instalou ao lado do teatro, com seus característicos ruídos daquilo a que chamam de “pregação do evangelho”.

Mas o som que vinha das cenas, cantados ou não, abafavam a pregação do demônio, desculpem, a pregação do evangelho.

Cenas que para além da sua acutilante crítica aos valores da sociedade preconceituosa do Brasil de 2016, faziam evocações e, entre elas, uma homenagem ao teatro de Arena dos anos 60 e sua citação ao musical “Arena Conta Zumbi” de Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri.

Ali estava o Humbalada a “contar e cantar” o Taboão e adjacências, percorrendo ruas próximas ao teatro antes e depois da apresentação, integrando-se ao entorno e chamando para si a participação de seus habitantes.

O público, que lotou todas as apresentações do espetáculo, parecia hipnotizado pela enxurrada de palavras e cantos, sons e gestos, que eram vomitados para descarregar o acúmulo de injustiças e perversidades que sofrem os habitantes da periferia de São Paulo, igual a tantas outra periferias de um Brasil aprisionado por uma emissora de televisão, dois ou três jornais, uma polícia ignorante e selvagem, uma internet que liberou o fascismo caboclo e uma intelectualidade desnorteada à procura de uma explicação para aquilo que fugiu aos seus modelos de democracia representativa, sem que sequer tenhamos experimentado a democracia participativa.

Dandaras e Zumbis do Grajaú, vocês estão de parabéns pelo belo espetáculo apresentado, pela coragem de apresentá-lo e pela conexão eterna do homem com a sua vontade de ser livre.

 

 

Programa da Feira Latinoamericana de Opinião (1971)

Em 1971, durante uma viagem aos Estados Unidos, Augusto Boal cria a Feira Latinoamericana de Opinião, ampliando e desdobrando a ideia da Feira Paulista de 1968 , um evento, mais que um  espetaculo , que marcou a sua época pela coragem e ousadia de todos os participantes , incluindo o público que acompanhava solidario essa arrojada ação do Teatro Arena .

Nesta nova Feira, a Latinoamericana, Boal incorpora uma nova dimensão, as mesas de debates , para discutir questões tais  como: “Teatro e revolução… que revolução?” , “Teatro nas prisões”, “O papel das Igrejas na transformação da sociedade”, “As relações entre Estados Unidos e Brasil” e “Porque o Chile é diferente?” com relevantes personalidades da época.

Segue na íntegra o programa da Feira, dirigida por Boal e produzida por  TOLA (Theater of Latin America).

programa-a-latin-american-fair-of-opinion-2